Precisamos renovar o discurso

0
129

,

A Gazeta – MT

Editoria: Pág.

Dia / Mês/Ano:

Política

 

10/FEVEREIRO/08

 

 

Padre Wagner Galvão, diretor do Colégio São Gonçalo, diz que a Igreja Católica não vai mudar sua doutrina de 2 mil anos

Téo Meneses
Da Redação

Diretor do Colégio São Gonçalo em Cuiabá, um dos maiores salesianos do Brasil, o padre Wagner Luiz Galvão, 38, é um dos defensores da reformulação da linguagem das instituições da Igreja Católica junto à sociedade. Ele acredita que, dessa forma, poderão ser atraídos novos fiéis em torno do propósito de Deus.

Padre Wagner é responsável por um dos colégios mais tradicionais em Cuiabá e que virou destaque na imprensa do país inteiro ao ter recentemente veiculadas imagens de seus alunos brigando nas proximidades das escolas. O mesmo ocorreu com estudantes do colégio Liceu Cuiabano.

Independente do episódio, padre Wagner não vê com ceticismo a influência atual da Igreja na formação da juventude. Pelo contrário, avalia que tem sido acompanhado cada vez mais por novos fiéis.

Também defende posições históricas da Igreja que, para muitos, resultam no afastamento da juventude e a religião. – Leia abaixo a íntegra da entrevista.

A Gazeta – Por que a Igreja Católica tem perdido a influência na formação dos jovens?

Padre Wagner – A relação dos jovens com a Igreja nos últimos anos tem sido mais de ordem mística, espiritual. Os jovens, como todo o povo de Deus, mas principalmente a juventude, buscam o transcendental. É uma ordem interessante. Muitos jovens que participam dos retiros, dos encontros e dos nossos movimentos têm poucos conhecimentos da doutrina da Igreja ou nem querem conhecer. Existe aí, portanto, uma faca de dois gumes. Há muita participação da juventude na Igreja. Nossas igrejas estão cheias. Temos muitos jovens aqui no santuário onde sou diretor. Nos retiros que eu participo, vejo muitas pessoas novas o ano inteiro, porém, o conhecimento da doutrina e o que a Igreja pensa sobre vários assuntos da sociedade, bioética, cultura e outras coisas estão em segundo plano na cabeça dos nossos jovens.

A Gazeta – O que esses jovens que procuram a Igreja querem exatamente?

Padre Wagner – Em primeiro lugar, os jovens querem ter uma relação pessoal com Jesus Cristo. Não querem conhecer profundamente as doutrinas da Igreja.

A Gazeta – Mas isso não é incoerente? Por que isso ocorre?

Padre Wagner – Acontece porque o que a Igreja ensina, para muita gente, não há um entendimento completo da mensagem. Por exemplo, a questão da vida que estamos vivendo, o ABORTO, a clonagem e outros assuntos não são de fácil compreensão para várias pessoas. Elas não conseguem pensar como a Igreja pensa. E a Igreja é uma instituição de 2 mil anos. Foi fundada por Jesus Cristo e ele tem uma proposta de vida. Acontece que a cultura mudou numa velocidade muito grande, mas a moral, a ética, a vida não mudaram. Mas acredito que somos homens, mulheres, filhos de Deus da mesma forma. Não podemos relativizar a vida. Em muitos lugares da sociedade, isso é feito em favor de uma falsa liberdade, que é sim libertinagem. Existe aí uma grande diferença entre o ser livre e o ser libertino.

Ser livre é aquele que age de acordo com a própria consciência formada. O ser libertino é aquele que vive apenas dos próprios anseios ou angústias.

A Gazeta – O sr. acredita que a Igreja deve readaptar, então, o discurso para agregar mais pessoas?

Padre Wagner – A Igreja não pode mudar a sua doutrina. Foi Jesus Cristo quem a criou. O que precisa ser feito é a modificação da roupagem. Às vezes, a linguagem de muitos padres e catequistas é ultrapassada. Precisamos colocar em prática o que o papa João Paulo II disse já em 1989: nova evangelização. O que é isso? É evangelizar os jovens e a sociedade em geral com uma nova linguagem, uma nova roupagem e novos métodos que não existem em muitas igrejas. Em muitas delas não existe isso porque não se renovou a linguagem. Quando você toca o coração do jovem, quando você modifica e converte a pessoa, automaticamente você mostra aos poucos qual o caminho para se chegar à plenitude em Jesus Cristo. Pelo contrário, muitas igrejas querem em primeiro lugar mostrar a moral e a doutrina da Igreja. Isso, muitas vezes, não é compreendido por parte da população, principalmente o jovem. Precisa primeiro conquistar. Depois, a gente mostra tudo o que Jesus nos ensina.

A Gazeta – Como seria isso na prática e na relação com a política, por exemplo?

Padre Wagner – Nós, Igreja, somos parte da sociedade e não podemos ficar alheios à política. O que não podemos fazer é optar por uma lado partidário. O que devemos fazer é orientar no sentido de valorização da vida, da moral, da Justiça e da igualdade social. Quando falamos em partido político, existe a desagregação. Temos que orientar, na prática, os jovens a serem transformadores. A Igreja tem esse papel. Como mãe, a Igreja tem que acolher todas as pessoas. Não pode fazer uma opção por um partido apenas.

