A adolescência traz consigo transformações biológicas, psicológicas e sociais e muitas vezes esta etapa é interrompida com uma gravidez precoce…
Publicado em 3 de Janeiro de 2010, às 9h56min | Patrícia Sonsin | Fonte: Vanelirte Moretto/GP
A adolescência é caracterizada por transformações fisiológicas, psicológicas e sociais. É a fase que separa a criança do adulto e se estende dos 10 aos 20 anos incompletos, segundo os critérios da OMS (Organização Mundial de Saúde), ou dos 12 aos 18, de acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), do Brasil. É nesta etapa também que muitas jovens engravidam. Uma gravidez que geralmente não foi planejada e nem desejada. E quando não é desejada pode trazer consequências biológicas, psicológicas e sociais negativas. O assunto gravidez na adolescência começou a despertar o interesse de alguns setores a partir de 1985, ano definido pela ONU (Organização das Nações Unidas) como Ano Internacional da Juventude.
Falta de orientação e conhecimento, fatores biológicos, de ordem familiar, sociais, psicológicos e contraceptivos contribuem para uma gravidez precoce. A mídia, principalmente a televisiva, também tem dado sua contribuição nos últimos anos ao exibir cenas que estimulam a prática sexual, o uso de roupas provocantes e danças apelativas.
Por serem muito jovens muitas vezes eles não assumem um compromisso sério e na maioria dos casos, quando ocorre a gravidez, um dos dois abandona a relação. Por este motivo o número de mães jovens e solteiras vem crescendo. Em 1999, aproximadamente 27% dos partos feitos no SUS (Sistema Único de Saúde) foram em adolescentes entre 10 e 19 anos. Pesquisa realizada em 1996 em alguns estados brasileiros apontou que cerca de 10% das adolescentes tinham pelo menos dois filhos aos 19 anos. Entre 1993 e 1999 o número de partos feitos pelo SUS em adolescentes mais jovens entre 10 e 14 anos aumentou aproximadamente 30%.
Em 2009 o Ministério da Saúde divulgou novos números sobre partos de adolescentes entre 10 e 19 anos na rede pública nos últimos 10 anos, conforme dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Entre 1998 e 2008 houve redução de 30,6% nos partos em adolescentes. Foram 485,64 mil em 2008 contra 699,72 mil em 1998. A redução ocorreu em todos os estados menos no Amapá. Nas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste o índice foi superior a 35%: Sul (36,4%), Centro-Oeste (36,7%), Sudeste (36,1%), Nordeste (27,8%) e Norte (12%). De acordo com o ministério, a queda no número de meninas grávidas está relacionada aos métodos anticoncepcionais e de educação sexual.
Abandono escolar
A chegada de uma criança na vida de uma adolescente transforma a vida da jovem e da própria família. Nesta fase, além das mudanças naturais da adolescência, a jovem passa a ter a responsabilidade de cuidar de outro indivíduo. Os cadernos e livros que faziam parte da rotinha da adolescente acabam dando lugar às fraldas e mamadeiras e muitas mães abandonam os estudos. “Uma adolescente grávida dificilmente volta a estudar, vira mão-de-obra barata e acaba delegando a função de cuidar da criança para a avó. Há exceções, mas são raras”, frisa o hebiatra Marcos Cristovam.
Uma das formas mais saudáveis para orientar a vida sexual dos adolescentes é que os pais tenham liberdade para informar e ouvir os filhos, e que desde cedo eduquem a criança para responsabilizar-se por suas ações. Para evitar a gravidez precoce o ideal é que as famílias planejem todas as etapas. O planejamento familiar abrange a promoção da saúde, a idade adequada para a gestação, o número de filhos, intervalo entre os partos, atenção à mulher durante a gestação, entre outros itens.
Inversão de valores
Com as constantes mudanças na sociedade, alguns valores se perderam ou se inverteram. O que antes era natural, agora passou a ser fora de moda. Em um grupo, quando alguém ainda está preso a algum padrão da época em que os pais eram adolescentes, este pode se sentir diferente. A virgindade antes essencial para uma moça fazer um bom casamento hoje é motivo para gozação. Em muitas situações mesmo que a menina não esteja preparada para perder sua virgindade, pela imposição dos amigos ela passa a adotar um comportamento de procura por um parceiro, e acredita que quando acontecer o que os outros esperam que ela faça, ela também terá histórias para contar e não será mais motivo de gozação do grupo.
Com a moda ditada por muitos programas de tevê, é comum ver meninas de cinco, seis anos de idade usarem maquiagem, calçado com salto, blusa que deixa a barriga à mostra, saias e shorts muito curtos. Isso tudo, aliado a outros fatores, acaba despertando precocemente a erotização e interferindo na questão biológica da criança. As meninas que antes menstruavam por volta dos 12 anos de idade, tiveram seu ciclo menstrual antecipado para 11 anos. “Esta puberdade mais precoce faz com que ela comece a ter relações sexuais mais cedo. A sexualidade era tratada com mais pudor antigamente, hoje, houve uma inversão, uma menina virgem com 15 anos é a diferente do grupo, é a excluída e ela quer quebrar esta barreira e este início mais precoce aumenta o número de gravidez na adolescência, além das chances da contaminação com DST (Doenças Sexualmente Transmissíveis), com HIV e o câncer de colo de útero”, destacou a enfermeira da Atenção à Saúde da Mulher e da Criança da Sesau (Secretaria de Saúde de Cascavel), Miriam Nara Lopes.
