| IMPRENSA LIVRE – BA | AIDS | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS 26/06/2010 Raquel Salgado Com mais de cinco mil fichas de pacientes no consultório, o dobro disto, talvez, em pacientes atendidos pelo SUS, ele está entre os médicos mais queridos e respeitados, conhecido em todo o Litoral Norte. Um de seus feitos mais marcantes foi ter conseguido fazer com que São Sebastião zerasse o índice de recém nascidos soro positivos – crianças nascidas sadias de mães infectadas pelo HIV. Ou seja, há 14 anos, desde 1996, quando iniciou este trabalho na rede pública municipal, nunca mais uma criança nasceu infectada no município. O índice brasileiro de crianças nascidas contaminadas é de 3 a 4%. Curitiba, por exemplo, só conseguiu zerar este índice há dois anos. Ele é Carlos Mello de Capitani, 58 anos, dois casamentos, cinco filhos – o mais velho, o dentista Daniel, tem 36 anos; e a caçula, Marina, 11. Tem ainda dois netos: Leonardo, 6 anos; e Rafaela, um. Paulistano, formado pela Faculdade de Medicina de Santos, ele é clínico geral com três especializações: Infectologia; Saúde Pública, pela USP; e Medicina Chinesa, pós graduação realizada na Escola Paulista de Medicina. Elogiado, competente, com trânsito internacional, Capitani surpreende quando fala de suas principais vitórias nesta vida. “A primeira é estar vivo e poder contribuir socialmente. A segunda são os filhos, verdadeiros presentes de Deus! A terceira foi não perder a sensibilidade para perceber o sofrimento humano – apesar disto trazer junto muito sofrimento também para a gente. Mas não perder esta sensibilidade é outro presente de Deus, que agradeço todo dia”. Outras vitórias: manter a curiosidade e o interesse por continuar aprendendo sempre; e ter encontrado Helena Glina, a companheira, também médica, mãe dos três filhos mais jovens. “Eu sou muito filósofo, ela me deu um norte na vida, um sentido mais concreto para as coisas”. Juntos, os dois mantém consultório em Caraguatatuba e São Sebastião e, neste final de semana, estão em São Paulo participando, durante dois dias inteiros, do Congresso Brasileiro de Hepatite e AIDS, promovido pela Sociedade Brasileira de Infectologia e pelo Ministério da Saúde. Em média, participam de dois congressos anuais. AIDS Residente no bairro São Francisco, um dos últimos redutos caiçaras da região, ele está em São Sebastião há 24 anos. Aqui participou da equipe que montou o Serviço de Atendimento em Infectologia, transformado no Centro Municipal de Infectologia (Cemin) em 2002. Hoje, o Cemin acompanha 350 pacientes, a maioria com AIDS, cerca de 100 deles aidéticos também infectados com hepatites B e C, a maior parte na faixa etária entre 20 e 49 anos; além das outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTS). “Hoje, a sobrevida do paciente de AIDS que faz o tratamento direitinho é muito grande, mais de vinte anos. Desde 1996, quando surgiu a terapia anti-retro-viral, o chamado “coquetel” (vários medicamentos diários), eles estão todos aí, sobrevivendo”, diz ele. Capitani elogia a equipe do Cemin, que acompanha de perto todas as crianças nascidas de mães infectadas – cerca de 70 – e, em sua opinião, são os grandes responsáveis pelo nosso índice zero, junto com o pré-natal completo feito na rede, mais o trabalho da coordenação municipal de Saúde da Mulher. Sua dedicação ímpar à causa da AIDS começou há mais de vinte anos, quando criou no Litoral Norte o Núcleo de Estudos da AIDS, época em que mantinha até um programa de rádio sobre o assunto em Caraguatatuba. O Núcleo reunia profissionais envolvidos no atendimento – médicos, enfermeiras, assistentes sociais e psicólogos – de Paraty até Ilhabela. “Tínhamos reuniões mensais que eram verdadeiros fóruns de Saúde Pública e onde discutíamos tudo, desde o fluxo de pacientes até a integração das cidades. Naquela época ainda não existia o retro viral, então nossos pacientes morriam todos. As equipes precisavam de um suporte psicológico e assim íamos nos apoiando mutuamente. Depois vimos que aqui tinham muitas mulheres infectadas – a média no país era de cinco homens para uma mulher, e aqui no LN já tínhamos então dois homens para uma mulher, relação esta que nos últimos seis anos chegou a um para um. Infelizmente, a política foi corroendo o trabalho do Núcleo, quem participava