A Gazeta – Existem temas, no entanto, que parecem não resultar num consenso. Neste Carnaval, por exemplo, a Prefeitura de Recife (PE) distribuiu pílulas do dia seguinte. Houve uma reação muito forte, principalmente por parte da Igreja Católica.

Padre Wagner – Nós não podemos aceitar o que foi feito. Essa PÍLULA é uma PÍLULA abortiva. O que falta, no meu ponto-de-vista, é uma conversa com o povo. Temos que explicar o que faz essa PÍLULA, o que é CAMISINHA, o anticoncepcional. Falta diálogo. Ninguém aceita hoje o que vem imposto de cima sem discussão. Isso não pode ser feito só no Carnaval. Tem que ser feito através de um processo longo e contínuo, o ano inteiro. Aqui no Colégio São Gonçalo, por exemplo, os professores de ciência e biologia discutem o que é isso em sala de aula durante o ano inteiro. Eles falam disso não para ensinar a usar, mas para situar o jovem, passar a informação. Os jovens têm que conhecer e discernir o que é bom ou não. Nós nunca, no entanto, seremos contra a vida. A Igreja é a favor da vida, mas existem muitas possibilidades das pessoas terem uma EDUCAÇÃO SEXUAL sem apelação.

A Gazeta – Até porque essa discussão é polêmica. A PÍLULA do dia seguinte evita a gravidez, mas não tem efeito contra as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST).

Padre Wagner – Verdade e isso não é muito colocado. Volto a dizer: falta diálogo com os setores da sociedade. Isso é fundamental.

A Gazeta – A Igreja não perdeu influência em relação a outras fontes de formação de opinião dos nossos jovens, como os próprios amigos?

Padre Wagner – Os jovens vivem na família, depois vão para a Igreja, para a escola. Cada um dessas instituições influencia no processo. Cada etapa da pessoa vai ser marcada pela convivência com uma tribo. Dizer que um influencia mais do que o outro é complicado. Isso vai depender muito da educação de cada pessoa. A minha formação também é em psicologia. Conheço muitas famílias que educam os filhos de forma bem natural. Isso tem relação direta com a influência dos amigos. Se a família conversou pouco, os amigos p
odem
ter grande influência.

A Gazeta – Muitas famílias acabam invocando esse discurso para criticar decisões judiciais que têm relação direta com as decisões domésticas, como a proibição de jogos eletrônicos considerados violentos, como o Counter Strike. O sr. é a favor dessa proibição ou a família que deve ter opção de escolher o que é bom ou não para os filhos?

Padre Wagner – É claro que é a família. Quem sabe o que é bom para os filhos são os pais. Essa decisão não adiantará de nada, se os pais não acompanham o que se passa com filhos e filhas. Hoje nós temos muitas opções para driblar a proibição, como a internet. Se o jovem não joga na casa de jogo, pode pegar na internet. Proibição por proibição não é nada. Dom Bosco nos ensinou que educa-se os jovens com diálogo.

A Gazeta – Diante da perda de influência da Igreja Católica, como o Colégio São Gonçalo de Cuiabá consegue ser um dos maiores salesianos do Brasil?

Padre Wagner – A Igreja, querendo ou não, é uma das instituições de maior credibilidade no mundo. Os pais nos procuraram, independente da religião que praticam, porque sabem que nós vamos oferecer uma educação para a vida. As outras escolas falam que têm isso também, mas não ensinam como se portar na sociedade, como viver de acordo com a doutrina de Deus. Também não gosto do termo perder a influência. As cidades cresceram. A cultura muda rapidamente. Conforme dizem alguns antropólogos, a sociedade vive na neomodernidade. A mentalidade de uma geração não muda mais a cada 5 anos, e sim 2 anos. Talvez não tenhamos acompanhado esse ritmo pela falta de diálogo.

A Gazeta – O número de casamento também tem crescido.

Padre Wagner – Aqui na nossa paróquia faço quatro ou cinco casamentos num único sábado. Multiplique isso no ano, nos outros dias da semana. Na minha opinião, não é a família que está falida e sim a nossa educação familiar. Quem está falhando é pai e mãe. Isso não significa ficar muito tempo com os filhos, mas fazer desse tempo um tempo com qualidade.


Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Artigo anteriorO pior mal do país é a exclusão
Próximo artigoVida
Claudio Souza DJ, Bloqueiro e Escritor
🌟 25 Anos de História e Dedicação! 🌟 Há mais de duas décadas, compartilho experiências, aprendizados e insights neste espaço que foi crescendo com o tempo. São 24 anos de dedicação, trazendo histórias da noite, reflexões e tudo o que pulsa no coração e na mente. Manter essa trajetória viva e acessível a todos sempre foi uma paixão, e agora, com a migração para o WordPress, estou dando um passo importante para manter esse legado digital acessível e atual. Se meu trabalho trouxe alguma inspiração, riso, ou reflexão para você, convido a fazer parte desta jornada! 🌈 Qualquer doação é bem-vinda para manter este espaço no ar, evoluindo sempre. Se VC quer falar comigo, faça um PIX de R$ 30,00 para solidariedade@soropositivo.org Eu não checo este e-mail. Vejo apenas se há recibos deste valor. Sou forçado a isso porque vivo de uma aposentadoria por invalidez e "simplesmente pedir" não resolve. É preciso que seja assim., Mande o recibo, sem whats e conversaremos por um mês

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.