, 17/11/2007 – 7h45 A edição desta quarta-feira do Jornal O Estado de S.Paulo destaca a denúncia de extorsão por que passou o Padre Júlio Lancelotti, fundador da Casa Vida. Durante todo o dia de ontem Júlio recebeu a imprensa e relatou minuciosamente o caso que também é destaque na Folha de S. Paulo e Folha On Line.No Estadão, a reportagem é asinada por Camila Haddad. Abaixo a íntegra do texto: ” Um bando chefiado por um ex-interno da Febem é investigado pela polícia por extorquir dinheiro do padre Júlio Lancelotti, de 64 anos, vigário do Povo de Rua e integrante da Pastoral do Menor. Pelo menos quatro pessoas – uma delas já presa – são suspeitas de exigir do religioso pelo menos R$ 56 mil ao longo de três anos. A Igreja cobrou ontem das autoridades segurança para a vítima. “É fato que o padre lida com situações de risco”, disse o arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer.A investigação começou em agosto, quando a polícia foi procurada pelo padre, que se notabilizou como defensor de adolescentes infratores. O principal acusado da extorsão é um desses jovens, Anderson Marcos Batista, de 25 anos, que tem ficha criminal por homicídio. O padre disse ter sido ameaçado de agressão e coagido a comprar um terreno no litoral. Também ajudou a pagar uma picape Mitsubishi Pajero para Anderson e três cúmplices. O religioso disse que o dinheiro entregue ao bando veio da poupança de 30 anos de trabalho e de dois empréstimos com amigos.Segundo a polícia, nos últimos quatro meses, o grupo ampliou as ameaças, dizendo que iria denunciar o padre por abuso sexual de menores. “O que foi comprovado que não existiu”, disse o delegado André Luiz Pimentel, chefe do Setor de Investigações Leste.Um dos acusados, Everson dos Santos Guimarães, de 26 anos, foi preso em flagrante em 6 de setembro, depois de receber R$ 3 mil do padre diante da igreja do Largo São José do Belém, zona leste. Na segunda-feira a Justiça decretou a prisão preventiva de Anderson, sua namorada, Conceição Eletério, de 44, e Evandro Santos Guimarães, irmão de Everson. Os três estão foragidos.O padre disse que deu dinheiro a Anderson pela primeira vez há sete anos, quando o jovem deixou a Febem (Fundação Casa). “O padre queria que ele recomeçasse a vida na sociedade”, disse o delegado. Pimentel afirmou que, no começo, os valores exigidos eram pequenos, de R$ 500 a R$ 800, para, por exemplo, quitar dívidas de aluguel da família de Anderson.Pimentel disse que as solicitações passaram a ter tom de ameaça depois que Anderson começou a namorar Conceição, há três anos. “O grupo foi pedindo valores ainda mais altos, chegando a exigir um terreno no litoral, no valor de R$ 40 mil”, afirmou o policial.Marco Antonio Bernardino, delegado assistente no caso, acrescentou que, na maioria das vezes, os criminosos faziam pressão por telefone. “Eles (quadrilha) perseguiam o padre na igreja, mas não chegaram a fazer ameaças de morte”, disse – o padre afirma que houve, sim, ameaças de morte, ainda que veladas.Além de dar dinheiro ao bando, o religioso acabou, sem saber, fiador de uma Pajero, que estava em nome de Conceição. “Um dia, o padre recebeu uma ligação dizendo que havia oito parcelas do veículo atrasadas. Teve de pagar o equivalente a R$ 16 mil”, disse Bernardino.A polícia grampeou telefonemas do grupo para o padre e apreendeu cartas, como revelou ontem o jornal Diário de S. Paulo. O tom dos contatos variava bastante. “Bom dia. Tudo bem. Olha, eu precizo (sic) de mil e quinhentos reais para ir ficar lá na praia. Por favor, me ajude com isso. Fico agradecido de coração. Fique com Deus e um feliz ano novo”, diz Anderson numa carta.Num telefonema, porém, Conceição ameaça denunciar o padre por assediar o filho, de 3 anos. Logo depois, o religioso argumenta com Anderson: “Vocês não podem colocar uma criança para mentir”, diz. “Tá bom”, responde o rapaz.O padre não informou nem seus superiores na Igreja nem amigos próximos da extorsão. “Ele mesmo tomou a iniciativa de denunciar. Estamos dando todo o apoio, mas preciso ainda conversar melhor com ele”, disse d. Odilo. O arcebispo afirmou esperar que o padre Júlio não desanime em seu trabalho social. “Sei que ele está sofrendo muito com tudo isso. É fato que o padre está exposto e que quem faz o trabalho que ele faz está exposto. Nem por isso deve deixar de fazê-lo.”