Saúde Mental e Cognitiva: não basta estar vivo
Uma vez ouvi Pedro Calabrez, da NeuroVox, fazer uma pergunta aparentemente simples a uma plateia: você gostaria de viver cem anos? Cento e trinta?
A resposta que ele diz receber de muita gente é quase sempre a mesma: depende.
Depende de como eu estarei.
Depende de minha memória. De minha capacidade de pensar. De reconhecer as pessoas que amo. De decidir o que quero. De compreender o mundo à minha volta. De continuar sendo capaz de planejar, escolher, conversar, discordar, aprender alguma coisa nova e, sobretudo, continuar sendo eu.
Calabrez usa essa pergunta para mostrar que, para a maioria de nós, longevidade puramente biológica não basta. Queremos que o corpo continue vivo, evidentemente, mas queremos que exista alguém dentro dele capaz de usufruir dessa vida.
Foi ouvindo isso que me veio imediatamente Rubem Alves.
Rubem escreveu sobre a vida como uma obra de arte e foi muito mais longe: para ele, “a vida é uma entidade estética”. Não basta que aparelhos continuem registrando batimentos, respiração, pressão e outros sinais biológicos. Há uma dimensão da vida que está na capacidade de sentir alegria, beleza, presença, desejo, saudade, espanto.
E ele usa uma imagem que nunca mais me deixou: uma sonata é bela também porque termina. Se fosse eterna, deixaria de ser música e acabaria transformada em tortura. Para Rubem Alves, aquilo que chega à sua completude pede o último acorde.
Não estou começando uma seção de saúde mental falando em morte.
Estou começando falando em vida.
Porque existe uma diferença monumental entre manter um organismo funcionando e manter uma pessoa vivendo.
Foi por isso que esta categoria nasceu.
Chegamos a uma idade que a epidemia não imaginava
Durante muitos anos, falar sobre HIV significava falar essencialmente sobre sobreviver.
Carga viral. CD4. Infecções oportunistas. Pneumocistose. Toxoplasmose. Tuberculose. Medicamentos. Resistência. Internações.
Depois vieram tratamentos cada vez melhores e aconteceu algo extraordinário: pessoas que receberam diagnósticos quando ainda eram jovens começaram a envelhecer.
Agora algumas entram nos setenta. Outras chegarão aos oitenta.
Isso muda completamente a pergunta.
Não queremos apenas saber quantos anos alguém viverá com HIV.
Precisamos perguntar como esses anos serão vividos.
As próprias diretrizes do NIH para pessoas mais velhas que vivem com HIV recomendam atenção especial à saúde cognitiva e mental. Elas registram que alterações podem atingir memória, atenção, velocidade de processamento e funções executivas; também destacam ansiedade, depressão, isolamento social, doenças vasculares, polifarmácia, sono e outras condições que podem participar desse quadro. Importante: comprometimento cognitivo em quem vive com HIV não deve ser automaticamente atribuído ao próprio vírus. Ele frequentemente é multifatorial.
É exatamente por isso que esta categoria não poderia se chamar simplesmente Demência.
Muito menos Alzheimer.
Estamos falando de algo muito maior.
Estamos falando da conservação da pessoa.
Memória é importante. Mas não é tudo.
Saúde cognitiva não significa apenas lembrar onde colocou as chaves.
Significa conseguir organizar o dia.
Entender uma notícia.
Perceber quando alguém está tentando enganá-lo.
Administrar dinheiro.
Seguir um tratamento.
Planejar uma viagem.
Aprender a usar uma tecnologia que não existia quando você tinha quarenta anos.
Entrar numa conversa e conseguir acompanhar o caminho que ela percorre.
Tomar decisões sobre o próprio corpo.
Escolher quem entra na sua casa e quem sai dela.
Dizer sim.
Dizer não.
Mudar de ideia.
Continuar sendo sujeito da própria história.
A função executiva — a capacidade de planejar, organizar etapas, mudar de estratégia e levar uma decisão até o fim — pode ser tão importante para a autonomia quanto a memória. E o NIH chama atenção justamente para o fato de que alterações cognitivas sutis em pessoas que vivem com HIV podem envolver essas funções, não apenas esquecimento.
Perder alguma velocidade aos setenta não significa deixar de pensar.
Precisar de uma agenda não significa ter demência.
Esquecer uma palavra não transforma ninguém em incapaz.
Mas também não é aceitável colocar tudo na gaveta preguiçosa chamada “é a idade”.
E saúde mental não fica do lado de fora dessa porta
Há coisas que começam na alma e aparecem na memória.
Uma pessoa deprimida pode perder concentração.
Uma pessoa ansiosa pode passar o dia inteira ocupada com uma ameaça que nunca chega e não conseguir registrar direito o que está acontecendo ao seu redor.
Uma pessoa que dorme mal pode passar a manhã tentando raciocinar através de uma névoa.
Uma pessoa isolada pode deixar de conversar, discutir, aprender, circular e encontrar razões para se levantar.
E pessoas que vivem com HIV chegaram à velhice carregando uma história muito particular.
Algumas enterraram amigos, parceiros e companheiros de tratamento.
Algumas viveram anos escondendo o diagnóstico.
Algumas foram rejeitadas.
Algumas ainda são.
Há quem tenha atravessado décadas sendo lembrado pelo mundo de que carrega um vírus e, depois dos setenta, descubra que agora o mundo também decidiu lembrá-lo de que é velho.
