Início HIV/AIDS Drogas e AIDS Imigração e prevenção: o efeito da migração nos comportamentos de risco

Imigração e prevenção: o efeito da migração nos comportamentos de risco

0

Imigração e prevenção: o efeito da migração nos comportamentos de risco

Roger Pebody, Tuesday, August 26, 2008
Segundo comunicação apresentada no dia 5 de Agosto na Conferência Internacional sobre SIDA, há diversos comportamentos de risco que se tornam mais comuns nos homens depois de estes emigrarem. Alguns dos comportamentos identificados como mais prováveis de acontecer incluem relações sexuais com trabalhadoras de sexo comercial, sexo sob a influência de drogas ou álcool, sexo em troca de dinheiro ou com outro homem.

Estes dados foram obtidos através de uma série de estudos feitos nos Estados Unidos com imigrantes do México e, apesar de algumas das descobertas serem específicas desta amostra, permitem igualmente esclarecer alguns temas que podem ser relevantes para o trabalho de prevenção com migrantes em outros países, incluindo gays migrantes.

Mais de onze milhões de mexicanos vivem nos Estados Unidos. Os homens migram mais do que as mulheres, encontrando-se a maioria em idade produtiva. A permanência nos Estados Unidos poderá ser temporária e cerca de $3>de estão indocumentados. A prevalência do VIH é mais baixa no México do que nos Estados Unidos embora, neste país, esta seja relativamente alta na população hispânica/latina, tendo sido reportado um aumento nos comportamentos de risco. A Conferência Internacional sobre SIDA, realizada na Cidade do México foi o local apropriado para a sessão da tarde de quinta-feira, que explorou a vulnerabilidade ao VIH entre os migrantes mexicanos.

Melissa Sanchez, da University of California, destacou diversos factores sociais susceptíveis de contribuir para a vulnerabilidade entre os migrantes: a pobreza, o subemprego, a má habitação, a mobilidade constante (na sua maioria, na procura de emprego), o isolamento, a depressão e o acesso limitado a cuidados de saúde.

No estudo participaram 364 homens que, ou estavam nos Estados Unidos há menos de cinco anos ou regressavam ao México regularmente. Os participantes foram recrutados em locais de trabalho (quintas, pontos de encontro para recrutamento laboral), bares e discotecas (incluindo os frequentados por homens que têm sexo com homens) e comunidades locais (habitação familiar, mercearias, igrejas, entre outros.)

Vários estudos anteriores já tinham identificado que os migrantes mexicanos nos Estados Unidos têm um nível elevado de comportamentos de risco, mas não tinham sido capazes de medir a alteração de comportamentos a nível individual. Por isso, a investigadora questionou os inquiridos sobre uma série de comportamentos de risco, antes e após a migração.

Descobriu que, embora 18% dos inquiridos tivessem tido sexo com uma trabalhadora de sexo antes da migração, 29% tinham-no efectuado depois (p = <0,0001). Do mesmo modo, a percentagem daqueles que tiveram relações sexuais enquanto estavam sob a influência de drogas ou álcool passou de 25% para 41% (p = <0.0001) e a dos que relataram ter tido sexo com outro homem subiu de 4% para 7%. No que diz respeito às relações sexuais que envolveram algum tipo de transação (sexo em troca de dinheiro, comida, abrigo, medicamentos ou protecção), a percentagem aumentou de 1,4% para 2,7%.

Sanchez concluiu que os comportamentos de risco eram mais comuns em homens recrutados nos locais de trabalho e em bares/clubes, locais onde era mais provável encontrar homens mais isolados das suas famílias.

No entanto, a conclusão mais optimista da investigadora foi que, após a migração, havia uma maior utilização do preservativo. A percentagem daqueles que reportaram utilização inconsistente do preservativo (só às vezes, raramente ou nunca) desceu de 81% para 65% (p = <0,0001).