Planejando o Futuro
Em Cascavel, segundo a Sesau, os bairros em que há maior registro de nascidos vivos de mães adolescentes são o Santa Cruz, região Oeste, e Interlagos, região Norte. No comparativo entre os meses de janeiro e outubro de 2007/08/09 o índice de nascidos vivos no município entre adolescentes está na faixa dos 19%. De acordo com a médica da Vigilância Epidemiológica, Helenara Osório Cavali, a média em Cascavel está dentro do padrão brasileiro, mas é um número que ainda preocupa por se tratar de adolescentes. “O corpo ainda não se formou e as circunstâncias de uma gestação nesta fase preocupa tanto na questão da saúde física, quanto mental e social. A preocupação é reduzir este índice trabalhando o planejamento familiar”.
E para reduzir os índices de gravidez na adolescência, em outubro de 2009 foi colocado em prática o Programa Planejando o Futuro, uma iniciativa da UBS (Unidade Básica de Saúde), do Santa Cruz, em parceria com a Sesau, que foi desenvolvido com duas turmas da sétima série do Colégio Estadual Santa Cruz. “O objetivo deste trabalho é fazer com que os jovens planejem seu futuro e a partir do momento em que eles passam a fazer o planejamento se motivem a prevenir uma futura gravidez”, comentou a enfermeira da Atenção à Saúde da Mulher e da Criança da Sesau, Miriam Nara Lopes.
Segundo ela, o índice de gravidez na adolescência em toda a periferia de Cascavel é parecido. Entre os fatores que contribuem para que os jovens antecipem sua fase adulta e se tornem pais estão a falta de orientação familiar, falta de educação sexual (às vezes deixada sob a responsabilidade da escola), o acesso fácil a informação (informação esta que na maioria das vezes é falha) e a erotização precoce. “Percebemos que a maioria dos jovens pensa que sabe tudo, mas esta informação é muito falha, ele até conhece os métodos contraceptivos, mas não sabe usar ou não usa. Adolescente tem a sensação de autosuficiência e acredita que nada o atingirá”, comenta Miriam.
Três encontros do projeto foram realizados, no primeiro houve uma sensibilização para o adolescente pensar sobre seu futuro, planejar o que ele quer fazer no ensino médio, na faculdade; no segundo foram trabalhados os métodos contraceptivos e a alteração fisiológica; e no terceiro as doenças sexualmente transmissíveis. “A intenção é motivá-los a fazer uma faculdade, além de abrir uma porta para estes adolescentes na UBS, porque eles têm constrangimento de chegarem até a unidade e não sabem que têm direito de fazerem isso sozinhos e que lá eles têm privacidade”, explicou Miriam. “Este é um projeto piloto que acreditamos muito. Algumas mudanças já foram percebidas, mas é um trabalho que terá resultados a longo prazo e pretendemos estendê-lo a outras unidades de saúde. O adolescente tem maturidade biológica para reprodução, mas não mentalidade”, acrescentou.
Trabalhando com saúde coletiva há cinco anos, Miriam diz que ainda faltam programas direcionados à gravidez na adolescência, porém o Ministério da Saúde tem proposto políticas de atenção integral à saúde do adolescente. A menina mais jovem que Miriam viu grávida tinha apenas 11 anos de idade e agora aos 14 anos já está casada e na segunda gestação.
Na UBS do Santa Cruz há um ambulatório para atender exclusivamente os adolescentes. Para ser atendido na unidade os jovens (que podem ser moradores de todos os bairros do município) precisam agendar uma consulta na semana anterior. Todas as segundas à tarde e às quartas-feiras pela manhã eles têm à disposição profissionais para sanarem suas dúvidas. “O jovem é atendido pelo profissional com o qual tem mais afinidade, seja médico, enfermeiro, assistente social”, explicou Miriam.
Pensamento mágico
O médico responsável pelo ambulatório destinado a atender os adolescentes na UBS do Santa Cruz é o hebiatra (médico especializado no atendimento multifatorial à adolescentes), Marcos Cristovam. Segundo ele, são atendidos cerca de 30 por semana e todos os problemas de saúde relacionados ao adolescente são tratados, não se restringindo à questão da gravidez. Os jovens recebem orientação preventiva sobre sexualidade, situações peculiares da adolescência, drogas e sexo. “É um trabalho terapêutico e preventivo em que os pais podem acompanhar parte da consulta dos filhos. O atendimento aos jovens é diferenciado porque eles não são adultos e nem crianças”, explicou Marcos.
O trabalho desenvolvido por Cristovam também conta com a ajuda de estudantes de medicina da Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná) e de médicos residentes. O hebiatra cita que entre as principais causas da gravidez precoce estão a mídia que estimula a sexualidade e a revolução industrial que fez com que os pais deixassem seus lares para trabalharem fora e a responsabilidade de cuidar da criança passou a ser delegada à terceiros e à televisão. “Os valores estão distorcidos. Existe um estímulo muito grande da sexualidade. Estas crianças deveriam estar brincando de carrinho e boneca”, disse. “Apesar da orientação, os jovens têm o pensamento mágico de que não vai acontecer com eles”, acrescentou.
A escola, que tem a função de aperfeiçoar o que as crianças aprendem em casa, cada vez mais vem se deparando com situações em que a educação está sendo delegada à ela. A enfermeira Miriam alerta que de nada adianta trabalhar sobre os problemas dos jovens somente com o adolescente se a família também não for orientada. “As pessoas veem na tevê e copiam, não questionam se aquela roupa não deve ser usada, isso tem que ser orientado”.
Para 2010, o Programa Planejando o Futuro terá continuidade e deve ser estendido à outros bairros.
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04/JANEIRO/10 |
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