Projeto tenta resgatar “vida” dos órfãos da Aids

0

,

A Gazeta de Limeira

Editoria: Pág.

Dia / Mês/Ano:

Notícias

 

18/NOVEMBRO/07

 

‘Juliana’ é uma das sete crianças que, constantemente, comparece ao Serviço Especializado em Moléstias Infectocontagiosas (Semil). Ainda no útero materno, ela foi contaminada pelo vírus HIV. Aliás, todas as crianças em tratamento no local, contraíram a Aids através da transmissão vertical.
O projeto “Viver é uma arte”, coordenado pela psicóloga infantil Silvia Torralbo, teve início no ano passado, e desde então, os pequenos pacientes encontraram “mais alegria na vida”. “É justamente esse o objetivo. Eles não podem crescer achando que só estão vivendo para tomar remédios todos os dias e colher sangue. Assim como todas as pessoas, essas crianças precisam de felicidade e, acima de tudo, qualidade de vida”, disse a psicóloga.
Após duas décadas do primeiro registro da doença na cidade, o Semil revela a realidade dos pequenos inocentes em tratamento. De acordo com Raquel Cristina Miguel Grassi, coordenadora administrativa do local, sabe-se que existem outras crianças e adolescentes com o vírus, mas não têm o acompanhamento do serviço municipal. “Tenho certeza de pelo menos três crianças que vão para a Unicamp”. Alguns já morreram sem passar pelo Semil. Neste ano, um paciente de dois anos não resistiu.

MUDANÇA DE PERFIL

Das que estão em tratamento constante, todas já perderam o pai ou a mãe para a doença. Apenas Juliana tem os dois. Os pais dela também têm a doença, mas aderem ao tratamento. Esse é um dos lados mais cruéis da mudança de perfil da síndrome.
No início da epidemia, a doença estava restrita a homossexuais e usuários de drogas injetáveis que compartilhavam seringas infectadas. No Brasil, em 1988, quase metade dos portadores de Aids era gay e um em cinco era usuário de drogas.
Como a Gazeta já mostrou em matérias anteriores, nos últimos anos, as relações heterossexuais passaram a ser a principal forma de transmissão da doença. O resultado é que aumentou dramaticamente o número de mulheres atingidas. Tanto que, no fim do mês passado, foi revelado que pela primeira vez, igualou a proporção homens e mulheres com Aids em Limeira. É nesse contexto que as crianças se transformam em vítimas potenciais da Aids.

O MEDO

Embora o projeto “Viver é uma arte” tenha conseguido resultados significativos, a psicóloga afirmou que as crianças que sabem da doença, vivem sob a ameaça de morte da mãe ou do pai. “Elas nunca disseram que culpam os pais por terem a doença. Pelo contrário. O único sentimento é o medo da morte”. Ela ainda disse que, por mais que se explique que a Aids não está mais associada à morte, esse receio é inevitável.
Silvia contou que se trata de crianças com idade insuficiente para entender o HIV. De acordo com ela, antes da entrada da adolescência, é o momento ideal para uma conversa mais franca e aberta. Duas já passaram por essa fase. “Precisam ter ciência da necessidade de prevenção, não só para com os outros, mas com elas mesmas, afinal, as doenças oportunistas estão em todo canto”. Com isso, o projeto trabalha o futuro: “a adesão ao tratamento. Elas sabem que hoje em dia é possível viver mais e melhor, mesmo com o vírus. Porém, o tratamento é para o resto da vida”.
Tanto Raquel quanto Silvia sentem por uma adolescente que deixou de freqüentar o Semil por achar que os remédios é que fazem mal. “Isso é muito triste”. (RR)

