No caso das mulheres, a lavagem vaginal e outras práticas vaginais têm sido associadas com vaginose bacteriana (VB), um desequilíbrio dos tipos de bactéria que habitualmente colonizam as superfícies mucosas da vagina. A VB pode causar doença inflamatória pélvica e parto prematuro na mulher grávida, e está associada a um risco mais elevado tanto de adquirir como de transmitir VIH.
Neste contexto, o ensaio HPTN 035do candidato a microbicida PRO2000 incluiu um inquérito sobre práticas de saúde vaginal, desaconselhando as práticas associadas a um risco maior de VB, e tentando descobrir alguma relação entre essas práticas e a VB. Não encontrou nenhumas, embora um estudo menor em mulheres de Los Angeles tenha, esse sim, encontrado uma associação com a VB, não da lavagem vaginal, mas do uso de lubrificante conhecido como petroleum jelly.
No caso da lavagem rectal nas mulheres e nos homossexuais masculinos, é muito escassa a informação disponível até ao presente. Contudo, alguns achados no decorrer dos últimos anos no sentido de que o uso de lubrificantes no sexo anal – em particular os à base de água – estaria associado a taxas mais elevadas de infeções transmitidas sexualmente, levantaram algumas preocupações, nomeadamente as de que outras práticas com impacto na frágil mucosa rectal também pudessem aumentar o risco de infeções sexualmente transmitidas (ISTs) e de VIH. Neste contexto, a International Rectal Microbicide Advocates (IRMA) levou a cabo um estudo-inquérito sobre a prática da lavagem rectal. O estudo encontra-se ainda a decorrer, mas os resultados preliminares foram apresentados no mês passado.
Práticas de higiene vaginais e rectais em mulheres – no HPTN 035 e no estudo de Los Angeles
A proporção de mulheres com qualquer prática relacionada com a higiene vaginal caiu de 60% no início do estudo para 36.5% na última visita, uma descida mantida, e não apenas uma descida que ocorreu só após a primeira visita.
A vaginose bacteriana era comum no início do estudo, e a proporção de mulheres com esta patologia não se modificou com o tempo – em todas as visitas, entre 36 e 38% das mulheres apresentavam-na. Não havia qualquer associação entre a higiene vaginal e a VB.
Outro estudo, realizado em mulheres em Los Angeles (Brown), avaliou as práticas de higiene vaginal e lubrificantes numa coorte de 141 mulheres, desenhada de modo a refletir uma mistura étnica e de estados serológicos do VIH: 26% tinham VIH e 40% eram negras, 34% brancas e 26% latinas. A idade média era de 33 anos (variando entre 18 e 65). A taxa de sexo anal era bastante elevada: 71% já o haviam praticado alguma vez e 18% tinham-no praticado no último mês.
Quarenta e cinco por cento das mulheres referiu a prática de lavagem vaginal e 4% rectal no mês anterior: o método mais comum era o vinagre diluído em água, tendo 21% referido o uso de lubrificantes comerciais e outros produtos como gel (petroleum jelly) na via vaginal, e 11% na via rectal.
As mulheres de etnia negra tinham maior probabilidade de referir lavagem vaginal (55% referiram-no) e uso de lubrificantes rectais (16%). Estas mulheres tendiam a favorecer o gel à base de petróleo enquanto as mulheres brancas e de etnia latina usavam mais lubrificantes comerciais. A maioria das mulheres mostrou-se consistente ao longo das visitas. Não se observou uma associação entre o estado serológico das mulheres relativamente ao VIH e o seu uso de lavagens ou lubrificantes. Verificou-se porém uma forte associação entre o uso de gel de petróleo e vaginose bacteriana: as mulheres que usavam este produto tinham 2.6 vezes mais probabilidade de ter VB. Mas não se verificou uma associação entre esta patologia e outros lubrificantes ou lavagens.
Lavagem rectal: o estudo-inquérito da IRMA
Das 440 pessoas que referiram a prática de lavagem rectal nos três meses anteriores, a grande maioria eram homens gays (94%) – apenas 26 mulheres referiram esta prática. Três quartos faziam a lavagem antes do sexo; cerca de um terço fê-lo depois e um quinto antes e depois. Três quartos usaram um “produto caseiro”, enquanto 35% usaram produtos comerciais. “Produto caseiro” geralmente significava vinho, mas as pessoas referiram o uso de várias substâncias, desde o vinho à urina.
A lavagem estava associada ao uso de lubrificantes e à utilização de drogas e mais parceiros sexuais – uma média de cinco nos últimos três meses, contra dois nos restantes casos. Estava também fortemente associada a pessoas infetadas pelo VIH: 44% das pessoas que realizavam esta prática eram seropositivas, enquanto apenas 18% das que a não realizavam tinham VIH. Também estava associada a um diagnóstico de ITS: 21% das pessoas que realizavam esta prática referiu ter tido uma ITS recentemente, contra 11% no caso das pessoas que não faziam lavagens. Não mostrava associação, positiva ou negativa, contudo, com o uso de preservativos: as pessoas que reportavam esta prática não tinham nem mais nem menos probabilidade de utilizar preservativos.
Na análise multivariada, os factos de se ser seropositivo para o VIH e de se usar drogas mantiveram-se fortemente associados com a prática destas lavagens, tal como – embora em menor extensão – a idade (as pessoas mais velhas tinham maior probabilidade de fazer lavagens). Mas o diagnóstico de ITS deixou de se mostrar significativo como fator de risco independente, mesmo que ele fosse 43% mais provável nos “douchers” (as pessoas que fazem estas lavagens – douches, em inglês); isto poderia ser explicado pelo facto de tenderem a ter mais parceiros sexuais.
Embora estejamos perante uma amostra auto selecionada, e embora ela possa não representar todos os prováveis utilizadores de microbicidas rectais, o inquérito sugere que as práticas de higiene rectal são já comuns entre os prováveis beneficiários de microbicidas rectais e que a formulação na forma de clister – além da formulação tipo lubrificante – seria provavelmente aceite, e não em si susceptível de aumentar o risco de ITS.
A análise futura avaliará as tendências por região, género e tipo de parceiros. O inquérito ainda se encontra aberto, podendo-se participar em: www.keysurvey.com/votingmodule/s180/survey/382277/d7a7/.
Referências
Brown J et al. Vaginal and rectal douching and insertion of over-the-counter products among women in Los Angeles. International Microbicides Conference, Sydney, 2012. Veja aqui o programa.
Stahlman S et al. Rectal douching and lubricant use among global web-survey respondents. International Microbicides Conference, Sydney, 2012. Veja aqui o programa.
Tradução
FONTE AIDSMAP
Por favor, vote nas enquetes, elas me ajudam a definir rumos para o site e outros trabalhos
{jvotesystem poll=|3|}
{jvotesystem poll=|4|}
Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



















