Os médicos que os médicos indicam

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Os médicos que os médicos indicamVeja São Paulo convidou 110 profissionais de reconhecido renome para eleger os craques de 21 especialidades Por Alecsandra Zapparoli Há muitas maneiras de avaliar um médico. Formação acadêmica, participação em congressos, artigos publicados, número de cirurgias realizadas, capacidade de diagnóstico, pacientes famosos, e por aí vai. Essas credenciais são muitas vezes levadas em conta na hora de escolher um doutor. Ninguém, no entanto, conhece tão intimamente a complexidade da profissão como os próprios médicos. Só eles possuem os critérios técnicos para avaliar e reconhecer a excelência ou não de um colega. Para chegar aos nomes escolhidos entre os médicos da cidade, Veja São Paulo compôs um júri formado por 110 doutores de reconhecido renome no âmbito universitário, além de clínicos e cirurgiões em atividade no mercado. Cada uma das 22 especialidades escolhidas contou com cinco votantes (nas universidades foram convidados a participar os professores titulares, e nos hospitais-referência, como Albert Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz, entre outros, os chefes de equipe). O médico votava na própria especialidade (não valia votar em si mesmo) e nas outras 21. Veja São Paulo se comprometeu com os participantes a não divulgar nem seus nomes nem suas indicações. Ao todo, foram votados 1 037 médicos, ou seja, cerca de 2,5% dos 41 000 profissionais que atuam na capital.Da consulta resultaram algumas quase-unanimidades, como nas especialidades de urologia, geriatria, cirurgia cardíaca, cirurgia vascular e infectologia. Isso significa que os vencedores ganharam com maior quantidade de votos e às vezes com larga vantagem em relação ao segundo colocado, o que não ocorreu nas demais categorias. Tivemos ainda uma especialidade polêmica: reprodução humana. Boa parte dos que participaram da votação não quis indicar um médico nessa área, alguns alegando falta de familiaridade com a nova especialidade da medicina, outros por considerá-la envolvida em questões éticas. Por essa razão, foi eliminada. Em duas especialidades que cuidam do coração, cirurgia cardíaca e cardiologia clínica, houve empate. Portanto, a reportagem traz o perfil de 23 médicos em 21 especialidades.Como se verá a seguir, trata-se de um time de profissionais altamente qualificados. Isso não significa, evidentemente, que esses sejam os únicos médicos competentes de São Paulo. Além de considerados os melhores pelos seus pares, os 23 vencedores dividem uma série de características comuns: 100% são homens, 70% têm especialização no exterior, 52% exercem atividade acadêmica e 61% afirmam ganhar acima de 50 000 reais por mês, realidade, como se sabe, bem diferente do perfil de uma categoria que vive espremida entre o baixo salário do serviço público e as regras rígidas dos planos de saúde. Para se manterem atualizados, esses craques do estetoscópio participam de pelo menos dois congressos internacionais por ano, lêem exaustivamente e quase não desfrutam vida pessoal. Cobram em média 480 reais por uma consulta (a mais barata é 300 reais e a mais cara, 1 000 reais), o que os torna inatingíveis para a esmagadora maioria da população. Apesar de obcecados por atualizações – o conhecimento na área médica praticamente dobra a cada três anos –, todos, sem exceção, comungam de uma tese: o domínio da técnica não basta. O exercício da medicina envolve a arte de ouvir os pacientes e principalmente diagnosticar os males que eles têm, algo que esses supermédicos, segundo seus próprios pares, conseguem fazer com maestria. UROLOGISTAMiguel Srougi Pense em políticos poderosos. E nos maiores empresários do país. Possivelmente eles estarão entre os pacientes do urologista Miguel Srougi. A lista, que ele reluta em falar, é enorme: Lula, José Alencar, José Serra, Geraldo Alckmin, Joseph Safra, Lázaro Brandão, Abilio Diniz, Olavo Setúbal, Antônio Ermírio de Moraes… Considerado o primeiro médico do Brasil em número de cirurgias de câncer de próstata (realizou até agora 2 750), Srougi é daqueles entrelaçados com a medicina até o último fio de cabelo branco – e olha que não são poucos. Dá aula todos os dias (é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP), atende até 25 pacientes diariamente em seu consultório em Cerqueira César e três vezes por semana, incluindo os sábados, opera no hospital Sírio-Libanês, no qual faz quarenta cirurgias por mês. As estatísticas de incidência da doença explicam esse movimento. “Um em cada seis homens terá câncer na próstata após os 50 anos”, afirma. Quando chega em sua casa, no Jardim Paulista, por volta das 10 da noite, ainda arruma disposição ora para ler, ora para escrever. Aos 60 anos, casado e pai de dois filhos, tem doze livros publicados. “Vivo num incessante processo de busca. Na verdade, não sei bem de quê…”, diz ele, que só vê os melhores amigos a cada três meses. Seu primeiro pulo-do-gato profissional foi a residência médica em urologia pela Harvard Medical School, nos Estados Unidos, em 1977. Dois anos depois, fez doutorado em urologia na USP. Não parou de estudar (e ensinar) desde então. Aproveita a proximidade com os pacientes famosos para garimpar benefícios para a Faculdade de Medicina, que vive sangrando em seu orçamento. Em agosto, inaugurou um moderno centro de ensino e pesquisa em cirurgia para os alunos. Arrecadou 1,6 milhão de reais após alguns telefonemas. Como 70% desse valor foi doado por Joseph Safra, a sala ganhou o nome da mulher do banqueiro, Vicky Safra, outra paciente de Srougi. No começo do ano, também pediu a doze clientes abonados que destinassem 150 000 reais cada um para reformar uma casa que abriga 52 estudantes de medicina. Srougi diz não aceitar de nenhum dos benfeitores os 500 reais que cobra por consulta. “Das 25 pessoas que atendo por dia, cinco ou seis pagam. Quarenta por cento dos meus pacientes são médicos”, afirma o doutor, fã do cineasta Pedro Almodóvar e do escritor Guimarães Rosa. Com fama de exigente e metódico, o bambambã da urologia filosofa ao falar de seus sonhos: “Gostaria de ser exemplo para as novas gerações, mesmo estando cheio de fraquezas”. OBSTETRACarlos Eduardo Czeresnia Como parto normal pode acontecer a qualquer momento, o ginecologista e obstetra Carlos Eduardo Czeresnia, a exemplo da maioria de seus colegas, não tem fim de semana, feriado nem, muito menos, noites garantidas. No último dia 27, à 1h55 da manhã, foi a vez de Sumaya Samed Saab (foto) vir ao mundo pelas suas mãos. “Essa imprevisibilidade da obstetrícia me fascina”, diz ele, que, ao longo de 35 anos de profissão, contabiliza cerca de 4 000 nascimentos. Numa época em que as mulheres e os médicos estão exagerando na dose de cesárias (oito em cada dez partos nos hospitais particulares de São Paulo são com hora marcada), Czeresnia é considerado um médico à moda antiga. “Cerca de 70% dos partos que faço são normais. Só agendo cesarianas se não houver outro jeito.” O obstetra, que cobra 400 reais por consulta e atende nos hospitais Albert Einstein, São Luiz e Pró-Matre, também ganhou os holofotes em 2005, por ter sido o primeiro médico do país a realizar o parto de trigêmeos em duas datas diferentes – o primeiro bebê nasceu de parto normal, enquanto os outros dois continuaram na barriga da mãe e nasceram doze dias depois. “O procedimento só é possível em gestação de fetos não univitelinos e quando o primeiro nascimento ocorre muito prematuramente”, explica. No ano passado, repetiu o feito com mais uma gestante de trigêmeos. As seis crianças estão hoje saudáveis e suas fotos enfeitam, junto com outras tantas, o saguão da clínica de Czeresnia nos Jardins. Exibe todas ali, como um grande troféu. ENDOCRINOLOGISTAAntonio Roberto Chacra O entusiasmo dos pais diante de um convite de veludo verde para a formatura de um amigo médico em São José do Rio Preto (SP) despertou em Antonio Roberto Chacra, então com 4 anos de idade, o desejo de seguir a profissão. “Essa c
