Um estudo realizado em Madrid concluiu que 92% das pessoas que fizeram o teste poderia obter um resultado válido ao realizarem o teste através da picada no dedo, (o mesmo teste utilizado em clínicas), sem qualquer tipo de instruções exceto o folheto que acompanha o teste.
O estudo de Madrid testou também a aptidão das pessoas em reconhecer um resultado reativo, não reativo ou inválido ao observar fotografias de resultados. Apenas pouco mais de 5% dos resultados não reativos foram interpretados incorretamente (2,7 como falsos positivos) e 3,6% dos testes reativos foram interpretados incorretamente (1,1% como falso negativo).
Não foi dito aos participantes o resultado atual do teste até ao final do processo. Nove em 519 participantes (1,7% ou um em cada 58 participantes) estava infetado pelo VIH. Nos restantes participantes, oito interpretaram corretamente a fotografia semelhante ao do seu próprio resultado observado, enquanto o nono participante apresentou dúvidas sobre se a fotografia mais semelhante ao seu resultado correspondia a um resultado reativo ou inválido.
Após realizarem o teste a si próprios, 84% dos participantes afirmou sentir-se motivado a realizar novamente o teste.
Como o estudo foi conduzido
O estudo foi implementado em três locais de rastreio em cinco localizações na região de Madrid – na Chueca, o bairro gay, próximo de duas estações de comboios, e em dois campus universitários. Os testes foram efetuados em tendas; os investigadores observaram que o período do ensaio, de outubro de 2009 a fevereiro de 2010 foi “particularmente frio e chuvoso”, e sugeriram que se os testes fossem realizados na casa das pessoas poderiam ter resultados mais viáveis.
O estudo foi cuidadosamente estruturado para que os participantes não recebessem instruções da equipa sobre como usar o teste. Em primeiro lugar, 313 dos 519 participantes receberam uma brochura com informação e ilustrações sobre como usar o teste. Depois, usaram o kit do teste para o fazer com a equipa a observar mas não a ajudar, tal como se estivessem sozinhos em casa. Os outros 207 participantes, para propósito de comparação, receberam ajuda e conselhos da equipa quando necessário.
O teste de sangue aplicado foi o Determine HIV1-2 antibody/p24 antigen. Consiste em picar o dedo com uma pequena lanceta e apertá-lo para que duas gotas de sangue entrem nas duas janelas que detetam os anticorpos do VIH e o antigénio p24. Nos kits disponibilizados para as clínicas, os médicos dispõem de um pequeno tubo capilar de vidro para recolher uma quantidade precisa de sangue, contudo, os participantes não treinados acharam este método difícil e as instruções para depositar “duas gotas de sangue” pareceu disponibilizar resultados adequados.
Após uma pequena entrevista sobre a sua experiência, os participantes encontraram-se com um profissional de saúde que, após disponibilizar aconselhamento para a infeção pelo VIH, (de acordo com a legislação espanhola este aconselhamento é obrigatório, realizou um segundo teste de sangue confirmatório usando o mesmo kit de teste Determine mas, desta segunda vez, utilizando o tubo capilar.
O resultado do teste Determine demora cerca de 20 minutos para ser obtido. Durante este período de espera, foram mostradas aos participantes seis fotografias de vários resultados, reativos, não reativos e inválidos e foi-lhes pedido que os identificassem com a ajuda da brochura. Foram usadas uma variedade de conjuntos de seis fotografias de forma a gerar dados alargados.
Nesta altura foi também pedido aos participantes para descreverem a sua experiência ao efetuar o teste e interpretar os resultados, se se sentiam motivados a fazê-lo novamente e quanto é que estariam dispostos a pagar pelo teste Determine, caso este fosse vendido sem prescrição médica. Completaram também um questionário em papel sobre os fatores demográficos e os comportamentos de risco.
Finalmente e após todo este processo, o resultado foi transmitido pelos técnicos, com aconselhamento apropriado e referenciação.
