Portugal ainda só sabe números de há três anos
Doença que assolou o final do século XX tem números cada vez mais satisfatórios em termos de prevenção a nível mundial
A palavra SIDA é formada pelas primeiras letras duma situação clínica grave, designada por Sindroma de Imunodeficiência Adquirida.
O primeiro caso diagnosticado em Portugal apareceu em 1983. Hoje em dia são mais de trinta mil.
Infelizmente, dados sobre a doença não abundam e o nosso país nem faz parte da rede das Nações Unidas que detecta, de dois em dois anos, o número de casos nos seis continentes. Aliás, Portugal apenas participou nas reuniões do Conselho de Coordenação da ONUSIDA, em Maio e Junho de 2006, assumindo, actualmente, o estatuto de observador. Conforme o acordo informal estabelecido, a intervenção nacional foi reflectida na posição comum do grupo em que Portugal se insere e de que fazem também parte a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo.
O Centro de Vigilância Epidemiológica das Doenças Transmissíveis tinha monotorizado 30.366 casos de infecção VIH/SIDA, dos quais 45% corresponderam a utilizadores de drogas injectáveis, 37,5% considerados associados a transmissão heterossexual, 11,9% a transmissão homossexual e 5,6% a outros modos de transmissão. Quase 18 por cento ocorreram em mulheres, 84,6% ocorreram no grupo etário dos 20 aos 49 anos, 3,3% correspondem a infecções por VIH2.
Epidemia ainda não estabilizou
Segundo a Comissão, aparentemente, a evolução da epidemia ainda não está estabilizada.
Em 2005, a incidência da infecção em Portugal foi de 251,1 casos por 1.000.000, o que correspondia a 2.635 novos casos, ocupando o nosso País o segundo lugar no contexto europeu, em que estão monitoriados 53 países, logo a seguir à Estónia, onde existem 467 casos por 1.000.000 de habitantes.
Anualmente morrem em Portugal cerca de 1.000 pessoas por SIDA, só que a mortalidade pela infecção aumentou até 1996, tendo estabilizado a partir daí. Segundo os últimos dados disponibilizados pela Comissão, que são de 2005, esta estabilização, e tendo em conta que dispomos de um acesso universal e gratuito aos melhores tratamentos, obriga a analisar a efectividade e a equidade do investimento na prestação de cuidados.
Segundo estimativas para Portugal do Programa Conjunto das Nações Unidas para a Infecção VIH/sida (ONUSIDA), existirão no país cerca de 32.000 pessoas infectadas, entre os indivíduos do grupo etário dos 15-49 anos, mas isso pode ser sempre um número errado, visto que se tratam de estimativas.
Os dados também dizem que Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais casos de co-infecção VIH/SIDA e tuberculose, a seguir à Espanha e à França, tendo-se verificado a presença de infecção VIH/SIDA em 15% dos casos de tuberculose avaliados.
A transmissão mãe-filho tem diminuído, situando-se actualmente a respectiva taxa abaixo dos 2%, fruto do sucesso da detecção precoce da infecção e da instituição das necessárias medidas de prevenção. A transmissão associada à dádiva de sangue e órgãos é praticamente inexistente, dada a política de segurança de sangue que tem vindo a ser seguida no País.
Os reclusos são uma população vulnerável na qual são muito elevadas as prevalências de infecção por VIH e de outras infecções transmitidas sexualmente, como a hepatite B, a hepatite C e a tuberculose.
Relação com outras doenças
Dados disponibilizados em 2006 permitiam estimar uma prevalência da infecção por VIH na população prisional de 10%, uma prevalência da hepatite C de 29% e uma prevalência de co-infecção VIH/hepatite C de 6%, o que significa que cerca de 57% dos infectados por VIH estão também infectados pelo vírus da hepatite C. Estima-se que a incidência da tuberculose em meio prisional seja superior a 800 por 100.000 pessoas por ano,
Em termos de discriminação, cerca de 38% dos inquiridos em questionários consideravam que os infectados deveriam sofrer algum tipo de isolamento, 22% não concordavam que as crianças infectadas com o vírus da SIDA frequentassem a mesma escola que as outras crianças e 14% não concordavam que as pessoas que vivem com VIH possam desempenhar a sua profissão nos mesmos locais de trabalho.
Segundo o Eurobarómetro, Portugal apresenta indicadores desfavoráveis face aos outros países europeus em muitas questões relacionadas com a infecção, apesar de ter ocorrido uma melhoria dos níveis de conhecimento.
Não deixa de ser preocupante o nível de concepções erradas que se verificou noutro inquérito a portugueses quanto ao modo de transmissão, em que 30% consideravam que a infecção se transmite pelo beijo, 30% pelo uso das casas de banho, 30% pela picada de insectos, 23% pela tosse e espirro, 18% pela comida e talheres e 5% pelo aperto de mão…
33 milhões de casos a nível mundial
Desde 2001, que os países afectos às Nações Unidas adoptaram a Declaração de Compromisso sobre HIV/SIDA. Os Estados-Membros devem apresentar regularmente relatórios sobre os progressos realizados para a Assembleia Geral.
O secretário-geral encarregou o Secretariado da ONUSIDA de reunir os relatórios enviados pelos países, elaborados de dois em dois anos, para que seja feito o correcto acompanhamento do processo de informação. Depois disso, é preparado um relatório periódico para a Assembléia Geral.
