O “castelar” – fenômeno em que mulheres presas constroem, por meio de cartas, histórias imaginárias de amor com direito até de se encontrar com o príncipe encantado num castelo – foi apresentado em Lisboa pela brasileira Márcia de Lima como possibilidade resgatar a sexualidade das reclusas e prevenir o HIV.
Numa manhã fria e chuvosa dentro da Penitenciária Feminina da Capital – São Paulo, Roberta (nome fictício) nem se lembra dos longos anos que ainda terá que ficar presa. Ela está ansiosa para receber uma carta de amor que vem de outro presídio do Estado.
Há alguns meses, Roberta começou a “castelar” com um homem que nunca viu pessoalmente, mas que já sonha em casar, com direito a uma grande festa na praia, muita comida, bebida e, claro, vestida de branco e perfumada com aromas de rosas vermelhas.
Além de distrair milhares de presas como Roberta, o castelar, que vem da ideia de criar um castelo, resgatou a sexualidade e contribuiu para a discussão da prevenção do HIV e de outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) entre as reclusas, explicou a técnica em saúde Márcia de Lima. Representando a unidade Santana do Serviço de Assistência Especializada em DST/AIDS da Prefeitura de São Paulo, Lima ganhou destaque entre as apresentações do III Congresso da Comunidade de Países de Lingua Portuguesa sobre HIV/AIDS, que terminou na semana passada em Lisboa, Portugal.
“Quando falamos no castelar, os olhos das presas brilham. Elas consideram uma viagem com a caneta. Pela troca de cartas elas conseguem imaginar até o tipo de sexo que desejam”, disse a palestrante.
Inspiração para a pesquisa do seu mestrado em 2004 e do seu atual doutorado, Lima contou que a descoberta do castelar surgiu pela percepção da baixa adesão das presas ao serviço de visita íntima.
Segundo a técnica em saúde, apesar de ser uma grande conquista para as internas, a visita íntima liberada para elas em 2001 é muito mais desconfortável em comparação as que os homens recebem, já que as presas só têm direito a essa regalia uma vez por mês num período máximo de duas horas e com a obrigatoriedade de ser com o já determinado parceiro fixo.
“Percebemos que dessa maneira tão regrada elas não gostavam, além do que o fato de estarem presas e de certa forma serem as mais interessadas pela visita, o poder delas em exigir o PRESERVATIVO diminuía muito”, disse Lima.
Entretanto, no castelar não há espaço para brigas nem para o medo da infecção do HIV, explicou a palestrante.
“É um arranjo que elas encontraram para viver um amor de verdade e protegido”.
Assim como Roberta, a maioria das presas que castelam acredita que quando saírem das prisões terão seus amores esperando nas portas dos presídios para colocarem em prática a construção do castelo que sonharam durante muito tempo.
AIDS nos presídios femininos
Em 2006, uma grande campanha pelo fim da violência contra as mulheres divulgou alguns dados sobre as mulheres encarceradas.
Segundo essa campanha, a população prisional feminina do Estado de São Paulo era composta por mulheres jovens (77% tinham menos de 35 anos), 53% delas afro-descendentes, com baixo grau de escolaridade (84% não ultrapassaram o ensino fundamental/1º grau), com internações anteriores em instituições como a FEBEM (54%), histórico de violência conjugal (51%) e maternidade precoce (78% delas foram mães antes dos 21 anos).
A incidência de HIV/AIDS nos presídios femininos do Estado de São Paulo estava em torno de 18%, contra 11% entre dos homens.
AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA AIDS |
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22/03/2010
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