Resultados em pormenor
O recrutamento foi, na sua totalidade, voluntário: os participantes simplesmente dirigiam-se à tenda do teste. Cinquenta e seis por cento dos participantes foram recrutados numa tenda única, na Chueca. Apesar de este ser o “local gay”, apenas 29% de todos os participantes se definiram como homens gay; 34% eram mulheres. Quarenta e sete por cento de todos os participantes tinham feito anteriormente o teste para a infeção pelo VIH e 51% daqueles que realizaram o teste sem ajuda (não foi uma diferença significativa). Um quarto dos inquiridos decidiu não participar (19% dos que realizaram o teste sem ajuda). Não houve diferenças demográficas entre aqueles que participaram e aqueles que decidiram não participar.
Oito por cento (25) dos participantes que realizou o teste sem ajuda obteve um resultado inválido; os homens gay tinham menos de um terço de probabilidade de obter um resultado inválido comparativamente com os outros participantes.
Cerca de cinco por cento dos participantes interpretou erradamente, pelo menos, uma fotografia com um resultado reativo, não reativo ou inválido quando, na realidade, mostrava um resultado diferente. Cerca de 2,7% dos participantes interpretou de forma incorreta um resultado inválido ou negativo como positivo; 1,5% identificou resultados inválidos como não reativos e 1,1% identificou resultados reativos como não reativos. As pessoas com mais de 30 anos, em comparação com pessoas com idade inferior, tinham o dobro da probabilidade de interpretar o resultado do teste erradamente bem como as pessoas não nascidas em Espanha ou sem educação universitária.
Noventa e três por cento dos participantes que produziram resultados válidos e 80% que produziu resultados inválidos classificaram a administração do teste como “muito fácil” ou “relativamente fácil” e 98% daqueles que identificaram corretamente as seis fotografias e 77% daqueles que identificaram pelo menos uma fotografia incorretamente disseram que interpretar as fotografias era muito fácil ou relativamente fácil.
Houve alguns casos individuais em que as pessoas experienciaram algum tipo de perturbação psicológica: num caso, a pessoa sentiu tonturas após retirar sangue e no segundo caso a pessoa ficou amedrontada com a possibilidade de um resultado reativo após fazer o teste e enquanto observava as fotografias de resultados.
Nenhuma pessoa, após fazer o teste, afirmou ter menos interesse em usá-lo novamente e 80% afirmou que o seu interesse aumentou.
Quando questionados sobre o preço a pagar por cada teste, um terço afirmou entre 10 a 19€, um quarto das pessoas referiu 20 a 29€ e um quinto referiu 30€ ou mais. O teste OraQuick está agora à venda por $40.00 nos E.U.A. que, ao câmbio atual, corresponde a cerca de 31€ ou £25. Os investigadores comentam que, dadas as recentes questões sobre a validade do teste ao antigénio p24, este talvez não devesse ser incluído num teste de sangue desenhado para uso doméstico, sendo assim mais barato.
Implicações
Este estudo é importante em parte porque o teste sanguíneo tem um período de janela menor do que o OraQuick, o teste de fluido oral aprovado para uso doméstico nos E.U.A. e que agora está à venda sem prescrição médica. O OraQuick tem um período de janela considerável. No ensaio que originou a aprovação do Oraquick, 7% das pessoas que estavam infetadas pelo VIH receberam resultados falso negativos.
É provável que o período de janela do teste de sangue Determine HIV antibody/p24 antigen, usado neste estudo, seja mais curto.
Tal como os investigadores afirmaram, “esta é a primeira publicação que demonstra que uma elevada percentagem de pessoas seronegativas para a infeção pelo VIH é capaz de fazer o teste de sangue num local de proximidade e de interpretar os resultados corretamente.”
Afirmam ser necessário efetuar mais investigações em diferentes populações e com kits diferentes.
Referência
De la Fuente L et al. Are participants in a street-based HIV testing program able to perform their own rapid test and interpret the results? PLoS One 7(10): e46555 online publication. October 2012.
Gus Cairns
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