ia ganhando uma certa evidência e criava ciumeira. Aliás, é assim até hoje. Este é um dos maiores problemas, a ciumeira”, desabafa ele. Capitani diz que o trabalho do Núcleo “foi uma experiência fantástica”. Dela nasceram muitas coisas, até uma melhora no pensamento por trás das políticas públicas de saúde, além do curso de Saúde Pública, dado pela USP em 2000, para cerca de 50 médicos e enfermeiras. “Foi um curso de especialização com 458 horas/aulas. E é disto – treinamento – que sentimos falta e precisamos retomar de alguma forma”, garante. Desafios Membro das Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (há três anos) e da Comissão de Ética (1 ano) do Hospital de Clínicas de São Sebastião, Capitani tem sido uma voz para os profissionais de Saúde do município. Sócio fundador da Associação dos Profissionais de Saúde (APS-SS) desde 1988, há dois anos ele preside a Associação dos Médicos de São Sebastião e Ilhabela (Amessi), criada em 2007. “Nosso enfoque agora é capacitação técnica e vamos realizar, entre 2 de agosto e 27 de setembro, um novo curso”, conta. Indagado sobre os desafios que tem pela frente, Capitani se diz esperançoso. “Quero ver nossa saúde pública melhorada e acredito que agora consigamos avançar mais com a saída das duas oscips (Pró Saúde e Instituto Sollus) que administraram o Hospital de Clínicas nos últimos quatro anos”. Agora comandado pela Prefeitura, Irmandade e Corpo Clínico, o hospital deve, em sua opinião, “crescer e acompanhar o crescimento previsto para a cidade. Hoje há uma defasagem enorme, é uma situação incoerente. Também precisamos acompanhar o crescimento científico. Nós podemos fazer muito mais pela saúde do município com o hospital melhorado, sem precisar mandar pacientes para fora, evitando este sofrimento todo para as famílias. Isto não depende exclusivamente de dinheiro, mas de vontade política e de organização. É uma questão de gestão de saúde, de correta aplicação das políticas de saúde, de forma coerente com as reais necessidades da população, sem ficar inventando coisa com prioridades trazidas por gente de fora”. Sempre incentivado e até cobrado a ter uma participação política maior, Capitani diz que esta é uma de suas derrotas. “Eu não consigo compreender os homens do poder, os políticos. Não me sinto capacitado para exercer a política, porque não aceito exercer o poder da forma como acontece hoje, com atitudes e conceitos com os quais não concordo e não aceito”. África Há quase dez anos ele é consultor internacional para países africanos da Costa Atlântica. No continente africano, Capitani luta, ao lado de especialistas do mundo todo, contra malária, tuberculose e AIDS. Nesta ordem. “Lá a malária ainda mata que nem água”, conta Capitani. Já a tuberculose, causada pela desnutrição, aparece como doença oportunista, quase sempre associada à própria AIDS. Ele iniciou este trabalho em 2001, quando passou um ano no Ministério da Saúde, em Brasília, como coordenador da Unidade de Diagnóstico e Tratamento de AIDS no Brasil. A experiência africana começou por meio de consultoria dada via Unesco, Unicef e depois pela Agência Brasileira de Cooperação Internacional, órgão do Itamaraty. Como especialista no combate à AIDS, Capitani foi para a África trabalhar inicialmente em Cabo Verde, Guiné Bissau e Angola – país de cujo porto, na capital Luanda, saiu a maioria dos escravos negros trazidos para a América. Hoje, como consultor do Centro Internacional de Treinamento em Infectologia (Cicti), ele cuida das ilhas São Tomé e Príncipe. País de língua portuguesa, com 120 mil habitantes, ele é formado por duas ilhotas situadas no meio do Oceano Atlântico. Segundo Capitani, “um país maravilhoso, com uma vegetação exuberante como o nosso. E a boa notícia que temos é que desde que iniciamos o trabalho nestes países africanos, a transmissão materno infantil do HIV, que era 28%, caiu para 2%”. |
Psicologia
