“Os nossos achados vêm apoiar uma abordagem agressiva que implique a identificação de uma história familiar significativa e a intervenção sobre factores de risco tradicionais”, comentam os investigadores, que sugerem ainda que os biomarcadores que indicam um risco aumentado de doença cardiovascular devem ser monitorizados nos doentes de alto-risco.
Um vasto corpo de pesquisa mostra hoje, de facto, que as pessoas com VIH apresentam um risco aumentado de doença cardiovascular. Pensa-se que vários factores podem contribuir para esta situação, como a elevada prevalência dos factores de risco tradicionais, ou os efeitos secundários de alguns fármacos ARVs.
O estudo de interrupção do tratamento SMART mostrou que as pessoas que faziam uma paragem na sua terapêutica ARV apresentavam um risco maior de doenças não relacionadas com o VIH, incluindo a doença cardiovascular. Análises posteriores mostraram, entretanto, que biomarcadores como o D-dímero e a IL-6 se encontravam elevados nestas pessoas (as que paravam a terapêutica), o que sugeria que a replicação do VIH se encontrava de algum modo associada a inflamação e coagulação.
Foi, pois, com o intuito de perceber melhor a contribuição destes factores de risco no desenvolvimento da doença cardiovascular que este grupo de investigadores levou a cabo o presente estudo. Assim, identificaram 52 doentes seropositivos para o VIH que haviam experimentado um evento cardiovascular durante a sua participação num outro ensaio, conduzido pelo National Institute of Allergy and Infectious Diseases, entre 1995 e 2009.
Além destas pessoas – as que haviam experimentado um evento cardiovascular (os chamados “casos”) – o estudo incluiu pessoas que não tinham tido nada (“controlos”).
Os investigadores prosseguiram, comparando, nestes dois grupos, a prevalência dos factores de risco tradicionais para doença cardiovascular (DCV), bem assim como os níveis de certos biomarcadores.
Em termos globais, verificava-se que, de base, os “casos” apresentavam uma prevalência significativamente mais elevada de alguns factores de risco tradicionais para doença cardiovascular do que os “controlos”, factores que incluíam a dislipidémia (87 vs 72%, p = 0.05), o tabagismo (49% vs 25%, p = 0.004), e história familiar de DCV (30% vs 11%, p = 0.003).
Após quatro meses de follow up, tanto o colesterol LDL como o colesterol total eram mais elevados nos casos do que nos controlos (p = 0.02 e p = 0.04, respectivamente), e após dois anos, os casos apresentavam níveis significativamente mais altos de glicose (p = 0.03).
Quanto à carga viral, aos 4 meses era significativamente mais baixa entre os doentes que haviam experimentado este tipo de eventos do que nos restantes (2500 cópias/ml vs 14000 cópias/ml, p = 0.04). Nem a duração nem o tipo de terapêutica ARV diferiram nos dois grupos.
Já no que diz respeito à contagem das células CD14, um indicador de inflamação, ela era mais elevada nos casos do que nos controlos, aos 4 meses de follow up (p = 0.04).
No que se refere aos biomarcadores, os níveis de D-dímero (um marcador da trombose e coagulação) eram mais elevados nos casos do que nos controlos, tanto no follow up dos 4 meses (p = 0.003) como no dos 2 anos (p = 0.04).
À semelhança do anterior, também o VCAM (um indicador da activação endotelial) se mostrou mais elevado nos casos, nos dois follow ups (p = 0.02 e p = 0.03, respectivamente).
Finalmente o TIMP-1, outro indicador da função endotelial, também se mostrou mais elevado nos casos, após 4 meses de follow up (p = 0.02).
Os investigadores prosseguiram depois para uma análise estatística que lhes permitiu verificar quais os factores que se mostravam associados de forma independente a um risco aumentado de doenças cardiovasculares.
Assim, ao fim de 4 meses de follow up, tanto o D-dímero (p = 0.02) como a história familiar (p = 0.006), o tabagismo actual (p = 0.004) e o colesterol total (p = 0.0005) se mostraram factores de risco significativos.
Ao fim de dois anos, foram a história familiar de ataque cardíaco prematuro (p = 0.03), o D-dímero (p = 0.006) e a glicose (p = 0.001) que se mostraram associados a um risco maior de evento cardiovascular.
Os investigadores comentam: “embora se tenha verificado que os factores que mais contribuem são os factores de risco tradicionais para doença cardiovascular, como o tabagismo e o colesterol elevado, também os marcadores de activação imune inata, disfunção endotelial e trombose se mostraram relacionados com eventos cardiovasculares”.
Referência
Ford ES et al. Traditional risk factors and D-dimer predict incident cardiovascular disease events in chronic HIV infection. AIDS, online edition: DOI: 10.1097/QAD.0b013e32833ad914, 2010.
Tradução
GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA
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