
Fachada deteriorada, prostitutas nas escadas oferecendo seus serviços, corredores escuros. Acessos por ruas tomadas por usuários de crack sem estacionamento privativo. Nenhum controle de quem entra e sai. Um quarto por R$ 9,99 as três primeiras horas, mas nada de lençóis limpos, ducha forte, ar-condicionado, internet ou qualquer comodidade.
Nessas condições, estabelecimentos autointitulados hotéis, instalados em salas comerciais e imóveis residenciais de Ceilândia e Taguatinga, se transformaram em pontos para diversas práticas criminosas. Entre elas, a exploração da prostituição e o tráfico de drogas.
Por três dias e três noites, o Correio percorreu o roteiro dos hotéis de baixo preço e estadia relâmpago das duas mais populosas cidades do Distrito Federal.
Encontrou 23 negócios com tais características, nada atrativas a interessados em uma hospedagem confortável e segura, à exceção do valor. Passando-se por clientes, o repórter e a fotógrafa entraram em quatro empreendimentos. Não apresentaram identidade em nenhum nem precisaram dar nomes ou dizer as idades.
Nos demais, flagraram o tráfico e o consumo de drogas na porta, além da venda do corpo por mulheres e TRAVESTIS.
Prostituição não é crime no Brasil. Mas a exploração dela, sim. Conversando com prostitutas do centro de Taguatinga, quatro delas revelaram haver um comércio do sexo organizado envolvendo os hotéis e cafetões. As redondezas de cada estabelecimento são loteadas por homens que ganham comissão em cada programa realizado pelas mulheres.
Somente as prostitutas de um determinado grupo pode fazer ponto em determinado local.
Nas áreas comerciais de Taguatinga, além das esquinas, as prostitutas se exibem nas escadas de acesso aos hotéis, em que os quartos ficam na sobreloja.
Muitos começam a trabalhar no meio da tarde, quando as ruas estão cheias de pedestres. O serviço varia de R$ 10 a R$ 150, dependendo do tipo, horário, dia e duração do programa. “Somos nós que movimentamos esses hotéis. Sem a gente, eles fecham”, comentou uma mulher identificada como Priscila, 33 anos.
Nos plantões em frente aos hotéis, a equipe do Correio constatou que, além do corpo, as prostitutas oferecem drogas a quem passa pela rua. Comércio disputado com traficantes bem vestidos. Eles batem ponto na entrada dos hotéis diariamente, no fim da tarde. E vendem maconha, cocaína e crack nas calçadas, inclusive aquelas em frente à avenida mais movimentada da cidade. Ali mesmo, ao lado da porta dos hotéis e de lojas, próximo a paradas de ônibus lotadas, usuários consomem os entorpecentes. Os traficantes também entravam e saíam dos hotéis a todo momento.
Adolescente morta
Diferentemente do que ocorre na maioria dos hotéis, os de baixo custo em Taguatinga e Ceilândia não cobram diária. O serviço é por hora. Também não são necessários reserva nem apresentação de documento na recepção.
Muito menos preenchimento de ficha.
Nos quatro visitados pela equipe do Correio, os funcionários nem sequer perguntaram o nome dos repórteres.
Apenas entregaram uma chave e apontaram o corredor onde ficava o quarto.
Em um dos estabelecimentos, na QNM 8, em Ceilândia Norte, a entrada coincidia com os fundos de um bar.
E o mesmo homem que cuidava do boteco fazia o papel de gerente do hotel, onde a permanência custou R$ 10 a hora.
Serviço pago somente em dinheiro.
Prova de como a falta de identificação facilita o crime nesses estabelecimentos é o caso desvendado na última terça-feira, quando policiais brasilienses prenderam Jonathan de Oliveira Pereira, 19 anos, em Águas Lindas (GO).
Ele confessou ter matado Raíssa Evelyn Miguel Dantas, 17 anos, em um hotel da QNN 17 de Ceilândia, em 3 de fevereiro. Mesmo tendo menos de 18 anos, a menina entrou sem dificuldade no hotel, acompanhada por um homem, por volta das 23h. Ela só chamou a atenção por demorar a sair do quarto, reservado por hora.
Ao abrirem a porta com uma chave reserva, funcionários a encontraram morta, seminua, com o pescoço envolvido pelo fio de um carregador de celular.
O delegado Neto Tavares, chefe da 19ª Delegacia de Polícia (P Norte) e responsável pelo caso, desconfia que o crime tenha sido motivado por ciúmes. A vítima mantinha relacionamentos com Jonathan, mas teria outro namorado.
Além de Jonathan, os policiais da unidade também prenderam Igor Rafael Andrade, 23 anos, suspeito de ajudar na fuga do amigo. Jonathan já tinha passagens pela polícia por porte ilegal de arma e estava respondendo em liberdade pelo crime de formação de quadrilha. Agora, se condenado pelo assassinato de Raíssa, pode pegar de 12 a 30 anos de cadeia.
Após o crime, a polícia fechou o hotel. Mas a medida durou duas semanas. O estabelecimento voltou a funcionar com uma promoção para atrair mais clientes.
Agora, cobra R$ 17 por duas horas.
Pontos do sexo
Além das quadras CSA 1 e 2 – ambas concentram hotéis e boates de striptease – e da Praça do Relógio, também é conhecido por servir de local para programas sexuais em Taguatinga, o Pistão Norte, onde as prostitutas esperam os clientes nas paradas de ônibus, inclusive pela manhã.
CORREIO BRAZILIENSE – DF | CIDADES
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