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terça-feira, março 10, 2026

Todos em busca da cura

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Da dona de casa ao vice-presidente, pessoas de todos os tipos ajudam no estudo de novos medicamentos

Fernanda Aranda, iG São Paulo

Cláudio da Silva, 39 anos, Roberto Fernandes, 60 anos, Edilene Correia, 45 e José Alencar, 77 anos são exemplos de brasileiros que, sem receber um tostão em troca, aceitaram ser voluntários de projetos de pesquisa.

 

Os laboratórios tentam transformar o sangue, as possíveis reações alérgicas, os resultados de exames clínicos deles em possíveis cura para aids, infarto e câncer. Para isso, alguns experimentam medicamentos de eficácia não comprovada. Outros coletam testes médicos de forma periódica. Tem gente que toma vacina para avaliar a resposta do organismo à dose.

 

“É cansativo, mas me dá uma felicidade saber que posso conseguir ajudar outras mulheres a tratar uma doença tão dolorida”, fala Edilene, que participa de um ensaio sobre câncer de mama e sempre leva o filho de oito anos a tira colo.

 

O motivo para aproximar a ciência de pessoas que sequer escolheram a área da saúde como profissão é variado. O vice-presidente Alencar e a dona-de-casa Edilene, por exemplo, são submetidos às técnicas experimentais de tratamento na tentativa de buscar alternativa aos tumores (de intestino, no caso dele e de mama no caso dela) que não dão trégua mesmo com as melhores terapias convencionais disponíveis.

 

Por sua vez, o aposentado Roberto Fernandes, após ser surpreendido por um infarto que colocou sua saúde em xeque, aceitou colaborar para que os médicos encontrem uma droga ainda mais eficaz no combate às panes cardíacas. “Nunca imaginei que eu um dia poderia participar da criação de um remédio para infarto”, conta.

 

Cláudio da Silva – hoje aposentado por invalidez por conta de um problema nos olhos – nunca foi contaminado pelo vírus HIV mas perdeu pessoas próximas na luta contra aids. Topou participar do teste inédito – já finalizado no Brasil e ainda em andamento em outros países – que pretende trazer ao mundo uma vacina contra a doença. “Minha mãe ficou muito preocupada. Mas eu aceitei fazer parte do grupo assim que vi o cartaz com o anúncio em um hospital”, lembra.

 

Independentemente do argumento que justifica o “sim”, a indústria farmacêutica e as universidades de todos os cantos do mundo dependem desta resposta para lançar novos produtos de qualquer área médica. No Brasil, a parcela recrutada no cotidiano para contribuir com a evolução dos tratamentos cresce na proporção em que os estudos clínicos realizados no País também aumentam.

 

As projeções mais conservadoras – estimadas pela Sociedade Brasileira de Pesquisa Clínica – dão conta de que esta população voluntária some hoje ao menos 16 mil brasileiros (conta simples para 10 voluntários para cada um dos 1.600 ensaios do tipo em andamento). Não existe um cadastro único que compute o número total de voluntários.

 

“O País só foi incluído na participação de pesquisas clínicas na metade da década de 90. Por isso, ainda existe muito preconceito por parte dos médicos e também dos pacientes em participar de pesquisas clínicas”, afirmou o médico oncologista Max S. Mano, coordenador da área de pesquisa clínica do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), entidade que no momento recruta voluntários para 18 pesquisas clínicas diferentes.

 

“Essa realidade, ainda bem, está mudando, principalmente porque as questões sobre condução de pesquisa clínica agora fazem parte da formação do médico”, completou Mano, acrescentando que, além de parceiro de pesquisas internacionais, o Brasil agora também amplia a realização de pesquisas genuinamente brasileiras. A tendência é aumentar o número de “Edilenes”, “Cláudios”, “Robertos” e “Josés”.

 

Pacientes e não cobaias

 

O aumento do número de voluntários de projetos de pesquisa precisa vir acompanhado de um extremo controle por parte das autoridades de saúde, afirmam os especialistas. O cuidado serve para não transformar o Brasil em um simples fornecedor de “cobaias” à indústria estrangeira ou mesmo nacional.

 

Uma população com baixa escolaridade, sem esclarecimento preciso sobre os riscos de participar de um projeto científico sobre novos remédios pode ser presa fácil de estudos sem ética e que ameacem a integridade dos participantes, alerta José Rubem da Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (Sobravime).

 

Para esta não ser realidade brasileira, a participação de seres humanos em pesquisa é fiscalizada pelas 602 comissões de ética em pesquisa existentes no País. Hoje, afirma Dalton Luiz de Paula Ramos, coordenador adjunto da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) não há uma única denúncia sobre falhas no processo de participação de voluntários em estudos, abuso ou negligência com as pessoas participantes.

 

Com a ampliação do número de voluntários em pesquisas, explica Ramos, surgiu também a necessidade de criar um grande banco de informações virtual – já em fase de elaboração – para auxiliar não apenas os cientistas a se informarem sobre as pesquisas que estão em andamento, como também para os voluntários poderem acompanhar os resultados parciais dos estudos e os passos seguintes.

 

Resultados para as próximas gerações

 

Todos os cientistas ouvidos pelo Delas afirmaram que o sujeito da pesquisa é tão importante quanto o pesquisador. Foi graças à participação deles que nasceram desde o simples comprimido para dor de cabeça até a mais recente vacina para a gripe suína, por exemplo. No Brasil, diferentemente dos Estados Unidos, a participação de voluntários não pode ser remunerada e é classificada por muitos pesquisadores como “um ato de solidariedade”.

 

A vitória, entretanto, nem sempre é desfecho do estudo. Não há garantias de que os remédios em testes vão virar realidade. Os custos de produção de uma nova medicação de câncer, por exemplo, chegam a custar cerca de R$ 2 bilhões e ainda levam mais de 30 anos para serem concluídos.

 

“Todos os voluntários que participam de pesquisas precisam saber disso, assinar termos de consentimento e saber que os resultados positivos, se vierem, podem ser úteis talvez apenas para as próximas gerações” lembra Greyce Lousana, presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa Clínica.

 

Luiz Paulo Kowalski, diretor do comitê científico do Hospital AC Camargo – outra referência em pesquisa clínica – diz que além do benefício próprio, também prevalece nos voluntários a sensação de ajudar o outro. Marcelo Sampaio, cardiologista do Instituto Dante Pazzanese e coordenador de uma das pesquisas sobre enfarte, completa que este ímpeto é o que mais motiva os voluntários.

 

O voluntário Cláudio da Silva concorda. Desde que há três anos topou participar dos testes da vacina da aids, ele sabe que os resultados podem falhar, mas ainda assim não freia o sonho.

 

“Fico só imaginando o dia. Estarei em casa, o telefone vai tocar e os médicos vão me falar: Cláudio, se prepara, amanhã vão anunciar a vacina da aids”. “E será pela internet” arremata.

GAZETA DE ALAGOAS

Editoria: Pág. Dia / Mês/Ano:

05/MARÇO/2010


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Claudio Souza DJ, Bloqueiro e Escritor
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