| CORREIO DO POVO – AL | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS | CONTRACEPTIVOS | HPV 27/06/2010 Você tem vergonha de falar sobre pênis? A gente não. Por isso mesmo levamos as dúvidas mais frequentes dos nossos leitores (homens e mulheres) ao especialista Marco Arap, urologista do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Durante um bate-papo sem rodeios, Arap falou sobre ereção, curiosidades e o tão questionado tamanho “normal” do pênis – encanação muito comum entre eles. Para as dúvidas mais ousadas e altamente eróticas, consultamos a “sex trainer” Daniela Cardoso, que explica como dar mais prazer ao parceiro. O tamanho médio do órgão sexual do brasileiro e os pontos mais prazerosos. O tamanho médio do pênis do brasileiro é entre 12 e 15 centímetros Elas querem saber: 1. O pênis circuncidado faz diferença ao prazer do homem? Sim. O operado de fimose pode ter mais sensibilidade à dor, mas também maior intensidade de sensações prazerosas, elevando assim o orgasmo. Para quem não sabe, a circuncisão é uma pequena intervenção cirúrgica que retira parte da pele que cobre a glande do pênis. Uma pesquisa realizada na África comprovou que os homens “sem pele” têm menos chance de contrair DST´s e HPV, mas nem por isso o uso do PRESERVATIVO é dispensável. (Marco Arap) 2. Qual a parte do pênis é mais prazerosa ao toque? Como estimular? É a região que fica logo abaixo da glande, que é conhecida como “cabeça” do pênis. Experimente preparar um ambiente envolvente e brinque com o corpo dele. Passe um pouco de lubrificante térmico com sabor em todo pênis, espalhe o produto apenas com as pontas dos dedos e assopre para que ele aqueça. Corra com a língua e os lábios por toda a extensão e faça uma leve pressão de vez em quando. (Daniela Cardoso) 3. O que é mais importante para a mulher sentir prazer, comprimento ou espessura? Normalmente, nenhum dos dois. Obviamente que os extremos são sempre prejudiciais – não dá pra ser grande demais, pequeno demais, grosso em exagero ou muito fino -, contudo, o prazer está mais ligado à sintonia entre o casal e preliminares. Não adianta ele ter um pênis enorme e não se preocupar com o prazer da mulher.(Marco Arap) 4. Por que alguns homens não conseguem manter a ereção mesmo sentindo desejo? São múltiplas razões. Pode ser problema físico ou psicológico, medicamentos, doenças crônicas. Uma lesão de artéria por diabetes, infarto, derrame, remédios hipertensão, arritmia. Também problemas financeiros, familiares, no emprego, desgaste no relacionamento, stress, tabagismo, alcoolismo, cobrança. A adrenalina é inimiga da ereção. (Marco Arap) O escroto é uma região muito sensível, mas extremamente erógena, assim como os seios da mulher. Mas existe muita diferença entre fazer carinho e apertar, qualquer coisa mais agressiva vai doer mesmo, tem que ser suave. (Marco Arap) Lubrifique bem os testículos e passe a mão suavemente em movimentos de “vai e vem”, use os dedos para fazer carinho. Pode dar apertadinhas de leve, tocar um testículo de cada vez e brincar com a boca. O escroto é tão sensível que o homem pode chegar ao orgasmo apenas com carícias nessa parte. (Daniela Cardoso) Eles querem saber: 6. Qual o tamanho normal do pênis? Existe uma média no Brasil? A média está entre 12 centímetros e 15 centímetros em estado ereto. O tamanho depende de diversos fatores, como raça e tamanho da pessoa. Com relação ao que é “normal” ou não, podemos considerar que abaixo de 6 centímetros em estado ereto pode ser considerado um problema, dependendo do entendimento da pessoa. Contudo, mesmo assim é possível proporcionar prazer à mulher, isso porque a zona de prazer fica na entrada da vagina. (Marco Arap) 7. Meu pênis é torto. É um problema que pode ser tratado? Interfere na vida sexual? Nunca o pênis é absolutamente reto e a curvatura pode ou não ser um problema, isso depende do grau, da direção, se existe a presença de dor ou a impossibilidade de penetração. A curvatura, conhecida como doença de Peyronie, pode ser congênita – que se manifesta desde o nascimento -, ou adquirida ao longo do tempo. Tem casos complexos, existe pênis com mais de 90º de curvatura para o lado ou espiral. O tratamento é cirúrgico e, às vezes, é necessário utilizar enxerto. (Marco Arap) 8. Pênis quebra? O que fazer nesses casos? Quebra. Existe fratura de pênis. Ocorre normalmente durante a relação e o quadro clínico é o barulho, seguido de dor súbita e hematoma. Geralmente acontece quando a mulher está por cima durante a transa. O indicado é ir direto para um hospital e procurar um urologista para realizar a cirurgia corretiva. (Marco Arap) É necessário limpar toda a superfície, inclusive a parte que fica coberta quando o pênis está flácido. Evite ficar mais de 24 horas sem limpeza. Os pacientes não operados de fimose precisam tomar mais cuidados porque a área escondida pela pele costuma acumular secreção e causar inflamação – mais conhecida como balanite, na glande do pênis. Em casos realmente muito graves de descuido com higiene é possível desenvolver câncer de pênis e o tratamento seria a cirurgia e até amputação. (Marco Arap) 9. Como higienizar o pênis corretamente? O que a limpeza errada pode acarretar? 