O abismo
Quando Simone G terminou comigo por telefone, dizendo coisas horríveis, foi muito doloroso. Eu, que durante toda a minha vida me relacionei com mulheres da noite, não ouvi delas nada tão depreciador. E pensar que eu a amava!
A voz que me salvou
Quando voltei, ela foi firme:
— “Cláudio, sua vida — e a nossa — precisam continuar. Volta a trabalhar.”
Essas palavras foram meu pontapé.
No som, tocava minha tristeza — uma fossa coletiva —, mas o ritmo seguia.
Do medo à ruína
Meu medo rompeu qualquer vontade de recomeçar. De cama em cama, perdi o chão — até o diagnóstico em 1994: HIV.
Senti um naufrágio completo.
Durante semanas, recomeçar era impossível.
Não havia tratamento. O Hospital Dia do CRT-AIDS parecia uma zona de guerra.
Cuidei de Waldir até o último suspiro. Márcia me deu um último abraço, disse-me muito obrigado e desencarnou dois dias depois. E eu esperava a minha vez.
Como ninguém quis se responsabilizar por ele, Waldir — nem mesmo a casa de apoio —, fiquei encarregado do funeral.
O caixão era de um madeirite tão frágil quanto a própria vida.
Mas o rosto dele… estava sereno.
Chorei. Pela morte. Pela vida. Por tudo.
Um grito no leito
Na casa de apoio, sentei em frente à assistente social, Rosa Maria (in memoriam). Silêncio.
Até ela irromper:
— “Cláudio, reaja. Sua vida está lá fora. Não fique.”
Foi o estalo.
Voltei a respirar.
Estava lendo 50 Anos Depois, obra psicografada por Chico Xavier, ditada por Emmanuel.
E ali, naquela história, vi uma menina, talvez com 15 anos, carregando nos braços uma criança que não era sua filha, era irmã.
Assumiu a maternidade para proteger a mãe da violência do pai.
Sozinha, vagava nas criptas escuras da Roma Antiga.
E eu pensei:
“Quem sou eu para ousar desistir?”
Olhei para o “Irmão” que cuidava da casa de apoio, já com as malas prontas, e falei:
— Me diga o que é necessário assinar para eu pedir alta.
— Alta?
— É, alta.
— Mas… por quê?
— Porque eu não sou essa pessoa. Essa que fica assim, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.
— Eu não posso te dar alta. Tem que esperar o padre.
— Então escreve aí que saí à revelia. Mas aqui, aqui eu não fico mais.
— E para onde você vai?
— Para a rua. Onde, pelo menos, eu sou dono do meu destino.
Nas ruas, com dignidade
Comecei puxando carroças de reciclagem. Dormia nelas.
Em 1995, com R$ 15, comprei 10 Tamagotchis na Galeria Pagé.
Falei com o fiscal:
— Seguinte, cara. Tenho AIDS. Não tenho ninguém por mim.
Tudo que tenho são esses 10 Tamagotchis. Quero saber se você pode me liberar um espaço. Não posso pagar o acerto. Não agora.
— “Tu tens AIDS, meu irmão?”
Mostrei o cartão do CRT-AIDS.
(Essa ousadia ainda ia me custar caro anos depois, mas naquele momento… salvou meu lado.)
Ele disse:
— Vem comigo.
E me deu um ponto na rua. Virei vendedor ambulante.
Três semanas depois, aluguei um quarto.
Três meses depois, uma casa em Guarulhos.
Seis meses depois, um computador 486 SX, Windows 3.11. Sem internet.
Desmontei tudo na unha. Na louca. Até a controladora de disco era uma placa separada. Remontei do zero.
Da sucata ao caminho
Trabalhei na Bytão, desmontando micros da sucata. Mãos calejadas. Quatro máquinas por dia.
Aprendi.
Depois, emprego na América Comp.
Mas o CRT-AIDS carimbou meu destino: deixei minha carteira cair no banheiro do trabalho num dia em que fui ao médico.
O boy me devolveu. Em silêncio.
E eu pensei: Alea jacta est.
Homero, o dono, quis me manter. Eu era esforçado, estava aprendendo muito.
Mas os sócios dele…
— “Uma doença dessas, não dá.”
No dia do pagamento, Homero me chamou para tomar café. Conversamos sobre amenidades.
Um mês depois, a mesma cena: café… e a demissão.
Ele pediu perdão.
Os sócios o pressionaram até o limite:
“Ou manda embora, ou vende sua parte.”
Peguei Suzana e fui embora. Monte-Mor me esperava.
A SOS Informática me recebeu.
Mas isso, meu amigo…
É outra história.
O que eu não entendo, em nome dos seis mil caralhos, é o porquê de não poder estar escrito, no cartão de agendamento, apenas CRT-A e não CRT-AIDS.
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