SAÚDE // Pernambuco apresenta uma das maiores taxas do país da doença transmitida de mãe para filho durante a gestação
Juliana Colares
julianacolares.pe@diariosassociados.com.br
Secular, prevenível, curável e, ainda assim, um perigoso problema de saúde pública. Não existem estatísticas sobre casos de SÍFILIS adquirida via sexual, mas os números mostram a forma mais cruel da doença: a SÍFILIS congênita.
Além da gestante, companheiro também deve ser tratado para evitar risco de nova infecção. Foto: Jaqueline Maia/DP/DA Press – 8/6/09
Transmitida de mãe para filho durante a gestação, essa síndrome provoca abortos, mortes após o nascimento e sérios problemas de saúde, como cegueira, deficiência mental e problemas cardíacos. Em 2007, foram registrados 588 casos de SÍFILIS congênita em Pernambuco, sendo 64 abortos e 11 mortes após o nascimento. No ano passado, 367 casos, dos quais 45 acabaram em abortos e 17 na morte de recém-nascidos.
Até maio deste ano, a SÍFILIS provocou pelo menos três abortos em Pernambuco, estado que apresenta uma das maiores taxas de SÍFILIS congênita do país. Números que mostram que nem todos os avanços científicos foram suficientes para manter a doença sob controle. Afinal, a bactéria causadora da SÍFILIS foi descoberta há mais de umséculo, o diagnóstico existe há mais de 80 anos e o tratamento é feito à base de penicilina, considerado o primeiro antibiótico moderno, descoberto no final da década de 1920.
Os dados mais atuais do Ministério da Saúde (MS) mostram que, em 2007, Pernambuco apresentava um índice de 3,8 casos de SÍFILIS congênita em menores de um ano de idade por mil nascidos vivos. É a quinta maior taxa do Brasil – atrás do Acre, do Amapá, de Alagoas e do Rio de Janeiro. Número bem mais alto que o índice do Nordeste (2,1), do país (1,8) e, principalmente, da média ideal para que a doença seja considerada sob controle: 0,5 caso por mil nascidos vivos. Em 2008, o índice caiu para 2,5, segundo registros estaduais, ainda muito superior ao desejado.
Mesmo com a tendência de decréscimo de SÍFILIS congênita verificada no estado desde 2005, o índice ainda é considerado alto pelo coordenador estadual do Programa de DST/AIDS da Secretaria Estadual de Saúde, François Figuerôa, e pela presidente da regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de DST, Terezinha Tenório. Um problema que na maioria das vezes não se sustenta na falta de acesso ao pré-natal. Pelo contrário.
Recusa – Dados da Secretaria Estadual de Saúde mostram que entre os anos de 2006 a 2008, 88,5% das 1.604 mulheres que tiveram (ou perderam) bebês com SÍFILIS congênita fizeram, sim, o pré-natal. E não foi só uma consulta. Foram quatro ou mais. As causas são muitas. E vão da qualidade do pré-natal ao tratamento do parceiro da gestante, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos médicos. Segundo François Figuerôa, apesar de ser um direito garantido em portaria do Ministério da Saúde, ainda há dificuldades no acesso ao exame diagnóstico, demora para divulgação do resultado do teste e profissionais de saúde que acabam não pedindo o exame durante o pré-natal. Além disso, há mulheres que se recusam a fazer o teste. Sem contar com as situações em que a gestante é tratada, mas o homem não. Resultado: ela é infectada novamente. Para a tocoginecologista do Serviço de Atendimento Especializado em DST / AIDS do Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam) Maria Helena Macedo, esse é um dos principais problemas. E esbarra, muitas vezes, em mitos como o de que não se pode ingerir bebida alcoólica durante o tratame nto, provocando a recusa de muitos homens que acreditam que terão que passar três semanas sem beber.
“A grande dificuldade é convocar os parceiros”, disse. “A mulher engravida sozinha. Ele (o parceiro) pouco aparece no processo, pouco engravida junto com ela. E muitas têm dificuldade de compreender e de discutir esse assunto com o parceiro”, alertou a gerente de Atenção à Saúde da Mulher da Secretaria de Saúde do Recife, Benita Spinelli. O assunto é tão sério que a SES já prepara para outubro uma campanha chamando atenção para tratar o homem com SÍFILIS. Na capital, 246 casos de SÍFILIS congênita foram identificados em 2007 e 180 no ano passado. Entre os problemas que contribuem para a elevada taxa de casos de SÍFILIS congênita, Terezinha Tenório ainda cita outras causas. Entre elas, o início tardio do pré-natal, o não comparecimento a pelo menos seis consultas e o temor que alguns médicos têm de que a penicilina possa causar reação alérgica, como o choque anafilático, o que é raro – ocorre em menos de 1% dos pacientes.
Saiba mais
SÍFILIS congênita
- Ocorre quando o feto é infectado pela bactéria causadora da SÍFILIS, o Treponema pallidum
- A infecção ocorre via transmissão vertical – de mãe para filho, durante a gestação, através da placenta de uma grávida infectada
- A transmissão da mãe infectada para o bebê pode ocorrer em qualquer fase da gestação ou durante o parto
- A bactéria está presenta na corrente sanguínea da gestante infectada. Após penetrar na placenta, o treponema ganha os vasos do cordão umbilical e se multiplica rapidamente no organismo do feto
- Quanto mais recentemente a gestante tiver se infectado, mais treponemas estarão circulando e maior será o risco de transmissão para o bebê
- A SÍFILIS pode se manifestar logo após o nascimento ou durante os dois primeiros anos de vida da criança
- Na maioria dos casos, os primeiros sinais e sintomas estão presentes já nos primeiros meses de vida
- A doença pode provocar aborto e a morte do bebê.
- Quando sobrevive, a criança pode apresentar pneumonia, feridas no corpo, cegueira, dentes deformados, problemas nos ossos, surdez ou deficiência mental
- Há casos em que a criança nasce aparentemente normal e a SÍFILIS se manifesta após o segundo ano de vida
- Com o tratamento adequado, à base de penicilina, mães com SÍFILIS podem dar à luz crianças saudáveis
Fonte: Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)
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