Espetáculos sobre o mundo gay tomam os palcos de Nova York, mas temas como AIDS e a luta por direitos homossexuais são substituídos pelas relações pessoais
Patrick Healy
THE NEW YORK TIMES
Uma nova safra de peças e musicais nessa temporada traz personagens gays em histórias de amor, substituindo as mensagens políticas e específicas das décadas de 80 e de 90 como The normal heart e Angels in America por apelos mais pessoais para o progresso social. Essas produções sobre a vida gay fazem pouca ou nenhuma menção ao HIV ou à AIDS e deixa o ativismo direto um pouco de lado, com as cruzadas de militantes retratadas com ambivalência mais do que com ardor. A política desses espetáculos – há sete deles estreando em Nova York nas próximas semanas é sutil: eles põem as preocupações cotidianas dos americanos em um contexto gay, mostrando que o amor e o casamento entre homossexuais, bem como a adoção e a paternidade gay, não são tão diferentes das variações heterossexuais.
Apesar de a perseguição continuar para a maioria desses personagens, como em The New York Times TRAUMA – Patrick Breen (de azul) e Patrick Heusinger em cena de ‘Next fall’, nova peça da Broadway: relação abalada por um acidente muitos filmes e programas de televisão mostrando histórias de amor HOMOSSEXUAL, a aceitação cada vez maior da AIDS como uma pandemia em vez de uma doença restrita à comunidade GLBT – e o debate mais amplo sobre casamento gay e soldados homossexuais – levaram (e até certo grau libertaram) roteiristas e produtores a explorarem cenários mais abrangente.
Joe Zellnik – que, com o irmão David, criou Yank!, novo musical Off Broadway sobre um caso de amor complicado entre dois homens servindo o Exército na Segunda Guerra Mundial – diz que eles evitaram deliberadamente a propaganda política e, em vez disso, tentaram transmitir uma mensagem sobre igualdade através de um retrato mais gentil de homens “que eram gays lutando na guerra”.
– Não estávamos tentando escrever um musical abertamente político sobre gays no Exército, porque percebemos queYank! se tornaria mais subversivo se o aproximássemos dos velhos modelos clássicos de histórias de amor de Rodgers e Hammerstein, entre dois homens, do que se puséssemos os personagens em contextos limitados – observa Joe Zellnik.
Na nova peça da Broadway Next fall, em que enormes diferenças religiosas testam a união de um casal gay, um acidente de trânsito – não AIDS – deixa um dos homens em péssimas condições.
– Acho que temos uma chance melhor de atrair espectadores heterossexuais e gays com emoções universais, como amor e lealdade, que tocam as vidas desses homens e mostram como somos iguais, em vez de fazer isso por meio de argumentos polarizadores – conta Richard Willis, um dos principais produtores de Next fall, que teve pré-estreia ontem.
Programas de TV como Will & Grace e filmes como Milk – A voz da igualdade, O segredo de Brokeback Mountain e Será que ele é? mostraram o amor e as amizades gays como partes naturais da vida. Alguns desses filmes terminam em separação ou morte para personagens gays – parte de uma longa tradição temática de retratar personagens homossexuais sofrendo, seja por morte, doenças ou suicídio. Essas questões trágicas eram especialmente comuns no teatro do século 20 e início do 21, incluindo as peças The children’s hour (1934), de Lillian Hellman, Suddenly last summer (1958), de Tennessee Williams, e The Laramie project (2000). Na década de 80 e início dos anos 90, contudo, as histórias de homens gays em peças como As is, The normal heart, Jeffrey e Love! Valour! Compassion! mostravam, com frequência, personagens adoráveis ou solitários em um cenário de ativismo e crítica ideológica à aparente indiferença do governo e da sociedade para combater a AIDS ou tratar americanos gays como cidadãos iguais.
Os novos espetáculos dessa temporada são, por sua vez, histórias de amor – românticas ou platônicas – entre gays. De certa forma, a mudança de declarações políticas explícitas para histórias sutis reflete o debate em círculos políticos sobre continuar lutando nas eleições e nos tribunais pelos direitos dos homossexuais imediatamente ou ter uma visão mais ampla que inclui construir alianças e dar tempo para mais americanos se envolverem com questões como casamento gay.
Além de Yank! e Next fall, estão em cartaz The pride, que explora os desafios de ser gay na década de 50 e hoje; The temperamentals, sobre um casal HOMOSSEXUAL real que inclui Harry Hay, um dos fundadores da pioneira organização pelos direitos gays Mattachine Society, em 1950; e uma remontagem de The boys in the band, peçamarco de 1968 sobre um grupo de homens que representam uma espécie de família uns para os outros.
Prestes a estrear estão The kid, novo musical off Broadway sobre um casal gay adotando uma criança, e a remontagem da Broadway de A gaiola das loucas, que não pretende priorizar o travestismo, mas a história de amor de um casal HOMOSSEXUAL que criou um filho junto.
Vários outros espetáculos que estão por vir, como Lips together, Teeth apart e Looped, um dos poucos exemplos nessa temporada de um espetáculo com cores gays cujo foco é uma mulher, que, às vezes, se sente atraída por outras mulheres.
Discriminação não é tolerada
A mudança que essa temporada teatral de Nova York reflete, diz Tony Kushner, autor de Angels in America, é que o número de pessoas com HIV mudou radicalmente, e a discriminação direta contra gays e lésbicas não é mais aceitável na sociedade americana.
– O casamento gay e a política “Don’t ask, don’t tell” (“não pergunte, não fale”) do Exército são as duas maiores questões atuais, em que o cenário não é o mesmo do que quando escrevi Angels, entre o fim dos anos 80 e início dos 90 – ressalta Kushner.
Kushner prepara uma nova peça, mas a AIDS não é tão central no novo trabalho. Angels, por sua vez, deve ter a primeira grande remontagem de Nova York no segundo semestre.
(Tradução: Victor Barros)
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