Na British Columbia (Canadá): menos diagnósticos de VIH à medida que se alarga o tratamento a mais pessoas
Uma prova do tratamento como medida prevenção?
Se, por um lado, é amplamente reconhecido que a limitação da replicação do VIH, devida à realização do tratamento, torna as pessoas seropositivas para o VIH menos infecciosas, por outro, há que reconhecer que a evidência do impacto da prevenção do VIH ao nível populacional (resultante do alargamento da cobertura do tratamento ARV) é ainda limitada.
O grupo canadiano propôs-se então avaliar a dinâmica epidemiológica do tratamento e prevenção na província da British Columbia (BC), no Canadá, registando as tendências aí observadas relativas ao uso de anti-retrovirais (ARVs), níveis de carga viral e novos diagnósticos da infecção, respeitantes ao período de 1996 a 2009. E descobriram não apenas uma forte associação entre estas três variáveis, como também, em particular, uma enorme influência da terapêutica ARV sobre os resultados e dados de saúde relativos aos UDIs (utilizadores de drogas intravenosas).
No seu artigo, publicado na edição de 14 de Agosto de 2010, na revista The Lancet, os autores referem que durante dois períodos, correspondentes ao alargamento da cobertura terapêutica na British Columbia (1996-99 e 2004-09), as novas infecções VIH caíram, respectivamente, 40% e 23%.
Em contraste, esse número manteve-se estável no período 2000-03, altura em que o cepticismo relativo ao tratamento precoce se encontrava no seu máximo, e em que muitas pessoas anteriormente em tratamento resolveram interrompê-lo.
Os dados do estudo foram, assim, agrupados em três épocas distintas: 1996-99, período que correspondeu à descoberta e implementação dos primeiros esquemas terapêuticos altamente eficazes; 2000-03, quando a popularidade das interrupções terapêuticas conduziu a uma estabilização do uso da TAR (terapêutica anti-retroviral); e 2004-09, período em que as interrupções terapêuticas se tornaram menos frequentes, em resultado de um reconhecimento generalizado de que elas conduziriam a prognósticos mais desfavoráveis.
Durante o primeiro período, 1996-99, o número de residentes na BC a receber tratamento aumentou 258%, de 837 para 2994 (p=0.021). No mesmo período, o diagnóstico anual de novos casos de VIH caiu 40%, de 702 para 416 (p=0.003).
Entre 2000 e 2003, verificaram-se apenas mudanças muito pequenas, tanto no número de pessoas a receber TAR, como no número de novos diagnósticos.
Finalmente, entre 2004 e 2009, um novo alargamento do uso da TAR mostrou-se associado a um segundo importante declínio do número de novos casos de VIH: o número de pessoas a fazer TAR subiu de 3585, em 2004, para 5413, em 2009, traduzindo um aumento de 51% (p<0.0001). No mesmo período, o número de novos casos de VIH caía 23%, passando de 441 para 338 (p<0.0001).
Note-se que a TAR se encontra disponível gratuitamente para todas as pessoas residentes na British Columbia.
Relativamente ao caso particular dos utilizadores de drogas injectáveis (UDIs), os investigadores encontraram informação disponível apenas para os anos que se seguiram a 1999.
E os dados observados para as pessoas UDIs e não-UDIs mostraram algumas diferenças. Assim, o número de novos diagnósticos entre os UDIs diminuiu cerca de 50% entre 1999 e 2009, enquanto entre os não-UDIs ele se manteve praticamente inalterado. Os dados observados para a carga viral foram, note-se, congruentes com estes dados.
No que se refere à coorte no seu todo, a percentagem de pessoas com níveis de RNA do VIH inferiores a 500 cópias/ml aumentou de menos de 10%, em 1996, para mais de 50%, em 2009 (p<0.0001). Entre 2004 e 2009, a percentagem de não-UDIs com valores de RNA do VIH plasmáticos inferiores a 500 cópias/ml aumentou 36% (p<0.0002), enquanto a percentagem de UDIs com cargas virais abaixo desse limiar aumentava 82% (p=0.001).
Quando o limiar estudado foi de 50 cópias/ml, observou-se o mesmo tipo de tendências, tanto para os UDIs, como para os não-UDIs.
No estudo, o número de novos diagnósticos foi utilizado como substituto do, mais difícil de obter, número de novas infecções. No que se refere a este aspecto, há algumas considerações a fazer. Por exemplo, os investigadores tiveram de ponderar se as descidas observadas no número de novos diagnósticos se poderiam dever a uma menor realização de testes – em vez de a um subjacente menor número de infecções. Porém, os investigadores verificaram que, pelo contrário, o número de testes realizados nesta província até tinha aumentado durante o período em análise.
Além disso, os investigadores rejeitaram a possibilidade de que os decréscimos observados se tivessem devido a mudanças no comportamento sexual, argumentando que o número de diagnósticos de infecções sexualmente transmitidas como a sífilis, a gonorreia e a clamídia aumentou entre 1996 e 2008.
Apesar de tudo o que ficou dito, os autores reconhecem que, apesar de se observar uma associação clara entre a cobertura terapêutica, os novos diagnósticos de VIH e os níveis de carga viral, o desenho do estudo não permite associar de forma definitiva estes achados a relações de causa-efeito. Ainda assim, afirmam: “Existe um amplo suporte no que se refere ao efeito preventivo da TAR na transmissão do VIH, suporte esse proveniente de estudos de transmissão vertical, de coortes de casais serodiscordantes, coortes de UDIs e estudos populacionais”.
O interesse no impacto ao nível da população do “tratamento como prevenção” tem aumentado nos meses mais recentes, em parte devido ao debate sobre as conclusões que uma equipa da OMS retirou há algum tempo de um modelo matemático. Num artigo apresentado no fim de 2008, também no Lancet, os investigadores da OMS propunham que o despiste universal para o VIH associado ao tratamento imediato de todas as pessoas seropositivas para o VIH dos países mais afectados poderia desacelerar enormemente a progressão da epidemia.
Outros investigadores, porém, contestaram a análise da equipa da OMS, tendo inclusivamente um grupo inglês publicado recentemente a análise de um modelo levando em conta outros factores, onde se concluía que o impacto de tratar mais pessoas com VIH iria variar de acordo com as diferenças dos comportamentos de risco para o VIH em diferentes locais.
Referência
Tradução
Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