Não precisamos colaborar com nenhum desses dois estigmas.
O NIH destaca depressão, ansiedade e isolamento social como questões relevantes no envelhecimento com HIV e recomenda que saúde mental seja parte do cuidado, não um apêndice que só aparece quando alguém já não consegue suportar a própria vida.
Há uma coisa chamada permanecer conectado
E aqui entra uma palavra de que gosto muito porque ela costuma ser sequestrada pelo mundo dos negócios:
network.
Rede.
Nós precisamos de rede quando envelhecemos.
E não estou falando apenas de ter alguém para chamar caso caia no banheiro.
Estou falando de pessoas que sabem que você existe.
Pessoas que esperam sua mensagem.
Alguém que percebe quando você fica três dias sem aparecer.
Alguém com quem discutir um filme.
Um grupo.
Uma aula.
Um projeto.
Uma amizade nova aos setenta e quatro anos.
Um velho amigo reencontrado.
Um neto que lhe ensina alguma coisa no celular e aprende outra com você.
Uma mesa de bar.
Uma igreja, para quem gosta.
Um grupo de leitura.
Um curso.
Uma oficina.
Pilates.
Dança.
Xadrez.
Voluntariado.
Um fórum na internet.
Uma comunidade de pessoas vivendo com HIV.
Um projeto que ainda precisa ser terminado.
Tudo isso é rede.
E rede não é apenas companhia.
É estimulação cognitiva, identidade, responsabilidade, troca e pertencimento.
As novas recomendações da OMS sobre redução do risco de declínio cognitivo e demência incluem tanto atividade física quanto atividade social, treinamento e estimulação cognitiva entre as estratégias que podem contribuir para preservar saúde cerebral. A OMS também chama atenção para fatores modificáveis como hipertensão, diabetes, tabagismo, álcool, inatividade física, isolamento social e perda auditiva. Não existe uma garantia individual contra demência, mas há muito mais a fazer do que simplesmente esperar que ela chegue ou não chegue.
Manter-se ativo não significa disputar uma Olimpíada
Há uma crueldade particular em transformar envelhecimento saudável numa competição.
Não precisamos produzir velhos de propaganda, todos correndo maratonas ao nascer do sol.
Manter-se ativo significa usar aquilo que ainda temos.
Caminhar quando podemos caminhar.
Fortalecer músculos quando podemos fortalecê-los.
Aprender.
Ler.
Ouvir música.
Conversar.
Cozinhar.
Escrever.
Ensinar.
Perguntar.
Fazer planos.
Ter curiosidade.
Continuar interessado pelo mundo.
E, se uma doença retirar uma possibilidade, procurar outra.
Atividade física e atividade social aparecem nas recomendações atuais justamente porque cérebro, circulação, metabolismo, humor e vida social não são sistemas independentes.
Não se trata de impedir que alguém envelheça.
Isso seria uma guerra idiota contra o calendário.
Trata-se de preservar autonomia durante o maior tempo possível.
Porque a dor que dói também é não saber
Martha Medeiros escreveu que saudade é não saber.
Não saber mais o que a pessoa está fazendo.
Se continua sorrindo.
Se continua dançando.
Se ainda gosta das mesmas coisas.
Se mudou.
Se está feliz.
Talvez exista algo dessa mesma angústia quando começamos a perceber mudanças dentro de nós.
Por que esqueci?
É idade?
É depressão?
É o HIV?
É o remédio?
É o sono?
É alguma doença?
Vai piorar?
Vou deixar de reconhecer as pessoas?
Vou depender de alguém?
Não saber também dói.
E boa informação serve justamente para diminuir essa escuridão.
Não prometendo certezas que a medicina não possui.
Não vendendo suplementos milagrosos.
Não transformando qualquer esquecimento numa sentença.
E também não dizendo “isso é normal da idade” diante de alguma coisa que merece investigação.
É para isso que esta categoria existe
Saúde Mental e Cognitiva existe porque viver muito só vale a pena se pudermos continuar encontrando alguma coisa dentro da vida que mereça ser vivida.
Aqui falaremos de memória e esquecimento.
Atenção.
Função executiva.
Comprometimento cognitivo leve.
Demências.
Depressão.
Ansiedade.
Sono.
Apneia.
Medicamentos.
Polifarmácia.
Audição.
Isolamento.
Luto.
Atividade física.
Estimulação cognitiva.
Relacionamentos.
Autonomia.
E sobre algo que exame nenhum mede adequadamente:
a vontade de continuar participando da própria vida.
Não prometemos juventude eterna.
Nem queremos.
Uma sonata eterna seria um suplício.
Queremos outra coisa.
Queremos que, enquanto houver música, a pessoa ainda consiga ouvi-la.
Que reconheça alguma beleza.
Que tenha alguém a quem contar o que viu.
Que continue fazendo perguntas.
Que possa escolher.
Que possa amar.
Que possa se irritar.
Que possa mudar.
Que possa aprender.
Que tenha uma rede.
E que, vivendo com HIV aos setenta, oitenta ou seja lá quantos anos a vida permitir, ninguém olhe para ela como um organismo que simplesmente precisa continuar emitindo sinais numa tela.
Porque o objetivo nunca foi apenas sobreviver.
O objetivo sempre foi viver.
Você precisa fazer login para comentar.