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a me marcou muito”, lembra ele. “Hoje não consigo me imaginar fazendo outra coisa.” Professor titular de endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo, Chacra viaja seis vezes por ano para participar de congressos. Nessas ocasiões, aproveita para levar dos aviões os jornais internacionais. “Sou vidrado em notícia”, afirma ele, assinante das revistas americanas Time e Newsweek, da inglesa The Economist e de diversas publicações brasileiras. Quando está por aqui, além das aulas na faculdade, atende em média vinte pessoas por dia, entre retornos e novas consultas (550 reais), em sua clínica no Ibirapuera. de delas está em busca de harmonia com a balança. Diz seguir à risca os conselhos que dá aos pacientes: associar alimentação equilibrada a atividade física. “Não como frituras, evito carboidratos e caminho diariamente”, afirma ele, 1,76 metro e 76 quilos. Bem antes de ser considerado um dos maiores especialistas em diabetes do país, Chacra, aos 24 anos, voltou a ver brilhar os olhos de seus pais diante de um convite de veludo verde. Dessa vez, seu convite de formatura. “Foi uma felicidade sem igual.” NEUROLOGISTA CLÍNICOEduardo Genaro Mutarelli No iPod do neurologista Eduardo Genaro Mutarelli música não tem vez. Os gigabytes do aparelho estão ocupados com a palestra sobre acidente vascular cerebral do último congresso da Academia Americana de Neurologia. Como, a exemplo de alguns de seus pacientes, sofre de dislexia, uma alteração neurológica que causa dificuldades de aprendizagem, prefere ouvir a ler. “Isso sempre foi um grande problema para mim. Depois virou um desafio. Tinha de provar que era bom em alguma coisa”, diz ele, que não só conseguiu cursar a Santa Casa de Misericórdia (foi o orador da turma) como se tornou professor da Faculdade de Medicina da USP. Neurologista clínico dos hospitais Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz desde 1984, fala da sua equipe de doze profissionais o tempo todo. “Devo muito a eles. Nessa área não dá para acertar sozinho”, afirma Mutarelli, que cobra 600 reais por uma consulta. Aos 50 anos, gosta de velejar (seu consultório é cheio de barquinhos que ganhou de presente) e cozinhar – ele jura que prepara um risoto de alcachofra com vitela de primeira. “É sucesso garantido”, conta. Como é do tipo que não gosta de perder “nem no par-ou-ímpar”, não pratica esportes coletivos. Para manter a forma, corre três vezes por semana. Com cinco filhos com idade entre 1 e 21 anos, considera seu maior luxo poder viajar com a família toda. Já foram para Amazônia, Peru, Portugal e, como manda o sobrenome, Itália. OTORRINOLARINGOLOGISTAPaulo Augusto de Lima Pontes No consultório de Paulo Augusto de Lima Pontes, especialista em otorrinolaringologia e cirurgia de cabeça e pescoço, há todos os apetrechos normalmente usados pelos seus colegas e um inusitado microfone. Como cuida da laringe e das cordas vocais de muitos atores, cantores e apresentadores de TV, caso de Silvio Santos, não raro pede a eles para soltar a voz durante o exame. “Em uma dessas ocasiões, ajudei até a compor uma letra”, diz ele, referindo-se a Renascer, da dupla sertaneja Goiano e Paranaense. Rodeado por engenheiros civis na família, Pontes surpreendeu quando optou pela medicina. Fez residência em cirurgia geral numa época em que boa parte das operações não tinha final feliz. “Queria uma especialidade que ficasse mais distante da morte”, conta, aos 64 anos. Durante o curso, curiosamente, teve um abscesso de amígdala. O contato com a otorrinolaringologia o levou à escolha. Como professor titular da Universidade Federal de São Paulo, Pontes dá aulas e opera três vezes por semana em hospitais como Albert Einstein, Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz, Santa Catarina e São Paulo, este ligado à faculdade. Atende ainda vinte pacientes por dia (400 reais), entre retornos e novos clientes, em seu consultório particular. Sai de lá com freqüência às 10 da noite. “Minha vida é o trabalho, por isso me sinto doze meses em férias.” Quando não está com o microfone nas mãos profissionalmente – foi palestrante em sessenta eventos no exterior e quase 300 no Brasil –, gosta de cantar, assim como seus pacientes-estrelas. Dá ouvido à própria voz e conclui: “Sou desafinado. Essa é a minha maior mágoa”. ORTOPEDISTAGilberto Luis Camanho Às vésperas das Olimpíadas de Atlanta, em 1996, a jogadora Ana Moser, a principal atacante da seleção brasileira de vôlei na época, passou por uma cirurgia no joelho. O prognóstico do seu médico era sombrio: pelo menos seis meses de sessões de fisioterapia e recondicionamento físico. Com a medalha de bronze em mãos – a primeira que uma equipe feminina trouxe para o Brasil –, Ana Moser fez um interurbano para o seu ortopedista: “Tá vendo? Eu consegui, eu consegui!”