10. O tamanho pode diminuir com o avanço da idade? Não existe essa relação com a idade. O pênis só pode diminuir por consequências de cirurgia de câncer de próstata ou pélvico. Não há com o que se preocupar porque ele ficará sempre com o mesmo tamanho que já tem. (Marco Arap) |
| DIÁRIO DO NORDESTE – CE | CIDADE AIDS | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS 27/06/2010 27/6/2010 Forte esquema de segurança será montado na tentativa de dar tranquilidade ao evento popular Será realizada, neste domingo, dia 27, a XI Parada pela Diversidade Sexual do Ceará, que vai percorrer a Avenida Beira-Mar. O evento, que já faz parte do calendário oficial da Cidade, irá contar com a animação de oito trios elétricos. A abertura será realizada às 15 horas, em frente à barraca do Joca, próximo ao Clube Naútico Cearense, quando a madrinha da parada, a doutora em Sociologia, Zelma Madeira, será apresentada. Seiscentos policiais militares farão a segurança do evento. Além deles, estarão distribuídos pela avenida 300 guardas municipais e 14 salva-vidas. Noventa agentes da Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e Cidadania (AMC) irão controlar o fluxo do trânsito nas proximidades da Parada pela Diversidade Sexual do Ceará. A partir das 13 horas, a circulação de veículos será proibida no trecho entre as ruas Oswaldo Cruz e Júlio Ibiapina. À medida em que o evento avançar pela avenida, cada quarteirão interditado será desbloqueado. Com o tema “Vote Contra a Homofobia, Defenda a Cidadania!”, o evento busca, neste ano de eleições presidenciais, a conscientização do eleitorado gay, para votar em candidatos que se comprometam com a luta contra a homofobia. Crime A aprovação do Projeto de Lei nº 122/06 (tramitando no Senado Federal), que criminaliza a homofobia, é um dos focos do tema. A expectativa do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) é de que a XI Parada pela Diversidade Sexual do Ceará ultrapasse o público alcançado em 2009, que foi de cerca de um milhão de participantes. De acordo com o técnico da Coordenação Municipal de DST/AIDS, Diego Medeiros, um dos maiores desafios do movimento é acabar com o preconceito contra as doenças sexualmente transmissíveis, para alcançar um tratamento eficaz e reduzir os índices de infectados na Capital cearense. “Recomendo a todos a realização do exame de HIV, prático e rápido. No entanto, admito que não é um exame comum, pois o paciente precisa de um acompanhamento psicológico antes e depois”, conclui o representante da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). |
| ISTO É | MEDICINA & BEM ESTAR 19/06/2010 A doença da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) assusta o mundo pela avassaladora destruição do organismo em poucos anos e a comunidade científica se mobiliza para buscar sua cura Ela, a morte, se faz anunciar nas mais diversas enfermidades em diferentes graus de sofrimento. Ela, a morte, se faz anunciar da forma mais devastadora e no grau mais arrasador quando a doença se chama Esclerose Lateral Amiotrófica – que numa terrível coincidência tem por sigla justamente a palavra ELA. Pacientes e médicos gelam diante de tal diagnóstico, inaceitável porque ele aponta para um único prognóstico: a morte inexorável e por demais sofrida. Assim, receber a notícia de ser portador de ELA é receber nas mãos, sem apelação a Deus ou à ciência, uma sentença de morte. Ao doente, primeiro vai-lhe faltar força muscular para os movimentos mais simples: segurar uma caneta, fechar um zíper, apertar a válvula sanitária, abraçar um filho. Antes disso, ou logo depois dessas manifestações, podem ocorrer também quedas do nada – está-se andando e, de repente, desaba-se. Em poucos meses, a ELA evolui à paulatina e desesperante perda da fala, e ocorresse essa perda