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IMPRENSA LIVRE – BA |
AIDS | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS 26/06/2010 Raquel Salgado Com mais de cinco mil fichas de pacientes no consultório, o dobro disto, talvez, em pacientes atendidos pelo SUS, ele está entre os médicos mais queridos e respeitados, conhecido em todo o Litoral Norte. Um de seus feitos mais marcantes foi ter conseguido fazer com que São Sebastião zerasse o índice de recém nascidos soro positivos – crianças nascidas sadias de mães infectadas pelo HIV. Ou seja, há 14 anos, desde 1996, quando iniciou este trabalho na rede pública municipal, nunca mais uma criança nasceu infectada no município. O índice brasileiro de crianças nascidas contaminadas é de 3 a 4%. Curitiba, por exemplo, só conseguiu zerar este índice há dois anos. Ele é Carlos Mello de Capitani, 58 anos, dois casamentos, cinco filhos – o mais velho, o dentista Daniel, tem 36 anos; e a caçula, Marina, 11. Tem ainda dois netos: Leonardo, 6 anos; e Rafaela, um. Paulistano, formado pela Faculdade de Medicina de Santos, ele é clínico geral com três especializações: Infectologia; Saúde Pública, pela USP; e Medicina Chinesa, pós graduação realizada na Escola Paulista de Medicina. Elogiado, competente, com trânsito internacional, Capitani surpreende quando fala de suas principais vitórias nesta vida. “A primeira é estar vivo e poder contribuir socialmente. A segunda são os filhos, verdadeiros presentes de Deus! A terceira foi não perder a sensibilidade para perceber o sofrimento humano – apesar disto trazer junto muito sofrimento também para a gente. Mas não perder esta sensibilidade é outro presente de Deus, que agradeço todo dia”. Outras vitórias: manter a curiosidade e o interesse por continuar aprendendo sempre; e ter encontrado Helena Glina, a companheira, também médica, mãe dos três filhos mais jovens. “Eu sou muito filósofo, ela me deu um norte na vida, um sentido mais concreto para as coisas”. Juntos, os dois mantém consultório em Caraguatatuba e São Sebastião e, neste final de semana, estão em São Paulo participando, durante dois dias inteiros, do Congresso Brasileiro de Hepatite e AIDS, promovido pela Sociedade Brasileira de Infectologia e pelo Ministério da Saúde. Em média, participam de dois congressos anuais. AIDS Residente no bairro São Francisco, um dos últimos redutos caiçaras da região, ele está em São Sebastião há 24 anos. Aqui participou da equipe que montou o Serviço de Atendimento em Infectologia, transformado no Centro Municipal de Infectologia (Cemin) em 2002. Hoje, o Cemin acompanha 350 pacientes, a maioria com AIDS, cerca de 100 deles aidéticos também infectados com hepatites B e C, a maior parte na faixa etária entre 20 e 49 anos; além das outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTS). “Hoje, a sobrevida do paciente de AIDS que faz o tratamento direitinho é muito grande, mais de vinte anos. Desde 1996, quando surgiu a terapia anti-retro-viral, o chamado “coquetel” (vários medicamentos diários), eles estão todos aí, sobrevivendo”, diz ele. Capitani elogia a equipe do Cemin, que acompanha de perto todas as crianças nascidas de mães infectadas – cerca de 70 – e, em sua opinião, são os grandes responsáveis pelo nosso índice zero, junto com o pré-natal completo feito na rede, mais o trabalho da coordenação municipal de Saúde da Mulher. Sua dedicação ímpar à causa da AIDS começou há mais de vinte anos, quando criou no Litoral Norte o Núcleo de Estudos da AIDS, época em que mantinha até um programa de rádio sobre o assunto em Caraguatatuba. O Núcleo reunia profissionais envolvidos no atendimento – médicos, enfermeiras, assistentes sociais e psicólogos – de Paraty até Ilhabela. “Tínhamos reuniões mensais que eram verdadeiros fóruns de Saúde Pública e onde discutíamos tudo, desde o fluxo de pacientes até a integração das cidades. Naquela época ainda não existia o retro viral, então nossos pacientes morriam todos. As equipes precisavam de um suporte psicológico e assim íamos nos apoiando mutuamente. Depois vimos que aqui tinham muitas mulheres infectadas – a média no país era de cinco homens para uma