Para alguns homens gays a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) pode reduzir o uso do preservativo

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Michael Carter, Thursday, July 01, 2010
Investigadores norte-americanos anunciam na edição online do Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes que uma percentagem substancial de homens gays afirmam que reduzirão o uso do preservativo se a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) provar ser eficaz.

Os investigadores afirmam que a disponibilização de uma PrEP que seja 80% eficaz poderá diminuir as inibições sobre sexo desprotegido. Os resultados demonstram também que tal poderá levá-los a encarar o sexo desprotegido como tendo um nível de risco aceitável.

Os investigadores comentam que “uma melhor compreensão das questões emergentes relacionadas com a disponibilização da PrEP permitirá o desenvolvimento de intervenções que apoiem tanto os utilizadores individuais como as intervenções desenhadas para aumentar o conhecimento e a aceitação da PrEP.

A PrEP envolve o tratamento de pessoas seronegativas para a infecção pelo VIH com medicamentos anti-retrovirais a fim de prevenir a infecção por este vírus. Os testes efectuados em laboratório e em animais tiveram resultados promissores. Um certo número de ensaios clínicos utilizando a PrEP está actualmente a decorrer e são esperados resultados a breve prazo.

Há um considerável optimismo sobre o impacto que a PrEP pode ter sobre a transmissão do VIH. No entanto, algumas pessoas advertem que a disponibilização de um método biomédico de prevenção pode levar algumas pessoas a utilizarem menos o preservativo e a não reduzirem o número de parceiros para evitar o VIH. Foi sugerido que o aumento de comportamentos de risco nas relações sexuais pode prejudicar os potenciais benefícios da PrEP.

Dois mecanismos psicológicos podem desencadear o aumento de comportamentos de risco a nível sexual devido à PrEP. O primeiro é a “desinibição comportamental”. Isto significa que as pessoas que querem ter sexo desprotegido poderiam vir a encarar a PrEP como um substituto para o controlo comportamental ou da utilização do preservativo.

É igualmente possível que a PrEP possa conduzir a uma “compensação do risco”. Algumas pessoas podem considerar que a PrEP reduz o risco de transmissão do VIH de tal forma que, quando sob PrEP, estarão dispostas a ter relações sexuais desprotegidas.

Poucas investigações têm sido conduzidas para avaliar o potencial impacto da PrEP no comportamento sexual. Assim, investigadores em Nova Iorque desenharam um estudo envolvendo 180 homens gays seropositivos para o VIH utilizadores de substâncias psico-activas que tinham tido, pelo menos, um episódio recente de sexo anal desprotegido.

Os participantes completaram um questionário sobre a utilização de drogas recreativas (cocaína, ketamina, ecstasy, metanfetaminas, GHB ou poppers), comportamento sexual de risco e atitudes em relação à PrEP. Os participantes responderam também a questões para avaliar a desinibição comportamental e a compensação do risco.

Os investigadores mediram a percepção do risco através de sete perguntas utilizando uma escala de cinco pontos, para avaliar o modo como o uso do preservativo estava dependente da percepção do risco do participante em cada encontro sexual.

Os homens tinham idade média de 29 anos e provinham de diversas origens étnicas. Apenas uma minoria (42%) tinha frequentado universidade e 40% tinha um rendimento anual inferior a 20 000 USD dólares. Os homens reportaram uma média de três relações sexuais de elevado risco nos 30 dias que antecederam o estudo, tendo duas destas ocorrido sob efeito de drogas recreativas.

Apenas 23% dos participantes tinha ouvido falar em PrEP. Três homens relataram ter utilizado a PrEP. Dois homens afirmaram que a utilizaram antes de ter sexo desprotegido com um homem cujo estatuto serológico para o VIH desconheciam; o terceiro homem disse que tinha utilizado a PrEP por saber que o seu parceiro era seropositivo.

Uma maioria significativa dos participantes (69%) afirmou que a utilizariam caso esta demonstrasse ser 80% eficaz.

As pessoas que relataram seis ou mais relações sexuais de risco nos 30 dias prévios, tinham significativamente mais probabilidades de relatar que utilizariam a PrEP do que aquelas que relatavam menos episódios de sexo desprotegido (OR = 2,71; 95% CI, 1,15-6,40).

Houve uma relação evidente entre a vontade de utilizar a PrEP e a desinibição sexual prévia (OR = 1,85, 95% CI, 1,24-2,75) e a percepção de risco reduzido (OR = 1,76, 95% CI, 1,08-2,87).

Dos homens que disseram que não se importariam de usar a PrEP, 36% relataram que a disponibilização da mesma iria provavelmente reduzir o uso do preservativo.

As pessoas que disseram que a PrEP iria reduzir a utilização de preservativo tinham mais probabilidade de ter um nível de escolaridade mais elevado (OR = 2,56; 95% CI, 1,19-5,47).

A dependência de drogas recreativas foi igualmente associada ao menor uso do preservativo, caso a PrEP fosse disponibilizada.

Os investigadores também encontraram evidências de que a redução da utilização do preservativo devida à PrEP estava associada à desinibição comportamental (OR = 1,76; 95% CI, 1,10-2,82) e à compensação de risco (OR = 2,48; 95% CI, 1,34-4,62).

Após o ajuste dos resultados para potenciais factores de confusão, os investigadores concluíram que a desinibição comportamental (OR = 1,24; 95% CI, 1,05-1,45) e a compensação de risco (OR = 2,30; 95% CI, 1,15-4,6) permaneciam fortemente associadas à disponibilização da PrEP e à redução do uso do preservativo.

“As nossas conclusões sublinham a importância de combinar a disponibilização da PrEP com intervenções comportamentais dirigidas a factores psicossociais específicos… que são mais relevantes para as populações em maior risco”, comentam os investigadores.

Concluem, “a PrEP tem o potencial de dar um contributo extraordinário na transmissão da infecção pelo VIH, mas as suas implicações na percepção de risco e do comportamento devem ser amplamente conhecidas e compreendidas”.

Referência
Golub SA et al. Preexposure prophylaxis and predicted condom use among high-risk men who have sex with men. J Acquir Immune Defic Syndr, advance online publication, 2010.

Tradução
GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA


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