abruptamente seria menos chocante do que acontecer por etapas: dificuldade de pronunciar algumas palavras, depois um balbuciar, na sequência um emitir de grunhidos, finalmente a ausência de qualquer som e do mexer dos lábios – com muita saliva escorrendo pelo queixo. Aí vem a impossibilidade de andar, a cabeça insustentável para um pescoço que parece feito de mola, restando ao enfermo somente o movimento dos olhos – com o corpo paralisado, são eles, os olhos, que se tornam mais vivos e inquietos, até porque é através deles que o doente tenta expressar o que lhe vai pela mente. E como fica o cérebro em tudo isso? Como o condenado à morte que caminha lúcido para o patíbulo, o portador de ELA mantém-se com o raciocínio claro. Ele sabe tudo o que está acontecendo porque somente os neurônios que comandam nervos e movimentos se degeneram. Falou-se em caminhar rumo ao patíbulo. Pois bem, esse trajeto dura em média de três a cinco anos (a partir dos primeiros sintomas) quando então todos os músculos do corpo se petrificam e ela, a morte, finalmente vem sob a forma de parada respiratória. Hoje há no Brasil cerca de 14 mil pessoas vivendo esse drama e, no mundo, são aproximadamente 400 mil os que desenvolveram a doença. “Falar a um indivíduo que ele tem ELA é terrível, pois pouco temos a fazer diante da rápida progressão da enfermidade”, diz o pesquisador americano Walter Bradley, da Universidade de Miami, nos EUA. Sabe-se que a Esclerose Lateral Amiotrófica é uma doença neurodegenerativa causada pela morte dos neurônios motores, os responsáveis pelo comando da musculatura esquelética. O que não se sabe, porém, é quando a medicina chegará à cura. Hoje, trata-se a doença com intervenções que pretendem diminuir o o desconforto do paciente. Nessa direção há, por exemplo, fisioterapias, uma vez que sem elas o corpo definha ainda mais rapidamente. No campo dos remédios, existe uma substância que tenta proteger os neurônios, o riluzol, cuja eficácia pode ser comparada à de tentarmos nos aquecer vestindo uma camiseta de manga curta sob uma temperatura de 30 graus negativos. Essa carência de remédios leva à seguinte situação: ao contrário de outras doenças graves para as quais se prescrevem medicamentos pelo seu efeito principal, no caso de ELA a medicina se vale dos efeitos colaterais e indesejados. Por exemplo: antidepressivos que secam a boca são úteis porque inibem a excessiva salivação. Quase nada mais tem-se a fazer, a não ser interromper todos os procedimentos quando a morte já se prepara, mesmo, para deitar-se com o enfermo. Cessam-se as intervenções, aplica-se teoricamente o conceito de morte digna e, praticamente, a sedação endovenosa. A doença demanda médicos bem qualificados (são muitas as comorbidades, sobretudo infecções), nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, enfermeiros noite e dia, equipamentos de respiração e ventilação dos pulmões, programas especiais de computador que ajudem na comunicação. A rotina de todos, doente e cuidador, é estafante: a vida social acaba, o repouso noturno é trocado pela vigília constante, surgem momentos de profunda depressão. Mas, como em tudo na vida, é nos momentos em que ela parece mais frágil que o desânimo dá lugar a lampejos de esperança. “O paciente se entristece, mas tira forças de quem está ao seu lado”, diz a psicóloga Vânia de Castro, do Setor de Investigação em Doenças Neuromusculares da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), referência no tratamento de ELA no Brasil. “Temos uma oferta mínima de profissionais capacitados”, diz Sílvia Tortorella, diretora do Instituto Paulo Gontijo, uma das instituições brasileiras que financiam pesquisas sobre a moléstia. “Há uma complicação imensa para a realização do diagnóstico.” Em geral, o indivíduo peregrina um ano de consultório em consultório, de laboratório em laboratório, até que a doença seja identificada em diagnóstico por exclusão: quando não se comprova nenhuma outra possibilidade, é porque de fato é ELA. “É muito tempo, principalmente se considerarmos que o período de vida médio é de três a cinco anos”, diz o professor de neurologia Acary Souza Bulle Oliveira, responsável pelo centro de referência da Unifesp. Contam para essa demora diversos fatores. Para começar, poucos médicos conhecem bem a doença. Depois, há