. Essa é uma das muitas histórias de superação de seus pacientes famosos que Gilberto Luis Camanho conta com orgulho. Especialista em joelho, uma das articulações mais complexas do corpo, Camanho foi um dos introdutores da técnica conhecida como artroscopia: com a ajuda de uma câmera de TV, o cirurgião repara os ligamentos e corrige lesões do menisco e da cartilagem, por exemplo. Ele faz trinta cirurgias por mês no Albert Einstein, no Hospital do Coração e no Hospital das Clínicas, onde exerce o cargo de chefe do corpo clínico do Instituto de Ortopedia e Traumatologia. No consultório, o vaivém também é grande: trinta pessoas por dia, entre retornos e novos pacientes (400 reais a consulta). Ah, sim. Ele reconhece o que a maioria dos médicos faz e não admite em público: “Atraso muito as minhas consultas. Esse é o meu maior defeito”. Vaidoso, usa camisas e ternos feitos sob medida. “Com 1,90 metro, não é muito fácil achar roupas.” Para esfriar a cabeça, pratica um esporte que tem pouco impacto nos joelhos: joga golfe pelo menos uma vez por semana. ONCOLOGISTA CLÍNICO Antonio Carlos Buzaid É comum os pacientes chegarem ao consultório de Antonio Carlos Buzaid, diretor-geral de oncologia do Hospital Sírio-Libanês, com exames suficientes para encher um carrinho de supermercado. O volume não o assusta. “Quanto maior a complexidade do caso, mais eu gosto”, diz ele, que costuma chamar tumor de “bandido”. Em 1985, após se formar na Universidade de São Paulo e fazer dois anos de residência no Hospital das Clínicas, resolveu deixar o país. “Quando me formei, os doentes de câncer eram negligenciados. Ficavam à espera da morte.” Treze anos de trabalho nos Estados Unidos como professor e pesquisador em instituições como a Universidade Yale e o MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, fizeram dele um especialista disputado. Setenta por cento de seus pacientes vêm de outros estados. Agendar a primeira consulta com Buzaid (800 reais) pode significar três semanas de espera. Com um filho de 1 ano e outro a caminho, o médico – filho do falecido jurista Alfredo Buzaid, que foi ministro da Justiça no governo Médici e do Supremo Tribunal Federal – tenta, aos 49 anos, compatibilizar seu ritmo profissional com o pessoal. O descompasso, no entanto, ainda é grande. Passa pelo menos doze horas no hospital, estuda oito horas por fim de semana e participa de três congressos anualmente fora do Brasil. “O maior cansaço da oncologia é emocional”, afirma ele, que para espairecer pratica windsurf e coleciona antiguidades. “Tratamos todos com 100% de esforço, mas infelizmente não temos sempre 100% de sucesso. E isso é muito difícil de aceitar.”PEDIATRAAntranik Manissadjian Aos 83 anos, o pediatra Antranik Manissadjian é um poço de boas histórias. Mesmo as que gostaria de esquecer, como a morte de todos os seus seis irmãos durante a I Guerra Mundial num episódio que ficou conhecido como “genocídio armênio”, conta com uma riqueza de detalhes de impressionar. Nascido em Alepo, na Síria, Manissadjian veio com os pais para o Brasil em dezembro de 1930. Disposto a dar o seu melhor à cidade que o acolheu, tornou-se médico. Entrou na Faculdade de Medicina da USP em 1944. Trinta anos depois virou professor titular da disciplina de pediatria, carg

