No comando de instituto criado para aprofundar pesquisas sobre o vírus, cientista alerta para a alta incidência entre os brasileiros
O papilomavirus humano (HPV) é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns em todo o mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde registra cerca de 140 mil novos casos de infecção a cada ano, o que coloca o país entre os líderes mundiais em incidência do mal. Uma a cada cinco brasileiras é portadora de pelo menos um dos diversos tipos de vírus da família Papilomaviridae. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que o HPV é responsável por 90% dos casos de câncer de colo de útero e responde pela segunda maior causa de mortalidade feminina por tumores malígnos no planeta. Para somar forças no enfrentamento ao problema, grupos de pesquisadores ligados a instituições que já desenvolviam estudos sobre o assunto se uniram para formar o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do HPV (Inct-HPV), em São Paulo. O centro é coordenado por Luisa Lina Villa, cientista que há 25 anos se dedica a patologias associadas ao vírus.
Em entrevista ao Correio, a pesquisadora explica que o instituto agrega equipes que se debruçam em pesquisas básica e clínica (com testes em pessoas) sobre o tema. Um dos objetivos é capacitar recursos humanos nos mais diversos níveis. O Inct-HPV também contribuirá para expandir a capacidade de implementação de protocolos e recomendações para o diagnóstico e tratamento das patologias causadas pelo vírus.
Diretora do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, Luisa Lina Villa atuou como coordenadora dos estudos clínicos envolvendo a vacina contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do HPV, disponível no Brasil desde 2007. É também professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. A sede do Inct-HPV será inaugurada até o fim de 2010, mas uma rede de pesquisadores já está na ativa. O instituto será financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Esforços contra o HPV
Qual a proposta do Inct-HPV e como ele está funcionando?
Fisicamente, o instituto funcionará em um prédio da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo que já está em reforma. Desde 2009, no entanto, pesquisadores envolvidos nos estudos sobre o vírus em instituições da capital paulista, do interior de São Paulo e de outras partes do país trocam conhecimento pelo meio virtual. Na verdade, o instituto foi criado para reunir e multiplicar esse trabalho. Faço parte de uma equipe que se dedica ao estudo do HPV há mais de 25 anos. Temos longa experiência na biologia, epidemiologia e, mais recentemente, na colaboração para o desenvolvimento de vacinas contra esse vírus. A meta é aprofundar as pesquisas básica e clínica, trazer novidades e transferir o conhecimento para outros cientistas, profissionais de saúde e sociedade em geral. Por isso, queremos, além de pesquisar, educar e formar novos pesquisadores e profissionais da saúde.
O objetivo, então, é implantar um centro de referência?
Essa será uma consequência. Se atingirmos as metas de pesquisas, de transferência de educação e tecnologia nos mais diferentes níveis e de divulgação desses estudos nacional e internacionalmente, nos tornaremos referência sim. Nossa intenção é unir esforços. Já temos uma base sólida de trabalho, que inclui estudos em epidemiologia e biologia dos HPVs (capacidade de transformação celular e aspectos imunológicos das infecções e doenças causadas pelo vírus) e que nos dá certeza de estarmos no caminho certo. Isso permitirá a divulgação para a população e para os profissionais da saúde.
E em relação ao diagnóstico?
Esse é outro passo importante. Vamos estudar novas estratégias para o rastreamento do câncer de colo de útero, que afeta mais de 20 mil mulheres a cada ano no Brasil. A metade delas morre porque são diagnosticadas tardiamente. Uma das propostas é modernizar, desenvolver tecnologias e métodos que, ao lado do papanicolau ou mesmo em substituição a ele, rastrearão e identificarão melhor as mulheres nas quais a intervenção médica deve ser feita com urgência. Esse é um projeto fundamental para nosso grupo. Se ele for bem-sucedido, reduziremos as taxas de mortalidade resultantes do câncer de colo de útero em alguns anos.
Como será feita a formação de novos profissionais?
Ofertaremos cursos em todos os níveis. Os de graduação já são oferecidos pelo programa da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa a estudantes de medicina que escolheram desenvolver trabalhos sobre o HPV. Para a pós-graduação, criamos uma linha que envolve várias vertentes do HPV e das doenças causadas por esse vírus. Cursos de especialização serão disponibilizados ainda em 2010. Já transmitimos conhecimento científico para instituições paulistanas e de outros estados por meio da telemedicina.
O Brasil tem profissionais capacitados para desenvolver esse tipo de trabalho?
Sem dúvida nenhuma. Modéstia à parte, o Instituto Ludwig formou nos últimos anos pelo menos 20 novos pesquisadores que atuam em instituições de São Paulo e do resto do país. Existem cientistas formados em centros fora da capital paulista que se dedicam ao assunto também. São pessoas capacitadas e competentes para trabalhar nessa questão tão urgente. O Brasil contribui cientificamente de forma importante para a literatura internacional nessa área. Já somos reconhecidos por isso, mas a nossa preocupação é ampliar a formação de recursos humanos de alto nível para alcançar e atender toda a população do país.
Qual é a situação do país em relação ao HPV?
