Um ano de retrocessos na resposta nacional contra a epidemia da AIDS
Epidemia da AIDS
Militantes da luta contra o preconceito, a discriminação e pelos direitos das pessoas soropositivas fizeram uma avaliação da resposta brasileira contra a doença em 2013 e foram unânimes em afirmar que a política nacional contra a epidemia de AIDS sofreu retrocessos e perdeu espaços importantes em todo o país. Posições conservadoras e falta de atenção do governo estão entre os principais alvos das críticas..
Foi o ano mais conturbado na história da epidemia, segundo avaliação do coordenador do Espaço de Prevenção e Atenção Humanizada (Epah), José Araújo Lima Filho. “Aconteceram muitos retrocessos, como vetos em campanhas para populações específicas, que foi um absurdo, E também o corte do diálogo entre sociedade civil e governo”, disse Araújo. “Este ano não deveria ter existido na história da AIDS no Brasil.”
Araújo lembra que a política de AIDS também não conseguiu avançar no Congresso Nacional. “A bancada conservadora impossibilitou a construção de políticas públicas para minorias e a frente parlamentar de AIDS não avançou por conta do conservadorismo que impera entre os políticos.”
Com relação à assistência ao portador do HIV, Araújo acredita que a resposta também perdeu espaços em todo o Brasil. “Os serviços de saúde estão sucateados. Neste momento, estão fazendo a transferência do atendimento do paciente com HIV dos serviços especializados para a atenção básica e isso é horrível, porque estamos trocando o ruim pelo péssimo.”
Sobre o tratamento antecipado, que consiste em oferecer antirretrovirais para todas as pessoas assim que o diagnóstico positivo for detectado e não mais quando o CD4 (células de defesa) estiver abaixo de 500, Araújo avalia que na teoria a nova medida seria interessante, mas, na prática, o sistema de saúde não está preparado para receber os novos pacientes. “É preciso atender as pessoas que estão na fila.”
A coordenadora executiva do Fórum de ONG/AIDS do Rio Grande do Sul, Márcia Leão, concorda com Araújo que 2013 deixou muito a desejar e disse que, especialmente em seu estado, o ano foi de complicações. “Vivemos aqui uma epidemia generalizada. E uma das possíveis causas é a falta de investimento, por mais de dez anos, em ações de luta contra a AIDS e o descaso governamental.”
No entanto, Márcia disse que é possível pontuar momentos positivos em 2013. “Aqui no meu estado, a sociedade civil pressionou o governo e conseguimos a criação de oito novos serviços de Assistência Especializada em DST/AIDS (SAE). Além disso, foi criado, no segundo semestre, um grupo de cooperação inter-federativa que reúne academia, governo e sociedade civil com o objetivo de pensar estratégias para conter a epidemia.”
Diego Calixto, da Rede Nacional de Jovens Vivendo com HIV/AIDS, vai na mesma linha ao dizer que as ações na luta contra AIDS foram retrógradas e tiveram como base o pensamento conservador.
Sobre a antecipação do tratamento, Diego está preocupado com a logística de medicação. “Pode haver falta de antirretrovirais”, destacou. Ele defende ainda os serviços de atenção básica como porta de entrada para o teste de HIV e para a prevenção, no entanto, acredita que o tratamento deva ser feito nos serviços especializados. “Que venha 2014 com esperanças e renovações já que 2013 foi de inquietações e retrocessos.”
O presidente do Fórum de ONG/AIDS do estado de São Paulo, Rodrigo Pinheiro, disse que 2013 foi um dos anos “mais desafiantes” para a manutenção da resposta brasileira no enfrentamento da epidemia. “Foi um ano marcado por posições equivocadas e conservadoras por parte da gestão federal”, comentou.
Renato da Matta, da direção do Fórum de ONG/AIDS do estado do Rio de Janeiro, acredita que a resposta contra a AIDS em 2013 “simplesmente não existiu por parte da gestão anterior” do Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais. Já em relação ao Ministério da Saúde, ele critica a falta de campanhas, de planejamento e o fechamento de varias ONGs. “O resultado foi trágico. Nunca tinha visto antes tantas pessoas morrerem por diagnostico tardio, sem contar a sífilis que esta fora de controle”, comentou.
O anúncio da possível comercialização do teste de HIV em farmácias foi o que mais marcou em 2013 Sílvia Almeida, integrante do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas. “Acho essa decisão um retrocesso. Isso me assusta muito, pois temo pela falta de apoio das pessoas ao receberem o diagnostico de uma doença que não tem cura”, comentou.
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