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18/JUNHO/07 |
Domingo, 17 de junho de 2007, 18h20
Para jovens americanos, “cocaína é a nova maconha”
Melena Ryzik
Embora a cocaína e o abuso de drogas tenham desaparecido das manchetes e a cobertura de imprensa sobre a droga esteja limitada a referências nem tão disfarçadas quanto às desventuras de celebridades magérrimas, ela continua a fazer parte da cena social, especialmente em Nova York.
Provas do fato vêm surgindo na música, televisão e até no teatro. De fato, para uma geração que não contou com uma figura como John Belushi para servir de exemplo sobre os perigos do abuso da droga, as referências a ela e até seu uso se tornaram evidentes, casuais e até mesmo ostensivos.
“Ela está à vista”, disse Noel Ashman, um dos proprietários do Plumm, casa noturna localizada em Manhattan. “No clube, nós aderimos firmemente ao código que proíbe o uso de drogas e, sempre que apanhamos alguém em flagrante, o expulsamos da casa. Mas, mesmo assim, o uso é mais freqüente do que há cinco anos”.
Os especialistas em abuso de drogas dizem que essa atitude blasé com relação ao uso da cocaína é resultado de “uma amnésia geracional”. “Parece que o estigma se reduziu” no que tange à cocaína, diz Herbert Kleber, diretor da divisão de abuso de substâncias do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, em Manhattan.
Como parte das pesquisas sobre vício, tratamento de viciados em cocaína e prática em clínica particular, Kleber já ouviu muitas histórias sobre o uso da droga. “As pessoas já não sentem tanto que seja preciso esconder”, disse. “Acreditam que agora possam usá-la de maneira mais aberta”.
A visibilidade dos símbolos culturais – e a ausência de histórias que sirvam de alerta – levam à suposição de que a cocaína não é tão perigosa quanto, digamos, a heroína (droga associada a mortes por overdose de figuras famosas, como River Phoenix e Kurt Cobain, na década passada), ou as metanfetaminas, cuja recente popularidade na comunidade gay levou a uma campanha direcionada especificamente a combatê-la, diz Perry N. Halkitis, professor de psicologia na Universidade de Nova York, que se especializa em estudos comportamentais, especialmente os relativos à epidemia de aids e ao abuso de drogas.
“Se você tem 19 anos e sai para ir a uma festa onde lhe oferecem metanfetaminas, você responde que não, porque ouviu muita coisa ruim sobre a droga”, ele afirmou. “Mas, se alguém oferece coca, pode ser que responda afimativamente, porque supõe que seja uma droga segura”. E, acrescentou ele, enquanto as autoridades reprimem as metanfetaminas, “as pessoas tenderão a substituí-la por cocaína, que tem propriedades similares, quase idênticas”, como estimulante.
Em entrevistas realizadas ao longo dos últimos cinco meses com pessoas envolvidas com a vida noturna e ativas nos setores de entretenimento, mídia e finanças, todas elas disseram que a cocaína tem papel importante nas noitadas. Teron Beal, 34 anos, compositor e ator iniciante, encontra cocaína regularmente e a usa ocasionalmente – e não só em clubes e bares.
“Em reuniões ou no estúdio, as pessoas oferecem cocaína como se fosse café”, diz. “Se você aceita, elas levam na boa e, se você rejeita, elas tampouco se abalam e simplesmente cheiram na sua frente”. “Cocaína é a nova maconha”, ele afirma. “Todo mundo diz isso”.
E a cocaína não é popular apenas em Nova York. “Quando viajo para algum lugar, as pessoas pensam que uso e parecem ansiosas por me oferecer cocaína”, disse Roxy Summers, promotora de festas e DJ que trabalha com o pseudônimo de Oxy Cottontail.
Beal, que se lembra das guerras das drogas que caracterizaram os anos 80, diz que a percepção sobre a cocaína mudou. “Quando eu era menino, sempre que alguém falava de seu vício em cocaína, era como uma sessão nostalgia”, ele conta. “As pessoas contavam que tinham afundado por causa da cocaína, que ela era uma droga pesada”. Agora, em sua opinião, ela representa simplesmente alegria, diversão.
Dominic Streatfield, autor de um livro sobre a cocaína, vive em Londres, onde, de acordo com recentes estudos do governo, o uso dessa droga entre os jovens triplicou desde os anos 90. Ele defende uma teoria diferente. “Em uma cultura obcecada com celebridades, o fato de que a cocaína o faz sentir-se rico e bonito faz dela a droga perfeita para a nossa era”.
Com Wall Street em alta e uma economia mundial que funciona 24 horas por dia, os jovens profissionais têm dinheiro e estímulo para se manterem ligados constantemente. “Eu uso todas os dias”, diz Kristoff, um europeu que vive em Nova York e trabalha no mercado financeiro (ele preferiu não fornecer seu sobrenome). Kristoff contou que paga US$ 150 por 2 g de cocaína. “Se tenho de trabalhar às 6h e estar no pique, cheiro um pouco. Cheiro 1 g de cocaína e faturo US$ 500 mil”.
Quando o Gridskipper, um blog de viagens, publicou em março um post no qual identificava os melhores bares para encontrar cocaína em Nova York, houve tantas respostas que os editores mantiveram o tópico em discussão por diversos dias.
“O uso de drogas tende a ser cíclico”, diz Kleber. “Se uma droga realmente perigosa está em uso, a memória geracional retorna rapidamente. Caso demore para que comecem a surgir vítimas, a epidemia pode durar mais. Em referência ao último período de glória da cocaína, ele acrescentou que, “como dizem alguns dos meus colegas, John Belushi teve de morrer antes que as pessoas acreditassem que essa droga é realmente perigosa”.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
The New York Times
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