“Nós esperamos Justiça nesse caso e também segurança para o padre Júlio poder continuar realizando o trabalho dele”, disse d. Pedro Luiz Stringhini, bispo auxiliar de São Paulo.Jornal O Estado de S.Paulo Leia abaixo a reportagem da Folha de S.PauloPadre Júlio afirma ser vítima de extorsãoSegundo o coordenador da Pastoral do Povo de Rua, um ex-interno da Febem o extorquiu por quase 3 anos, em R$ 50 mil4 pessoas tiveram suas prisões decretadas; o padre diz que o grupo ameaçou agredi-lo e denunciá-lo por pedofilia à imprensaDA REPORTAGEM LOCALO padre Júlio Lancelotti, 64, coordenador da Pastoral do Povo de Rua e um dos principais defensores dos direitos de adolescentes infratores, acusa um ex-interno da extinta Febem (hoje Fundação Casa) de o ter extorquido, por quase três anos, em cerca de R$ 50 mil.Segundo o padre Júlio, Anderson Marcos Batista, 25, que conheceu na Febem há sete anos, e mais três pessoas, entre elas a mulher de Batista, o ameaçavam fisicamente e diziam que iriam procurar a imprensa para denunciá-lo por pedofilia. “Eles conseguiram minar meus recursos. Nos últimos três anos deixou de ser ajuda e passou a ser extorsão.”Ele pagou prestações do financiamento de uma Mitsubishi Pajero para o ex-interno.Foi o próprio padre, a pedido da polícia, que gravou conversas nas quais era chantageado. Os quatro acusados tiveram suas prisões decretadas por crimes de extorsão e formação de quadrilha, como revelou ontem o jornal “Diário de S.Paulo”. Três estão foragidos. O padre Júlio conta que denuncia o caso de extorsão às autoridades desde o governo passado. Em 2006, afirma ter procurado o coronel Elizeu Eclair, comandante da PM durante o governo de Geraldo Alckmin (PSDB), para pedir ajuda.Na época, também segundo o padre, foram coletadas informações e feitas buscas nas casas dos suspeitos, mas nada foi encontrado. A Folha não conseguiu localizar Eclair nem Alckmin para comentar o caso. A Polícia Civil, no entanto, afirma que soube da denúncia de extorsão somente em agosto, segundo informou Marco Antônio Bernardino Santos, delegado-assistente do SIG (Setor de Investigações Gerais) da 5ª Delegacia Seccional.A pedido dos investigadores, o padre passou a gravar as conversas telefônicas com os criminosos. Foi a partir dessas gravações que a polícia prendeu em flagrante no dia 6 de setembro o ajudante Everson dos Santos Guimarães, 26, ao receber R$ 2.000 do padre dentro da Igreja do Belém.Segundo o delegado, o acusado confessou a extorsão, mas negou conhecer denúncia de abuso sexual contra o padre. Anderson Batista, ex-interno da Febem, a mulher dele, Conceição Eletério, 44, e Evandro dos Santos Guimarães, 28, irmão de Everson, tiveram a prisão preventiva decretada na semana passada, mas permanecem foragidos.Batista é considerado pela polícia o mentor da extorsão. Na chantagem, os acusados mandavam bilhetes e telefonavam ao padre com ameaças. “O argumento que mais me tocava era a violência dele bater nela [Conceição]. O assédio cerrado em cima de mim também assustava. Depois vieram essas denúncias mentirosas de pedofilia”, disse o padre. Ele afirma que conheceu Batista em visita a uma das unidades da antiga Febem, sete anos atrás. Depois, o ex-interno procurou o padre para pedir ajuda financeira. A extorsão teria começado três anos atrás. Além de intimidá-lo com insinuações de agressão, o grupo passou nos últimos meses a dizer que procuraria a imprensa para denunciar um suposto abuso sexual cometido pelo padre contra o filho de Conceição, de oito anos.”Tem coisas que você não consegue explicar. Tem coisas subjetivas. Eu queria mudá-los [os au
to
res da extorsão]”, disse o religioso, ao ser questionado por que tinha pago aos acusados por tanto tempo. O padre Júlio afirmou ontem que recebe salário de R$ 1.000 por mês e que mora com sua mãe e a sobrinha. Ele disse que irá pedir proteção policial.Policiais querem ouvir Batista para saber se ele tem provas das acusações de abuso sexual que fez por telefone. “O padre disse à polícia que os bandidos tinham uma gravação contra ele, mas que aquilo não seria verdade”, afirmou o delegado Bernardino Santos.Segundo o delegado, o padre pagou oito parcelas de R$ 2.000 de uma Pajero comprada no nome de Conceição. O carro foi apreendido no último domingo pela PM e apresentado no 9º DP (Carandiru) para verificação de uma denúncia de roubo. Batista foi ao local reclamar o veículo e, apesar de o pedido de prisão dele já estar em vigor, a polícia não o prendeu. O carro ficou retido.FORAGIDO:POLÍCIA INVESTIGA COMPRA DE SOBRADOAlém de responder por crime de extorsão, o ex-interno Anderson Marcos Batista é investigado pela Polícia Civil por enriquecimento ilícito. O