o que exerceu até a sua aposentadoria, em 1994. Também foi diretor clínico do Hospital das Clínicas durante doze anos. Recebe mães aflitas no consultório há exatos 55 anos. O que mudou no comportamento delas em meio século? “Nada. Umas continuam me obedecendo cegamente e outras continuam fazendo o que as amigas sugerem”, diz ele, que responde a cerca de vinte ligações por dia. “A ansiedade das mães tem de ser aliviada.” Manissadjian faz parte do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e atende no consultório particular quatro vezes por semana. Tem uma teoria pouco prática em relação ao preço de suas consultas: “Vai de zero a infinito. Depende de quanto a pessoa pode pagar”. Nem vale a pena gastar saliva com a secretária: “Isso é só com ele”. Com quatro filhos e sete netos, o professor de grande parte dos profissionais que atuam hoje em pediatria diz que não é preocupado com a forma física. “Só faço alongamento no chuveiro”, conta Manissadjian, que teve apenas duas intercorrências médicas mais sérias ao longo dos seus 83 anos: uma fratura exposta na perna depois de um atropelamento em 1994 e uma apendicite aguda em 1942. “Na época fui operado com anestesia de clorofórmio!”, diverte-se. CLÍNICO GERALMario Luiz Silva Barbosa Sábado. O celular toca pelo menos vinte vezes. Nenhuma das ligações é de um amigo querendo marcar uma pizza. Todas elas são de pacientes, com graus diferentes de queixas ou dúvidas, como a mulher que ligou no fim de semana para perguntar se podia tingir o cabelo, já que estava tomando antibiótico… Nada disso parece abalar o humor do clínico geral Mario Luiz Silva Barbosa, 56 anos, famoso entre os colegas por sua paciência e cordialidade. De fala mansa, esse mineiro de Guaxupé costuma atender famílias inteiras, o que, segundo ele, muitas vezes facilita na hora do diagnóstico. Na adolescência, após conviver por um ano e meio com o sofrimento de um primo com câncer incurável, abandonou a idéia de cursar engenharia civil. “Passei a admirar a profissão e resolvi ser médico”, lembra Barbosa, que transmitiu para dois dos três filhos o gosto pela medicina. Sua rotina não foge muito à dos colegas – atende em média vinte pessoas por dia, entre consultas (400 reais) e visitas que faz aos pacientes internados no Sírio-Libanês, hospital onde atua desde 1978. Para evitar as doenças mais comuns que aparecem no seu consultório, como pressão alta, diabetes e problemas cardíacos, joga tênis pelo menos duas vezes por semana. Também gosta de caminhar nas areias de Juqueí, no Litoral Norte. Sempre com o inquieto celular em mãos e pronto para dar respostas. Ainda que seja: “Sim, pode tingir o cabelo”. CIRURGIÃO CARDÍACOSergio Almeida de OliveiraSegunda-feira 8. Às 7 da manhã, o mineiro Sergio Almeida de Oliveira cumpre alguns rituais de aquecimento antes de começar sua primeira cirurgia cardíaca do dia, desta vez no Hospital São José, ligado à Beneficência Portuguesa. Uma assistente faz uma pequena abertura no decote do seu avental azul. “Ele não gosta de se sentir sufocado”, explica. Depois de enxugar as mãos, encesta o pano num lixo que fica a uns 2 metros de distância. É uma maneira de testar a pontaria antes de abrir o paciente. Nesse caso, quem estava à mesa com um estreitamento congênito na aorta era um médico curitibano de 51 anos. Nenhuma novidade para Oliveira, que calcula ter operado cerca de 1 000 colegas. “Eles dão mais trabalho, mas a gratificação é enorme”, diz. Como se estivesse regendo uma orquestra (aliás, não raro ele opera ouvindo a programação erudita da Cultura FM), faz movimentos rápidos e firmes – maneja a tesoura, por exemplo, como um caubói antes de levar o revólver ao coldre. Até a mais experiente das bordadeiras invejaria sua habilidade com pinças e linhas da espessura de um fio de cabelo. “O cirurgião tem uma arma na mão. Não pode ser afoito”, afirma, em tom sempre baixo. Professor emérito da Faculdade de Medicina da USP, Oliveira trabalha no Incor desde sua fundação e treinou um sem-número de especialistas. Em 2002, foi eleito pelos membros da Sociedade Brasileira de Cardiologia um dos onze profissionais da sua área que mais se destacaram no século XX. Encabeçou a lista com outros dois cirurgiões lendários: Adib Jatene, responsável, entre outras inovações, pela “cirurgia de