Apesar do esforço desses profissionais, o Brasil revela uma frequência elevada de infecções e, sobretudo, das doenças causadas pelo HPV. O câncer de colo de útero é sempre um exemplo porque temos uma série de falhas em seu rastreamento. A maioria das mulheres não faz o exame do papanicolau, método tradicional para identificar prematuramente alguma alteração que poderá resultar em tumores malignos. Essa lacuna promove índices altos desse câncer. Embora atualmente exista uma melhor condição socioeconômica, a situação só não é mais preocupante do que a vivenciada nas nações africanas e no Haiti. No Brasil, excluindo os tumores de pele, o câncer de colo do útero é o segundo em incidência entre as mulheres. Perde apenas para o de mama. Em países desenvolvidos, ele fica em sexto ou sétimo lugar. É um problema de saúde pública. A vacina ainda não é ofertada pelo sistema público de saúde. É um medicamento caro e disponível apenas em laboratórios e hospitais particulares.
Como seria possível impedir a transmissão do HPV?
Já podemos evitar a transmissão primária, isto é, impedir a infecção que causa as doenças. A vacina profilática é eficaz quando aplicada em jovens que estão no início da atividade sexual. Para se ter uma ideia, a eficácia da vacina para prevenir os quatro tipos principais HPV -aqueles que causam 70% do total de cânceres de colo de útero e 90% da verrugas genitais – é de 99% a 100%. Estamos falando de uma proteção elevadíssima para uma vacina tão nova. Estudos que sugerem uma durabilidade de sete a nove anos de proteção. São resultados extremamente animadores. Mas não devemos esquecer que os métodos de prevenção tradicionais, como o uso da CAMISINHA em qualquer relação sexual, podem contribuir para a não propagação do HPV. Porém, com restrições. Diferentemente do HIV, o HPV também se manifesta fora da região protegida pelo PRESERVATIVO e o contágio pode acontecer mesmo com o PRESERVATIVO. Quanto maior a quantidade de parceiros sexuais, maior o risco. Isso é fato.
Além do câncer de colo de útero e de pênis, quais as outras doenças provocadas pelo HPV?
Várias. Os HPVs de alto risco oncogênico causam tumores no pênis, na vulva, na vagina e no ânus, tanto nas mucosas como na pele. O câncer anal masculino e feminino em 80% dos casos está associado ao HPV desse tipo. Tumores orais, de amídala também são causados pelos vírus HPV. Existem relatos também em esôfago e outras localizações. Embora raro, verrugas que atingem a região da laringe e das cordas vocais (papilomatose laríngea) acometem alguns jovens. O tratamento é extremamente penoso, a remoção é feita com inúmeras cirurgias. No Brasil, há a ocorrência de tumores de laringe com características diferentes dos estudados em outras partes do mundo. Temos interesse em explorar essas diferenças para entender qual é o papel dos HPVs nesse tipo de doença e quais são os principais fatores de risco.
O alto custo é o único fator que impede a aquisição da vacina
pelo governo federal?
Não. Ele é um empecilho forte, sem dúvida. Mas existem algumas questões, que inclusive já estão sendo avaliadas, que dizem respeito à melhor forma de recomendar e implementar essa vacina no país. O governo brasileiro já reconheceu a importância da vacina e isso é um passo importante.
Quais os principais desafios dos pesquisadores ligados ao estudo do HPV aqui no Brasil?
Precisamos auxiliar no diagnóstico adequado dessas infecções e das doenças envolvidas com o HPV, disseminar o conhecimento para os profissionais da saúde que fazem o atendimento à população. Infelizmente, ainda existem crenças e informações sem nenhuma comprovação científica que provocam estragos horrorosos. Ao suspeitarem de infecções provocadas pelo HPV, alguns médicos optam por cirurgias ampliadas em mulheres e homens jovens que ainda não têm o câncer. Por não compreenderem adequadamente, substâncias cáusticas são utilizadas. Entre a população, ainda há uma grande confusão também. As pessoas não sabem o que é HPV, muitos o confundem com o HIV e uma série de informações equivocadas são disseminadas. Desejamos dar acesso à informação precisa. Isso não é fácil.
O instituto também vai trabalhar os aspectos imunológicos?
Na imunologia, temos grande interesse em ampliar os estudos para buscar uma classificação adequada das respostas ao HPV. Mais especificamente, queremos saber quais são as falhas que podemos identificar no sistema imune e que promovem a persistência das infecções e o aparecimento de doenças. Em paralelo, estamos acumulando uma série de dados que permitirão definir marcadores tumorais, a fim de localizar as mulheres que, uma vez infectadas, terão êxito em se livrar da doença. Alguns marcadores são usados com sucesso em clínicas privadas de diagnóstico. O Inct-HPV quer promover isso para usuárias do sistema público de saúde.
O Inct-HPV promoverá intercâmbio com pesquisadores de outros países?
Definitivamente. Nós já temos um time de consultores estrangeiros que atuam em outras nações e contribuem com a gente. Essa troca de conhecimentos é importante para os estudos, para o avanço das pesquisas. Novas linhas de colaboração serão abertas quando a sede estiver pronta.
No Brasil, excluindo os tumores de pele, o câncer de colo do útero é o segundo em incidência entre as mulheres. Perde apenas para o de mama. Em países desenvolvidos, ele fica em sexto ou sétimo lugar”
Diferentemente do HIV, o HPV também se manifesta fora da região protegida pelo PRESERVATIVO e o contágio pode acontecer mesmo com o PRESERVATIVO”
Ouça trecho da entrevista
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06/FEVEREIRO/2010 |
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