foragido teria adquirido um sobrado recém-reformado de R$ 50 mil, com antena parabólica, na rua Ismael Dias, na Penha, zona leste. Policiais querem saber como Batista, que não tem emprego fixo, conseguiu dinheiro para comprar o imóvel. A polícia quer saber se ele obteve esse bem extorquindo outras pessoas. Padre diz que pagou os R$ 50 mil por “constrangimento”Júlio Lancelotti contou que conheceu o acusado, Anderson Batista, então interno da Febem, há cerca de sete anosO religioso disse que sofreu ameaças, inclusive de ser falsamente acusado de envolvimento com uma criança de oito anosDA REPORTAGEM LOCALO padre Júlio Lancelotti afirma que pagou cerca de R$ 50 mil em três anos porque acreditava que as pessoas que o extorquiam poderiam mudar. “Eu confiei muito que eles tivessem uma mudança. Que eu fosse capaz de atingir o coração deles, que eu fosse capaz de fazê-los entender”, afirmou.FOLHA – Como o sr. conheceu o Anderson Batista [acusado de liderar a extorsão?PADRE JÚLIO LANCELOTTI – Ele estava trancafiado em uma cela.FOLHA – Quanto tempo faz isso?PADRE JÚLIO – Faz muito tempo. Eu acho que já faz uns sete anos isso. Quando saiu, ele me procurou. Disse que estava sem onde morar, sem trabalho.FOLHA – Que tipo de ajuda ele pediu na época?PADRE JÚLIO – Nós conseguimos que ele arranjasse um lugar para morar. Nós ajudamos no aluguel. Depois, ele foi incluído em uma frente de trabalho da prefeitura.FOLHA – Em que momento a extorsão começou?PADRE JÚLIO – Ele queria ter uma bicicleta. Da bicicleta foi para a moto, da moto foi para o carro. Alguma coisa que vai ficando incontrolável. Sempre dizia a ele: você não tem limite.FOLHA – Em que momento surgiram as ameaças?PADRE JÚLIO – Nos últimos três anos. Aí as coisas começaram a ficar mais tensas, mais difíceis. Mesmo a relação dele com a companheira.FOLHA – Como eram as ameaças?PADRE JÚLIO – Ele dizia: “Eu vou resolver do meu jeito”. Nesse caminho ele teve um homicídio, ele matou uma pessoa. Esse inquérito foi arquivado porque ele alegou legítima defesa.FOLHA – Mas ele usava isso para amedrontar o sr.?PADRE JÚLIO – E dizia: “Eu sou capaz”. Algumas vezes, ele me procurou embriagado. Um dia ele veio aqui e tentou entrar com o carro na porta. Eu dizia que não tinha aquele valor, que tinha de esperar. Às vezes, eu conseguia só uma parte.FOLHA – Começou com quanto?PADRE JÚLIO – Com R$ 300, R$ 500. E acabou com R$ 10 mil, R$ 20 mil, R$ 40 mil.FOLHA – De onde o sr. tirava o dinheiro?PADRE JÚLIO – De economias. De empréstimos com amigos. Mas não era de uma vez só. Eu esgotei tudo que eu tinha.FOLHA – O sr. chegou a fazer empréstimos?PADRE JÚLIO – Eu não gostaria de dizer de quem. Com amigos. Consegui com duas pessoas amigas R$ 5.000.FOLHA – E a Pajero?PADRE JÚLIO – Ele comprou e eu fiquei como fiador. E fui ajudando ele a pagar.FOLHA – O sr. pagava a prestação?PADRE JÚLIO – Sim. Pessoalmente. Ainda falta um tanto. FOLHA – O sr. pagou por medo?PADRE JÚLIO – Acho que sim. Por constrangimento. No fundo, existia uma esperança de que ele mudasse.FOLHA – Mas, mesmo assim padre, não era para comprar uma Pajero, um carro de luxo?PADRE JÚLIO – Mas não era só isso. Dizia de outras coisas. Que iria comprar um terreno, uma máquina de fazer fraldas.FOLHA – Mas o sr. não pensou que um carro desse, de luxo, não era um pouco demais?PADRE JÚLIO – Sim, claro, achei que era um pouco demais. Eu fiz argumentos nesse sentido. Foi depois que ele perdeu um filho. Disse que estava sofrendo muito e, se tivesse isso [o carro], iria acertar a vida dele.FOLHA – Em uma das conversas gravadas, a Conceição diz que o denunciaria por causa do filho dela.PADRE JÚLIO – Do filho dela de oito anos. Ela tem uma vasta folha de passagem na polícia. Na gravação, eu digo: que coisa horrível, vocês vão usar o próprio filho. Vão ensinar a criança a mentir. Essa questão do filho era pontual. Eles não usaram isso sempre. A questão principal era o constrangimento.FOLHA – O sr. se dedicou a outras pessoas como ao Anderson?PADRE JÚLIO – A gente tem uma ajuda estabelecida. Ele fugiu disso. FOLHA – O que seria uma ajuda normal?PADRE JÚLIO – Uma ajuda para moradia, dois ou três meses. Conseguir auxílio para conseguir um vestuário, um sapato, para completar um aluguel.FOLHA – Mas o sr. se perdeu um pouco nessa ajuda excessiva?PADRE JÚLIO – Eu confiei muito que eles tivessem uma mudança. Que eu fosse capaz de atingir o coração deles, que eu fosse capaz de fazê-los entender.Fonte: Folha de S.Paulo
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