Conclusões similares sobre a utilização do preservativo foram apresentadas por Rene Leyva-Flores na mesma sessão. Os imigrantes mexicanos entrevistados por ele consideravam, mais frequentemente, a Califórnia como um lugar onde a SIDA existe e onde é necessário usar preservativos. No entanto, no regresso ao México e ao convívio com as suas esposas a SIDA não era considerada relevante e os preservativos não eram utilizados.

O estudo de Pilar Torres consistiu num inquérito qualitativo sobre atitudes face à migração entre os jovens mexicanos, com idades compreendidas entre os 15 e 24 anos. Pilar Torres entrevistou emigrantes que regressaram dos Estados Unidos e aqueles que permaneceram no México.

Aqueles que se mudam para os Estados Unidos fazem-no para resolver dificuldades financeiras, ir para junto de familiares previamente emigrados e escapar a uma variedade de problemas no México. Por outro lado, aqueles que não migram tinham, frequentemente, menos problemas financeiros e pretendiam permanecer no México para cuidar de parentes ou prosseguir a sua educação.

Surgiu outra diferença de atitude que pode ser relevante para a propagação da epidemia. Aqueles que migraram foram caracterizados como aventureiros e com mais probabilidade de correr riscos, enquanto que aqueles que não saíram do país, eram mais receosos e avessos a situações arriscadas. O acto de migrar é, por si só, cheio de perigos que podem variar entre a situação de se encontrar sozinho num ambiente desconhecido e hostil até ao risco de perder a própria vida durante a travessia da fronteira. Torres sugeriu que estas atitudes frente às situações de risco e às incertezas influenciam os comportamentos relacionados com o sexo/as práticas sexuais e o consumo de drogas.

Homens gays e bissexuais: migração sexual
Durante a conferência foi igualmente apresentado um relatório de Hector Carrillo (presidente da sessão acima mencionada), sobre questões de migrantes mexicanos gays e bissexuais. Ele descobriu que muitos homens mudam-se para os Estados unidos para viver um estilo de vida gay, mas que a sua falta de experiência em tal ambiente leva-os, por vezes, a assumir riscos de saúde.

O estudo foi baseado em entrevistas estruturadas efectuadas na Califórnia, a 77 homens nascidos no México, assim como outras feitas a homens que se relacionavam com mexicanos e a homens latinos nascidos nos Estados Unidos. Todos os homens se identificavam como homossexuais ou bissexuais e a maioria foi entrevistada novamente um ano depois. Também foram levadas a cabo observações nos locais de encontro destes homens.

Carrillo destaca que os homens migram para os E.U.A. por uma variedade de razões. Muitos já tinham assumido um estilo de vida gay de um modo mais ou menos aberto no México, mas desejavam viver de uma maneira mais completa e mais assumida nos Estados Unidos. Podem ter querido “proteger” os seus familiares de boatos sobre o seu estilo de vida ou pretendiam continuar um relacionamento com um homem americano conhecido no México. Essas razões eram frequentemente associadas a motivos económicos. (O fenómeno da “migração sexual” também tem sido abordado no Reino Unido no relatório Migrant Gay Men produzido pela Investigação Sigma e pelo projecto Gay Britain, desenvolvido pela organização Terrence Higgins Trust.)

O estudo conclui que “a fim de explicar de que forma é que os comportamentos de risco relacionados com o VIH são produzidos entre os imigrantes mexicanos gays e bissexuais que vivem nos Estados Unidos, temos de prestar atenção ao local onde eles assumir
am a sua orientação, de que maneira viveram a atracção
pelo mesmo sexo enquanto residiam no México e como é que essas experiências influenciaram os seus entendimentos culturais e expectativas. ”

Essas experiências são fortemente influenciadas pela classe social, educação e local de origem. Mais especificamente, alguns homens tinham tido relações sexuais com outros homens sobretudo num contexto de papéis fortemente definidos como “activo” ou “passivo” com pouca noção de uma identidade gay. Outros homens faziam parte de comunidades gay em grandes cidades mexicanas.

