O medo e o estigma colocam em risco de transmissão da hepatite C (VHC) os homossexuais soropositivos para o HIV

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O medo e o estigma colocam em risco de transmissão da hepatite C (VHC) os homossexuais soropositivos para o HIV

Michael Carter, Thursday, October 09, 2008

Um pequeno estudo qualitativo, publicado na Revista Culture, Health and Sexuality, conclui que o estigma está a contribuir para a transmissão por via sexual do vírus da hepatite C entre os homossexuais seropositivos para o VIH. O estudo revelou que o medo e o estigma em relação ao VHC significam, que os homossexuais se envolvem em práticas sexuais com um elevado risco de transmissão do VHC e têm relutância em divulgar ou discutir o seu estatuto serológico para o VHC.

O investigador sugere que devem ser feitos esforços para combater o estigma relacionado com a hepatite C entre os homossexuais masculinos, providenciando informações sobre os riscos de transmissão sexual relacionados com comportamentos sexuais de risco elevado.

Surtos de hepatite C transmitida por via sexual foram relatados entre homossexuais seropositivos para o VIH no Reino Unido e em toda a Europa. Os comportamentos sexuais associados à transmissão sexual do VHC nesta população são o fisting, o sexo em grupo e o sexo anal desprotegido.

Um número significativo de homossexuais seropositivos para o VIH escolhe parceiros sexuais também seropositivos, uma prática designada por “serosorting“. Embora este comportamento possa evitar o risco de infectar um parceiro com o VIH, pode envolver o risco de outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo a hepatite C.

As doenças provocadas pelo VIH e pelo VHC são consideradas estigmatizantes, o que decorre da natureza ameaçadora da próprias infecções e da sua associação a “estilos de vida” que são, muitas vezes, considerados como “desviantes”.

Estudos anteriores sugerem que o estigma poderá influenciar a decisão, das pessoas infectadas com VIH ou VHC, de divulgar ou não o seu estatuto serológico.

Tendo em conta este factor, o Dr. Gareth Owen desenhou um estudo piloto para determinar as experiências emocionais associadas ao estigma entre homens seropositivos para o VIH que eram co-infectados com VHC ou que tivessem recebido um tratamento bem sucedido para esta infecção.

Foram realizadas em Londres seis entrevistas estruturadas com homens de idades compreendidas entre os 32 e os 43 anos. Todos os homens tinham comportamentos de risco para a transmissão sexual da hepatite C, o que incluía fisting, sexo anal desprotegido e sexo em grupo. Muitas destas actividades sexuais ocorreram em contextos de festas sexuais privadas onde eram consumidas drogas recreativas. O “Serosorting” foi relatado pelos seis indivíduos entrevistados.

Todos os homens atribuíram a infecção pelo VHC ao fisting, embora esta prática tenha ocorrido dentro de um contexto de outras actividades que envolviam um elevado risco de transmissão da hepatite C, incluindo sexo em grupo, bem como partilha de lubrificante, brinquedos sexuais e tubos para “snifar” drogas recreativas.

O “sentimento” de serem estigmatizados devido ao estatuto serológico positivo para o VHC era partilhado pelos seis homens. Um deles afirmou que este tipo de sentimento era, muitas vezes, pior do que os efeitos físicos da infecção: “Eu acho que aquilo que nos faz sentir é pior do que a própria doença em si… O medo da rejeição, o medo do estigma e de tudo o que está associado é mais prejudicial do que a própria doença.”

Os participantes do estudo afirmaram que o factor mais importante que conduzia à estigmatização do VHC era o medo. Medo devido à falta de conhecimento sobre a doença, ao modo de transmissão da infecção, de que a infecção por VHC possa complicar a infecção pelo VIH, o medo do impacto da hepatite C no estilo de vida como por exemplo no consumo de drogas e álcool, o medo do tratamento, o medo de rejeição (particularmente a nível sexual) e o medo da morte.

Um dos participantes afirmou que “a hepatite C é o novo grande elefante branco na sala (a verdade que se quer ignorar), “Eu acho que homossexuais masculinos têm medo da hepatite C e julgo que isso se deve ao facto de não saberem grande coisa sobre a doença exceptuando o facto de que pode ser mortal.”

Um homem contou que foi rejeitado sexualmente devido à infecção pelo VHC: “o homem que me rejeitou tinha ouvido falar sobre as implicações da co-infecção. É uma péssima notícia, porque temos parar de consumir álcool e drogas “.

Para além do estigma, o diagnóstico da infecção pelo VHC também foi associado à vergonha e à culpa. Um dos homens disse ao investigador que: “Senti-me um bicho, sujo, isolado. Senti-me sozinho… é uma vergonha: a vergonha, o segredo, o estigma e tudo mais que envolve a doença.”

Um diagnóstico de hepatite C foi entendido entre os homens como factor de exclusão da “camaradagem de serem apenas seropositivos para o VIH.” Este factor foi ilustrado através de um dos participantes do estudo: “A hepatite C ainda não é “pertença” da comunidade homossexual como o VIH, e se não o é, então está fora e mais estigmatizada… Mesmo dentro da comunidade homossexual e na comunidade de pessoas que vivem com o VIH, esta doença criou uma situação de separação entre “eles” e “nós” ”

O estigma significava que os homens não discutiam o seu estatuto serológico positivo para o VHC com os seus parceiros sexuais ou que não divulgavam sua infecção. Um dos homens afirmou que o VIH não era considerado como “algo importante” nos homens seropositivos para o VIH que procuravam comportamentos de “serosorting”. No entanto, “a hepatite C constituía um tópico importante. As pessoas têm medo desta doença, mas ninguém fala sobre isso. ”

Outro homem disse que “por enquanto ainda não tive nenhuma situação em que o meu parceiro sexual tenha revelado a sua seropositividade para o VHC”.

Observou-se também alguma confusão em relação à hepatite C, com alguns homens a afirmar que, dentro da sua esfera sexual, alguns confundiam a hepatite C com a hepatite B.

Muitos dos homens disseram que o estigma silenciava a discussão sobre a hepatite C entre os homens que vivem com VIH que têm um elevado risco de exposição sexual ao vírus. Um deles afirmou que “o estigma silencia e permite que mais estigma cresça em torno do silêncio”, “mas pode-se compreender o silêncio em relação a esta infecção, pois o estigma está sempre presente.”

Embora o investigador reconheça que a pequena dimensão da sua amostra seja uma limitação do estudo, acredita que “acrescenta consistência” às evidências que demonstram que os homossexuais que vivem com VIH precisam de informação sobre a hepatite C.

Com base neste estudo, o investigador propõe um modelo onde o medo da hepatite C faz com que esta infecção seja estigmatizada dentro da comunidade homossexual que vive com o VIH. Este medo conduz à rejeição sexual se a hepatite C for divulgada, o que cria um sentimento de vergonha e de mais medo que, por sua vez, conduz ao silêncio e à não divulgação do estatuto serológico. “Isto faz com que o risco de transmissão da infecção em ambientes de “serosorting” seja elevado e conduza a práticas sexuais desprotegidas”

O Dr. Owen conclui que é preciso fazer mais para contrariar o estigma em torno da infecção VHC entre os homossexuais e que os homens que vivem com VIH devem ser informados sobre os riscos de transmissão da infecção VHC orientada para os seus comportamentos sexuais, ou seja, fisting e outras práticas sexuais que podem caus
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sangramento da mucosa.

Referência
G. Owen. An ‘elephant in the room’? Stigma and hepatitis transmission among HIV-positive ‘serosorting’ gay men. Culture, Health and Sexuality 10: 601 – 610, 2008.

Tradução
GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA


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