Em estreita colaboração com os governos nacionais, os co-patrocinadores da ONUSIDA e parceiros de desenvolvimento, o Secretariado da daquele organismo afecto à ONU desenvolveram um conjunto de indicadores essenciais para o acompanhamento da Declaração de Compromisso para a primeira ronda de apresentação de resultados em 2003.
Após cada comunicação, os indicadores são revistos e, se necessário, actualizados, com base numa análise do indicador de notificação de anteriores comunicações, aconselhamento por parte de parceiros e desenvolvimentos proggram.
Desta forma, a ONU faz, de dois em dois anos, o levantamento da SIDA em todo o mundo. O último foi em 2007 e estima-se que 33 milhões de pessoas (30,3 – 36,1 milhões) viviam com HIV nesse ano. Calcula-se que 2,7 milhões (entre 2,2 – 3,2 milhões) foram de novas infecções por HIV, num ano em que se calcula que tenham ocorrido cerca de 2 milhões (1,8 – 2,3 milhões) de mortes.
No entanto e apesar de a taxa de novas infecções pelo HIV ter caido em vários países, sendo as estas tendências favoráveis, há referências a aumentosm, por novas infecções em outros países.
Só na África Sub-Saariana existiam, no momento em que o relatório foi feito, dois terços do total de pessoas que vivem com HIV em todo o mundo.
As estatísticas dizem que as mulheres representam metade de todas as infecções pelo HIV, uma percentagem que se manteve estável durante os últimos anos, enq autno que cerca de 370 000 crianças com menos de 15 anos foram infectados com o HIV em 2007.
O número total de crianças que vive com HIV aumentou de 1,6 milhões em 2001 para 2,1 milhões em 2007, sendo que noventa por cento delas vive na África sub-saariana, estando a minoria espalhada pelo resto do mundo.
Os Estados Unidos da América representaram um número de casos estimado em 1,2 milhões, ou seja, 60% dos 2 milhões das pessoas que vivem com o HIV na América do Norte e Europa Ocidental e Central.
Em ambos os lados do Atlântico, o número estimado de pessoas que vive com o HIV continua a aumentar devido ao amplo acesso ao tratamento antiretroviral. No entanto, as regiões divergem em termos de novas infecções pelo VIH.
Mas se, por um lado, a América do Norte manteve uma estatística relativamente estável nos anos mais recentes em relação a novos casos, na Europa Ocidental novos diagnósticos HIV estão a aumentar a olhos vistos.
Mortes por SIDA diminuem todos os anos
Entre 2005 e 2007, foram feitos progressos na prevenção de mãe para filho no que diz respeito à transmissão do HIV.
A percentagem de mulheres grávidas que vivem com o HIV e que receberam tratamentos anti-retrovirais aumentou de cerca de 9% em 2004 para 33% em 2007, tendo em vista prevenir a transmissão mãe-filho.
Países como o Botswana, Namíbia, Suazilândia e África do Sul têm experimentado aumentos da cobertura da prevenção da mãe para o filho.
Os últimos dados recolhidos em 64 países indicam que menos de 40% dos jovens e que têm informação básica sobre o HIV.
Mais novos casos do que casos tratados
Mas nem tudo são notícias de números pouco dignos. Há sinais positivos de melhora em todos os 18 dos países mais gravemente afectados e onde não há dados sobre as mudanças nos principais comportamentos – sexo antes de 15 e vários parceiros
Para as pessoas em maior risco, desde 2005, os técnicos viram triplicar os esforços de prevenção do HIV. incidindo sobre trabalhadores da indústria do sexo, homens que têm sexo com outros homens e pessoas que injectam drogas.
No entanto, o número de novas infecções pelo HIV continua a ultrapassar os avanços no tratamento para cada duas pessoas a quem são ministrados anti-retrovirais, outras cinco ficaram infectadas.
Na altura em que foi elaborada a recolha para o relatório, cerca de 3 milhões de pessoas estavam a receber tratamento anti-retroviral.
Globalmente, a cobertura do tratamento é maior para mulheres do que homens, mas as crianças não estão a beneficiar como os adultos. Na África sub-sahariana, cerca de um terço das crianças que vivem com HIV não deverão receber esse tratamento anti-retroviral como adultos.
De qualquer forma, os aumentos de tratamento têm sido extraordinários em muitos países. Na Namíbia, por exemplo, esses tratamentos foram melhorados de 1% em 2003 para 88% em 2007 e no Rwanda, de 3% para 71% no mesmo período. O Botsuana, por seu lado, atingiu uma das mais altas taxas de cobertura do tratamento do HIV de todo o mundo,
Depois de décadas em que se registou um aumento dos números relativos à mortalidade, o número anual de mortes por SIDA a nível mundial tem diminuido nos últimos dois anos, em parte como resultado de um maior acesso das pessoas aos tratamentos.
O custo da prestação de tratamento do HIV vai continuar, de qualquer modo, a aumentar. Mas não só. Em alguns desses tratamentos é necessário promover aos utentes acesso a esquemas terapêuticos tratamentos de segunda e terceira linhas.
Cristina Costa e Silva
JORNAL DA MADEIRA |
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10/MAIO/09 |
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