Jatene”, que corrige uma anormalidade congênita do coração, e Euryclides Zerbini, morto em 1993, autor do primeiro transplante cardíaco no Brasil, com quem trabalhou por quinze anos. Quando partiu para a carreira-solo, em 1979, ele montou a equipe de cirurgia cardiovascular da Beneficência Portuguesa. Lá é o seu QG, apesar de atender no consultório particular (300 reais a consulta) e operar desde 1996 nos principais hospitais de ponta da cidade – ao todo, ele e a equipe contabilizam 37 000 cirurgias. “Planejava parar aos 55 anos”, afirma, alinhadíssimo em um terno bem cortado. “Estou com 72 e não penso mais nisso.” Boa notícia aos que ainda serão regidos pelas mãos habilidosas do maestro Sergio Almeida de Oliveira. Fabio JateneFabio Jatene carrega no sobrenome o peso e o orgulho de uma família que faz história na medicina. Dos quatro filhos de Adib Jatene, um dos mais prestigiados cardiologistas do país e atualmente professor emérito da Faculdade de Medicina da USP, três optaram não só pela medicina como pela mesma área de atuação do pai. Fabio até que titubeou. Aos 15 anos, pensou em ser piloto militar. Depois resolveu que faria veterinária. Decidiu na última hora prestar vestibular para medicina. Entrou na Fundação Universitária do ABC e fez residência em cirurgia-geral e cirurgia torácica no Hospital das Clínicas. Dos muitos conselhos do pai, com quem trabalhou por quinze anos consecutivos – dez deles como primeiro-assistente –, gravou um em especial: “Você não precisa ser o melhor, mas precisa ser reconhecido e respeitado pelas pessoas do seu meio”. Hoje, Fabio é dono de dois títulos importantes: diretor do Serviço de Cirurgia Torácica do Hospital das Clínicas e professor titular do Departamento de Cardiopneumologia da Faculdade de Medicina da USP. Por semana, opera de dez a doze pessoas, 70% delas no Incor e 30% em hospitais como Sírio-Libanês, Hospital do Coração, Oswaldo Cruz e Albert Einstein. Em seu consultório, a consulta sai por 330 reais. “Faço questão de todos os dias operar um paciente do SUS”, diz ele, que pratica exercícios diariamente para agüentar o tranco de ficar pelo menos oito horas em pé. A média de idade dos seus pacientes é de 65 anos. “Mas, com o aumento da longevidade, opero freqüentemente pessoas de 80 anos”, conta. Aos 52, cultiva outra atividade que lhe dá tanto prazer quanto fazer uma ponte de safena ou uma plastia na válvula mitral: criar mulas. “É um animal dócil, inteligente e confortável”, descreve ele, que quando pode se refugia em seu sítio em Moji-Guaçu, no interior do estado, para plantar árvores, mexer na terra e, quem diria, andar de mula. CIRURGIÃO VASCULARJulio César Mariño Devoto de Nossa Senhora de Fátima, o médico Julio César Mariño, que é paraguaio e veio para São Paulo aos 17 anos, costuma dizer com leve sotaque espanhol: “Tenho sorte e a mão de Deus”. Quem conhece os resultados do cirurgião especializado em aneurismas (com exceção dos cerebrais) sabe que a frase é simplista. Quando opera um paciente é como se estivesse desarmando uma bomba-relógio. A tensão o faz perder até 2 quilos durante uma cirurgia, que leva em média quatro horas. Opera quinze pacientes por mês nos hospitais Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz e Nove de Julho. Pelos seus cálculos, tem cerca de 1 000 cirurgias de aneurisma de aorta no currículo. “Contribuir para preservar e prolongar a vida de um paciente dá uma sensação íntima de plenitude inigualável”, afirma. Mariño acorda às 5h30 para a ginástica, vai à Faculdade de Medicina da USP, onde leciona, visita os pacientes internados e termina o dia em seu consultório (500 reais). Para minimizar os momentos de stress, apega-se ao violão, instrumento que o acompanha des

de a adolescência. “Gosto de tocar chorinho”, conta o médico, que nos fins de semana livres vai a Campos do Jordão para curtir outra paixão: os cavalos quarto-de-milha. “Quem disse que o cachorro é o melhor amigo do homem?”


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Claudio Souza DJ, Bloqueiro e Escritor
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