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Agência de Notícias da Aids |
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19/JANEIRO/08 |
18/1/2008 – 11h30
Foto: Mercedes Sayagues/PlusNews
SÃO TOMÉ, 18 Janeiro 2008 (PlusNews) – A noite cai cedo na linha do Equador. À medida que seu manto escuro estende-se da baía de Santa Ana à cidade de São Tomé, as mulheres aparecem. Em grupos de duas ou três, elas esperam os clientes no bar Farol ou na discoteca Dolores, centros da agitação noturna na capital do pequeno arquipélago de São Tomé e Príncipe, na costa ocidental de África, junto à linha do Equador.
Ângela*, 28 anos, robusta e simpática, saiu para a rua às 19 horas, vestindo uma blusa de alcinhas preta, uma calça jeans apertada e miçangas nos seus curtos dreadlocks. Seus clientes habituais são “operários portugueses, marinheiros de Malabo [Guiné Equatorial] e são-tomenses”, disse ela ao PlusNews.
Seus clientes preferidos são os marinheiros das frotas pesqueiras estrangeiras. “Eles chegam ao porto loucos por sexo selvagem e trazem presentes como peixe seco, arroz, roupas e brinquedos”, explica ela. Mas os portugueses são os mais promissores: “Se um deles se apaixonasse por mim, eu poderia deixar esta vida e mudar para Portugal.”
Ângela tem um filho de sete anos. Ela começou a vender sexo aos 14, seguindo os passos de sua irmã mais velha. Parou quando ficou grávida e viveu com o pai de seu filho até sua morte súbita há três anos. Seu namorado atual está na cadeia há cinco meses, então Ângela está de volta às ruas.
Não por muito tempo, espera ela. “Estou ficando velha , os homens preferem as mais novas. Ficamos molhadas quando chove, algumas noites não ganhamos nada… não é uma vida boa”, diz ela.
Comércio de sexo crescendo
A soroprevalência no arquipélago é relativamente baixa, de 1,5 por cento para uma população de cerca de 150 mil. Entretanto, a afluência crescente de trabalhadores da indústria petrolífera, marinheiros e pescadores de países vizinhos é preocupante – especialmente considerando que metade dos são-tomenses vive na pobreza, segundo as Nações Unidas.
Os são-tomenses reconhecem que a prostituição aumentou na capital nos últimos três anos. Vêem-se mais mulheres pelas ruas à noite e mais homens nos bares e discotecas, onde chegam sozinhos e de onde saem acompanhados. Um cliente atento notará que algumas destas jovens tiram o preservativo de uma bela caixa de madeira nobre local. Isto significa que elas passaram pelo programa de educação de saúde sexual que a organização não-governamental (ONG) italiana Alisei coordena desde 2006.
“A caixa é um objeto especial que diz ´Eu sou especial, eu cuido de mim´”, explica a coordenadora da Alisei, Mariangela Reina. A natureza difusa do sexo comercial em São Tomé dificulta chegar às meninas, como são conhecidas as jovens prostitutas, para falar sobre a Aids. A Alisei tem dificuldades em recrutar e manter educadores de pares. “As meninas não querem ser associadas ao sexo comercial ou à Aids”, diz Reina. “Isto é um fenômeno oculto, e é preciso de tempo e paciência para alcançá-las.”
Reina faz a diferença entre as “móveis”, mais sofisticadas, que prostituem-se ocasionalmente, e as “fixas”, ou “regulares”, que assumem mais facilmente o que fazem. As últimas são mais fáceis de abordar com preservativos e informação. As prostitutas de rua encontram-se somente na capital. Em outros lugares, o sexo comercial acontece nos bares e discotecas. Uma variação é a “prostituição marítima”, ligada à chegada de navios na capital e nos portos de pesca.