mulher, e aqui no LN já tínhamos então dois homens para uma mulher, relação esta que nos últimos seis anos chegou a um para um. Infelizmente, a política foi corroendo o trabalho do Núcleo, quem participava ia ganhando uma certa evidência e criava ciumeira. Aliás, é assim até hoje. Este é um dos maiores problemas, a ciumeira”, desabafa ele. Capitani diz que o trabalho do Núcleo “foi uma experiência fantástica”. Dela nasceram muitas coisas, até uma melhora no pensamento por trás das políticas públicas de saúde, além do curso de Saúde Pública, dado pela USP em 2000, para cerca de 50 médicos e enfermeiras. “Foi um curso de especialização com 458 horas/aulas. E é disto – treinamento – que sentimos falta e precisamos retomar de alguma forma”, garante. Desafios Membro das Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (há três anos) e da Comissão de Ética (1 ano) do Hospital de Clínicas de São Sebastião, Capitani tem sido uma voz para os profissionais de Saúde do município. Sócio fundador da Associação dos Profissionais de Saúde (APS-SS) desde 1988, há dois anos ele preside a Associação dos Médicos de São Sebastião e Ilhabela (Amessi), criada em 2007. “Nosso enfoque agora é capacitação técnica e vamos realizar, entre 2 de agosto e 27 de setembro, um novo curso”, conta. Indagado sobre os desafios que tem pela frente, Capitani se diz esperançoso. “Quero ver nossa saúde pública melhorada e acredito que agora consigamos avançar mais com a saída das duas oscips (Pró Saúde e Instituto Sollus) que administraram o Hospital de Clínicas nos últimos quatro anos”. Agora comandado pela Prefeitura, Irmandade e Corpo Clínico, o hospital deve, em sua opinião, “crescer e acompanhar o crescimento previsto para a cidade. Hoje há uma defasagem enorme, é uma situação incoerente. Também precisamos acompanhar o crescimento científico. Nós podemos fazer muito mais pela saúde do município com o hospital melhorado, sem precisar mandar pacientes para fora, evitando este sofrimento todo para as famílias. Isto não depende exclusivamente de dinheiro, mas de vontade política e de organização. É uma questão de gestão de saúde, de correta aplicação das políticas de saúde, de forma coerente com as reais necessidades da população, sem ficar inventando coisa com prioridades trazidas por gente de fora”. Sempre incentivado e até cobrado a ter uma participação política maior, Capitani diz que esta é uma de suas derrotas. “Eu não consigo compreender os homens do poder, os políticos. Não me sinto capacitado para exercer a política, porque não aceito exercer o poder da forma como acontece hoje, com atitudes e conceitos com os quais não concordo e não aceito”. África Há quase dez anos ele é consultor internacional para países africanos da Costa Atlântica. No continente africano, Capitani luta, ao lado de especialistas do mundo todo, contra malária, tuberculose e AIDS. Nesta ordem. “Lá a malária ainda mata que nem água”, conta Capitani. Já a tuberculose, causada pela desnutrição, aparece como doença oportunista, quase sempre associada à própria AIDS. Ele iniciou este trabalho em 2001, quando passou um ano no Ministério da Saúde, em Brasília, como coordenador da Unidade de Diagnóstico e Tratamento de AIDS no Brasil. A experiência africana começou por meio de consultoria dada via Unesco, Unicef e depois pela Agência Brasileira de Cooperação Internacional, órgão do Itamaraty. Como especialista no combate à AIDS, Capitani foi para a África trabalhar inicialmente em Cabo Verde, Guiné Bissau e Angola – país de cujo porto, na capital Luanda, saiu a maioria dos escravos negros trazidos para a América. Hoje, como consultor do Centro Internacional de Treinamento em Infectologia (Cicti), ele cuida das ilhas São Tomé e Príncipe. País de língua portuguesa, com 120 mil habitantes, ele é formado por duas ilhotas situadas no meio do Oceano Atlântico. Segundo Capitani, “um país maravilhoso, com uma vegetação exuberante como o nosso. E a boa notícia que temos é que desde que iniciamos o trabalho nestes países africanos, a transmissão materno infantil do HIV, que era 28%, caiu para 2%”. |
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