Transmissão vertical pode ser evitada

Toda gestante tem o direito de realizar os exames necessários para iniciar o pré-natal. Contudo, é fundamental que procurem um médico logo que descobrem a gravidez. Dentro das inúmeras solicitações do ginecologista está o teste de HIV, independente se a mulher teve ou não comportamento de risco. “Muitas descobrem a doença por causa desse exame”, disse Raquel, coordenadora administrativa do Semil. Diante do diagnóstico e do pré-natal seguido regularmente, é possível impedir que o vírus chegue ao feto. É que existem medidas como o uso de drogas anti-retrovirais, o parto cesariano programado, a suspensão do aleitamento materno, substituindo-o por leite artificial (fórmula infantil), entre outros, que podem poupar a criança da doença. “Mas, para isso, é preciso que as mães se conscientizem da necessidade do pré-natal. Também não adianta achar que estão imunes ao vírus. O tratamento é gratuito e está disponível no SUS”, destacou Raquel. (RR)

“O preconceito covarde”

Se todas as mulheres se conscientizarem da necessidade de realizar o pré-natal logo quando descobrem a gravidez, podem evitar que seus filhos ouçam palavras ofensivas, como a menina Juliana ouviu e contou com detalhes à reportagem: “E o HIV está bem?”, “Minha mãe falou que eu não posso brincar com você”. Juliana contou que já ouviu essas frases de outras crianças e revelou que é esse preconceito que a deixa mais triste. “Eu sou uma criança feliz. Sei que tenho o vírus, mas o que mais me dói, não são as agulhas, mas as palavras das pessoas”. Tanto a menina quanto os outros pequenos pacientes em tratamento, são orientados, através do projeto “Viver é uma arte”, a se posicionarem frente a situações como essas. Tanto que Juliana também contou que a resposta foi: “Então fala para a sua mãe provar e, se ela não conseguir, ela vai ter que pagar um ano de cesta básica pra mim”. Conforme a psicóloga do Semil, percebe-se que os pequenos pacientes também têm noção dos seus direitos, “mas não há o que apague da memória o preconceito covarde”. A menina concluiu fazendo outra revelação, quando a pergunta foi: “Qual é o seu principal medo?”. E, a resposta: “De andar em carroça”. (RR)

Integrantes do projeto vão para o Hopi Hari

Entre os objetivos do projeto “Viver é uma arte” estão proporcionar atividades manuais, corporais, de literatura, vídeos, brincadeiras, cidadania, que possibilitem a expressão das capacidades individuais, desenvolvimento da auto-estima, noções de ética e cidadania, convivência em grupo dentro de um enfoque biopsicossocial, além de ‘passeio’. No último dia 7, as crianças portadoras do vírus HIV, integrantes do projeto, foram ao parque de diversões Hopi Hari. O dia foi aberto apenas para as instituições. A carroça citada por Juliana, foi encontrada lá. Embora ela tenha ficado com medo, disse ter sido um dos dias mais felizes e divertidos da sua vida. (RR)


Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Artigo anteriorMissa afro dentro Consciência Negra
Próximo artigoMilitares do continente americano trocarão dados para combater aids
🌟 25 Anos de História e Dedicação! 🌟 Há mais de duas décadas, compartilho experiências, aprendizados e insights neste espaço que foi crescendo com o tempo. São 24 anos de dedicação, trazendo histórias da noite, reflexões e tudo o que pulsa no coração e na mente. Manter essa trajetória viva e acessível a todos sempre foi uma paixão, e agora, com a migração para o WordPress, estou dando um passo importante para manter esse legado digital acessível e atual. Se meu trabalho trouxe alguma inspiração, riso, ou reflexão para você, convido a fazer parte desta jornada! 🌈 Qualquer doação é bem-vinda para manter este espaço no ar, evoluindo sempre. Se VC quer falar comigo, faça um PIX de R$ 30,00 para solidariedade@soropositivo.org Eu não checo este e-mail. Vejo apenas se há recibos deste valor. Sou forçado a isso porque vivo de uma aposentadoria por invalidez e "simplesmente pedir" não resolve. É preciso que seja assim., Mande o recibo, sem whats e conversaremos por um mês

SEM COMENTÁRIOS

Deixe uma respostaCancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Sair da versão mobile