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Igrejas e seus absurdos: Fé em falsa cura leva portadores de HIV à morte

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O NORTE – PB | DIA-A-DIA

AIDS | DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS | ANTIRRETROVIRAIS

27/06/2010

Convencidos em igrejas evangélicas de que já não possuíam o vírus da AIDS, 4 pessoas faleceram por abandonarem tratamento

 

Isabella Araújo – isabellaaraujo.pb@dabr.com.br

A cura da AIDS ainda é um sonho para milhares de pessoas que contraíram o vírus e continua sendo um desafio para os cientistas de todo o mundo. E, apesar de o Brasil ser um dos poucos países a disponibilizar gratuitamente o tratamento com 21 medicamentos que podem prolongar a vida dos pacientes por décadas, em João Pessoa, pelo menos quatro portadores do HIV morreram depois de atribuírem a baixa nos exames de carga viral a um milagre ou cura espiritual, o que foi propagado nas igrejas que frequentavam. Por terem abandonado o tratamento em nome da fé que tinham, esses pacientes abriram espaço para a ocorrência de doenças oportunistas, que encerraram a expectativa de vida deles.

Propaganda estimula soropositivos a ignorarem o preconceito e manterem o tratamento Foto:Fotos: Fabyana Mota/ON/D.A Press

A relação conflituosa entre a doença e a espiritualidade, culminando na morte de quatro vítimas, não consta dos registros oficiais do banco de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), uma vez que a causa do falecimento é atribuída a alguma doença, como tuberculose,toxoplasmose ou câncer. Mas, a informação sobre a existência desses fatos foi repassada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da capital e confirmada no Hospital Clementino Fraga, no bairro de Jaguaribe. “Essas informações nos chegaram de maneira informal. Duas pessoas que a gente tinha conhecimento abandonaram o tratamento porque acharam que foram curadas depois de fazer o exame de carga viral. Também soubemos de outros dois casos com essa mesma situação”, disse o diretor do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) da SMS, Roberto Maia.

Fotos: Fabyana Mota/ON/D.A Press

Ele explicou que a confusão na cabeça dos pacientes em tratamento pode ter se instalado no momento em que eles fizeram os exames para saber como estava o índice viral, que geralmente tem uma baixa a partir do momento em que se começa a tomar os remédios. “Isso não significa, no entanto, que a pessoa não tenha mais o vírus, ou que esteja curada. Na verdade, a doença está controlada”, disse Roberto Maia. A médica infectologista do Clementino Fraga, hospital referência em doenças infecto-contagiosas e local de dispensação dos medicamentos em João Pessoa, Adriana Cavalcanti, também confirmou a informação desses casos e alertou para a importância da continuidade do tratamento. “Se o paciente fizer bem o tratamento, a carga viral “zera”, mas isso não quer dizer que a pessoa não tenha mais o vírus. Se a pessoa deixar o tratamento, o índice vai subir de novo”, ressaltou.

A infectologista ainda acrescentou que toda semana atende pelo menos um paciente que retorna ao hospital afirmando que abandonou o tratamento por diversos motivos. As causas variam desde os efeitos colaterais da medicação, o medo de que a família descubra, um quadro clínico de depressão e até mesmo causas religiosas. Geralmente, os sintomas de fraqueza e diarreia começam a aparecer, e além de prejudicar o tratamento, a falta da medicação também pode afetar a resistência do vírus, fazendo com que o paciente tenha que usar outros ANTIRRETROVIRAIS mais fortes para se cuidar. “O objetivo do tratamento é fazer com que aspessoas tenham uma vida normal. Cada caso deve ser analisado e o controle da doença depende do paciente. Só que depois que se começa um tratamento, ele não pode parar e segue para o resto da vida”, frisou.


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