escassez de recursos tecnológicos apurados. Para fazer exames pelo SUS (eletroneuromiografia é crucial) o doente tem de esperar cerca de um ano. Há mais dificuldades. O serviço de fisioterapia em casa, essencial quando a paralisia se agrava, não é oferecido pela rede pública e são poucos os planos de saúde que o contemplam. Na verdade, na busca por mais direitos, os pacientes travam uma batalha desigual. A representá-los existe a Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica, que faz o que pode mas não tem força política. Já em Brasília não há sequer um parlamentar que brigue por esses doentes. Assim como ocorreu com o câncer e a AIDS – enfermidades cujos diagnósticos representavam a morte e que hoje são, na maioria dos casos, controláveis -, o que se espera é que a ciência também golpeie a Esclerose Lateral Amiotrófica. Tanto é assim que, desde 1869, quando o médico francês Jean Charcot descreveu pela primeira vez as características essenciais da doença, avançou-se no conhecimento. Disseca-se aqui o nome desse mal: esclerose (endurecimento), lateral (porque começa por um dos lados do corpo), amiotrófica (porque atrofia os nervos). “Em 1990 conhecíamos seis processos envolvidos no seu desenvolvimento”, diz o médico Francisco Rotta, da Academia Brasileira de Neurologia. “Hoje conhecemos mais de 20 fatores e 12 genes.” Para o futuro, a grande esperança são as pesquisas com células-tronco, estruturas versáteis capazes de se transformar em qualquer tecido do corpo. O que se quer é usá-las para criar neurônios motores e implantá-los no lugar dos que estão “apagando”. Nos EUA, cientistas conduzem o primeiro estudo clínico daquele país para avaliar a eficácia de tais métodos e, no mês passado, anunciaram que, devido aos resultados observados nos três primeiros pacientes, tal procedimento é seguro. A cientista Svitlana Garbuzova-Davis, da Universidade do Sul da Flórida, estuda outra abordagem: testa o poder de frações de células tiradas do cordão umbilical onde estão contidas células-tronco. Elas são extraídas e injetadas em cobaias. Numa primeira etapa verificou-se a eficácia em ratos programados para desenvolver a doença, mas que não apresentaram sintomas. “Houve significativo retardo no surgimento e progressão dos sinais”, diz ela. Depois, em testes com animais que já manifestavam sintomas, constatou-se melhora no funcionamento motor. Há ainda um esforço mundial em busca de opções na área de medicamentos. Uma das drogas em estudo é o tamoxifeno, indicado para câncer de mama, mas que parece proteger os neurônios. A outra é a memantina, utilizada em portadores de mal de Alzheimer. Na Europa 15 centros iniciaram testes com 500 pacientes para verificar o desempenho da substância olesoxime, que atua na mitocôndria (central de energia das células), já que uma das muitas alterações que ocorrem na ELA é a degeneração dessa estrutura. O mesmo objetivo está sendo perseguido nos EUA pelo Massachusetts General Hospital Medical School, que analisa a performance de outra molécula (a KNS 760704) na proteção às mitocôndrias. Considerável parcela de pesquisadores volta-se também para os astrócitos, células em forma de estrela envolvidas na nutrição dos neurônios – se for possível fortalecê-las, ajudarão a impedir a sua destruição. “É uma aposta que pode ajudar a tratar a doença”, diz Sam Pfaff, cientista do Howard Hughes Medical Institute. Outros grupos querem decifrar a gênese da ELA. Empenham-se em descobrir, por exemplo, as razões que levam à estranha agregação de proteínas sobre os neurônios, gerando-lhes uma toxicidade fatal. Na Inglaterra a cientista Jaqueline de Belleroche assegurou que “existe forte influência genética no desencadeamento desse mecanismo”. Também nessa mesma direção, a responsabilidade do sistema imunológico tem sido esmiuçada. “É o nosso novo alvo”, diz a geneticista Michal Schwartz, do Instituto Weizmann, em Israel. Ela concluiu que o mau funcionamento imunológico está associado à enfermidade. Hoje irre mediavelmente fatal, como se vê a ELA se tornará com certeza uma doença tratável, já que renomados cientistas empenham-se em derrotá-la. É o sonho de suas vidas. É também o sonho que destruirá o pesadelo de quem padece de Esclerose Lateral Amiotrófica. |
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