Em 1998, um misterioso vírus surgiu na Malásia. No começo, apenas os porcos pareciam sucumbir.
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Seis meses depois, porém, 265 pessoas foram infectadas, desenvolveram encefalite, uma inflamação aguda do cérebro, e 105 morreram. Não demorou para que os casos aparecessem também em Cingapura e na Índia. Desde então, surtos têm ocorrido constantemente na Ásia e na Oceania, com alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que o continente africano e o leste europeu estão na rota do micro-organismo. Extremamente letal, o nipah tem dois agravantes: não existem vacinas nem remédios específicos para eliminá-lo da corrente sanguínea.
Logo que o vírus começou a ser estudado, os cientistas perceberam que ele se comportava de maneira semelhante ao hendra, identificado em meados de 1994 na Austrália. Com índice de mortalidade de 50%, ele também só afetava animais – no caso, cavalos -, mas depois passou a se hospedar em seres humanos. Agrupados em uma mesma família de patógenos emergentes, o nipah e o hendra já foram comparados ao ebola devido à gravidade dos sintomas e à forma como se espalham. Agora, uma vacina desenvolvida por cientistas americanos mostrou-se eficaz no combate aos dois vírus e, apesar de os experimentos terem sido realizados em macacos, os resultados sugerem que, em breve, a versão para humanos começará a ser testada.
No artigo, publicado na capa da revista especializada Science Translational Medicine, os autores contam que o nipah e o hendra foram classificados pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA e pelo Centro de Controle de Doenças como bioameaças, levantando também a preocupação do Departamento de Agricultura americano. O vetor dos micro-organismos é uma espécie de morcego conhecido como raposa voadora, que vive na Ásia. Ele próprio não desenvolve os sintomas provocados pelos vírus, mas os transmite para animais, que, infectados, passam as doenças aos humanos. Um dos problemas é que já foram registrados casos de transmissão direta entre indivíduos contaminados; por isso, mesmo habitantes de outras partes do mundo que não tenham contato com a raposa voadora podem ser infectados, o que levanta a possibilidade real de uma pandemia futura.
Veronika von Messling, pesquisadora do Departamento de Doenças Infecciosas da Universidade de Cingapura, faz uma associação entre esses vírus e o H5N1, que provoca a gripe aviária, mas critica o fato de os dois patógenos não chamarem tanta atenção das autoridade sanitárias.
Ela lembra que muitos dos países do Sudeste Asiático afetados pelos surtos são economias em desenvolvimento, com populações jovens e em constante mobilidade. O aumento da urbanização levou à destruição da vida selvagem até então intocada, além de mudanças no estilo da agropecuária, que está mais industrializada, incluindo a criação em massa de porcos e aves.
“A maior frequência do contato entre vida selvagem, animais domésticos e pessoas facilitou a emergência de muitos patógenos anteriormente desconhecidos. O mais visível é o H5N1, para o qual existe preparação no caso de uma pandemia global, além da aceleração do desenvolvimento e da aprovação de vacinas e medicamentos, assim como campanhas de prevenção”, diz.
Eficácia e segurança
Diferentemente, a maioria dos patógenos emergentes, incluindo o hendra e o nipah, continua sendo considerada problema menor, argumenta Von Messling.
“Os recursos para o desenvolvimento e a aprovação de candidatos a vacinas ou a drogas Antirretrovirais são limitados. O fato de o mercado ser mais restrito pode não atrair grandes companhias farmacêuticas”, acredita.
Mas o pouco interesse contrasta com a gravidade das viroses. Enquanto o hendra provoca sintomas semelhantes aos de uma gripe forte, podendo levar ao óbito, o nipah é ainda mais letal, e causa convulsões e inflamações no cérebro.
A principal autora do artigo, Katharine Bossart, da Universidade de Boston, conta que a análise dos dois vírus mostrou que eles são muito semelhantes. Por isso, foram agrupados em uma nova classe de patógenos. “Nos últimos anos, foram desenvolvidas e testadas vacinas que têm como alvo um grupo de proteínas desses vírus para a imunização de pequenos animais, como furões. Os estudos foram um sucesso. Por isso, resolvemos adotar uma abordagem semelhante para a vacinação de primatas não humanos”, diz. O animal usado pelo grupo de pesquisadores foi o macaco-verde-africano, que apresenta sintomas semelhantes aos de pessoas infectadas pelos micro-organismos, como lesões em múltiplos órgãos, especialmente nos pulmões e no cérebro. Os macacos vacinados apresentaram uma resposta imunológica rápida à exposição dos vírus, enquanto que o grupo de controle não resistiu aos patógenos.
“Além dos macacos, a vacina se mostrou completamente efetiva contra a infecção tanto pelo nipah quanto pelo hendra em outras duas espécies animais, demonstrando seu potencial de eficácia e segurança tanto como uma possível imunização para a criação de gado quanto para o uso em humanos”, disse, em nota, o microbiólogo Christopher C. Broder, coautor do estudo.
O Laboratório Australiano de Saúde Animal também está investigando novas ferramentas para enfrentar o nipah e o hendra. “Esses vírus são extremamente letais, se assemelham ao ebola. Então, precisamos nos esforçar para encontrar uma forma de combatê-los”, explica Gary Crameri, que publicou recentemente um artigo na revista PLoS Pathogens sobre um micro-organismo muito parecido a eles recém-descoberto na Austrália. Também hospedado em morcegos furgívoros, o chamado cedar tem 90% dos genes idênticos aos do nipah e do hendra, mas, quando injetado em ratos, cobaias e furões, não provocou o surgimento de sintomas.
Agora, os cientistas estão comparando o DNA dos três patógenos para descobrir o que torna o nipah e o hendra tão letais. “Nossa intenção é manipular geneticamente esses vírus, retirando partes que parecem ser responsáveis pela gravidade das infecções e inseri-los no cedar. Então, realizaremos alguns testes com o micro-organismo híbrido para ver se ele se torna tão letal quanto os outros”, diz Carmeri. “Não é segredo de que o potencial patogênico do hendra e do nipah está em seus genes. Por isso, é importante descobrir seu ponto fraco. Nossa expectativa é desenvolver abordagens terapêuticas, novas drogas que possam tratar as pessoas infectadas e curá-las”, conta o cientista.
CORREIO BRAZILIENSE – DF | SAÚDE
DST, AIDS E HEPATITES VIRAIS
14/08/2012
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