Primeira pesquisa
Em 2007, a Alisei, com verbas do Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, efetuou a primeira pesquisa jamais realizada sobre a indústria do sexo em São Tomé, entrevistando 120 pessoas. Estas informações serão o ponto de partida para a elaboração de um plano estratégico de proteção das trabalhadoras do sexo. A pesquisa mostrou que elas têm bons conhecimentos gerais sobre a Aids. Nove em cada dez declaram preferir o preservativo masculino como meio de proteção contra as infecções transmissíveis sexualmente e a gravidez indesejada.
Os resultados mostraram que em mais da metade dos encontros sexuais, os dois parceiros trouxeram preservativos. Entretanto, a falta de confiança nos homens faz com que a maioria das entrevistadas prefiram usar seus próprios preservativos. Dez por cento relataram ter dificuldades em colocar preservativo num homem bêbado ou mais velho.
As mulheres conseguem preservativos nos postos de saúde e através das ONGs, mas gostariam de encontrá-los em lojas, bares e discotecas abertos à noite, lugares apontados no estudo como convenientes. A pesquisa mostrou também que 17 por cento das entrevistadas aceitam fazer sexo sem preservativo e 24 por cento bebem bebidas alcoólicas antes do sexo, o que é motivo de preocupação.
Cerca de metade das entrevistadas dizem não sentir-se bem em relação ao sexo comercial. A maioria delas tem entre 15 e 24 anos. Entre as mais novas, a maioria considera o sexo comercial como uma atividade temporária até que encontrem um homem ou um trabalho.
Um terço declarou ter um cliente por dia; outro terço, dois ou mais clientes diários e para o resto o número é variável. A maioria dos clientes são locais, e pouco menos da metade das entrevistadas declarou ter clientes estrangeiros. Os melhores clientes? Em grupos de discussão, as meninas dizem preferir os turistas europeus. “Eles pagam em moeda estrangeira, são mais românticos, pagam bebidas, comida e café-da-manhã sem descontá-los da tarifa”, diz Babica Dias, ativista da Alisei.
Os preços variam de US$ 8 a 10 para um cliente local e de US$ 20 a 30 para os estrangeiros. Do lado da demanda, a Associação São-Tomense de Planejamento Familiar (ASPF) distribui ocasionalmente preservativos entre os funcionários da aduana no porto da capital, mas não nos portos de pesca. “Deveríamos implementar um programa nestes locais”, diz Amado Vaz, responsável pela ASPF.
Tamancos cor-de-rosa e brincos dourados
Perto do escritório da Alisei em São Tomé fica um bar pequeno mas bem agitado. Tete*, 18 anos, usa tamancos rosa-choque, um short jeans, um top branco e dourado, e grandes brincos dourados. Ela seguiu o exemplo de sua irmã mais velha e entrou no sexo comercial. Seu ponto é o bar e ela aluga um quarto numa casa vizinha. A equipe da Alisei conquistou sua confiança e Tete ganhou informação e preservativos. Ela já fez o teste de HIV duas vezes. “Eu tinha medo”, diz ela.
Dina Zolda Cruz é educadora de pares da Alisei. Com paciência e bom humor, ela e Dias vão atrás das meninas, apesar da reticência inicial e das faltas aos encontros marcados. “Elas são tímidas, não querem falar e não querem ouvir”, diz Dias. Eventualmente ganha-se a confiança das meninas e as educadoras ensinam-lhes técnicas de negociação.
“O melhor momento para abordar a questão do preservativo é já dentro do carro, mas antes do sexo. A melhor abordagem é enfatizar a proteção do cliente”, diz Cruz. Equipadas com
e
sses conselhos e as caixas bonitas, as meninas estarão mais protegidas quando a noite cair em São Tomé.
Perfil das vendedoras de sexo (Fonte: ALISEI):
- Três em cada 10 têm um emprego fixo remunerado
– Metade vive com seus filhos
– Seis em cada 10 têm um parceiro fixo
– Oito em cada 10 já fizeram o teste de HIV
– Todas mostraram conhecer os meios de transmissão do HIV
– Cerca de duas em cada 10 aceitam fazer sexo sem preservativo
Fonte: Irin PlusNews
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