Os migrantes recentes, particularmente aqueles que não tinham tido um estilo de vida gay no México, enfrentam muitas vezes, novas situações e contextos onde as “regras do jogo” são bastante diferentes das que tinham experimentado anteriormente. O arrojo e a natureza impessoal das saunas, festas sexuais, e os “engates” pela internet podem ser surpreendentes. Homens com dificuldades linguísticas e expectativas diferentes sobre a maneira como as coisas estão organizadas podem ter dificuldade em proteger-se nestes ambientes.

Alguns homens tiveram uma experiência limitada de relacionamentos longos com homens. Tal como para muitas outras pessoas, o desejo de intimidade e de confiança pode levar ao abandono da utilização do preservativo antes dos riscos reais terem sido examinados. Além disso, pode haver um forte desequilíbrio de poder entre os parceiros, por exemplo, entre um imigrante indocumentado num ambiente desconhecido e seu parceiro nascido nos EUA.

Para além disso, os investigadores concluíram que os homens nascidos no México tendem a ter menos atitudes individualistas do que aqueles que foram criados nos EUA. Os homens criados no México (tanto seropositivos como seronegativos para o VIH) expressavam comummente a sua convicção de que os parceiros sexuais se devem proteger um ao outro, enquantoque aqueles nascidos nos EUA sugerem frequentemente que cada homem é responsável pela sua própria saúde. Na ausência de debates claros entre os parceiros sobre o estatuto serológico para o VIH e o risco, os homens baseiam-se nos seus próprios conceitos, o que pode ser particularmente pouco fiável quando cada um está a agir de acordo com as suas próprias expectativas culturais.

Concluindo, Hector Carrillo observa que embora já existam nos EUA programas de prevenção específicos para homens latinos e migrantes, “mais trabalho pode ser feito para abordar o contexto e as situações de risco de infecção pelo VIH.”

Referências
Sanchez M et al. The effect of migration on HIV high-risk behaviors among Mexican migrants. XVII International AIDS Conference, Mexico City, August 5 2008, abstract TUAD0203.

Leyva-Flores R et al. Oaxacalifornia: transnational migration and the response to HIV/AIDS in Zapotec Mexican ethnic group. XVII International AIDS Conference, Mexico City, August 5 2008, abstractTUAD0202.

Torres P et al. Migration to the U.S. and attitudes towards risk and uncertainty among Mexican adolescents. XVII International AIDS Conference, Mexico City, August 5 2008, abstract TUAD0206.

Carrillo H et al. Risk across borders: sexual contexts and HIV prevention challenges among Mexican gay and bisexual immigrant men. Center for AIDS Prevention Studies, University of California, San Francisco, August 2008.

Tradução
GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA

Fonte: AIDSMap


Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Artigo anteriorFadiga
Próximo artigoLavagem de esperma
🌟 25 Anos de História e Dedicação! 🌟 Há mais de duas décadas, compartilho experiências, aprendizados e insights neste espaço que foi crescendo com o tempo. São 24 anos de dedicação, trazendo histórias da noite, reflexões e tudo o que pulsa no coração e na mente. Manter essa trajetória viva e acessível a todos sempre foi uma paixão, e agora, com a migração para o WordPress, estou dando um passo importante para manter esse legado digital acessível e atual. Se meu trabalho trouxe alguma inspiração, riso, ou reflexão para você, convido a fazer parte desta jornada! 🌈 Qualquer doação é bem-vinda para manter este espaço no ar, evoluindo sempre. Se VC quer falar comigo, faça um PIX de R$ 30,00 para solidariedade@soropositivo.org Eu não checo este e-mail. Vejo apenas se há recibos deste valor. Sou forçado a isso porque vivo de uma aposentadoria por invalidez e "simplesmente pedir" não resolve. É preciso que seja assim., Mande o recibo, sem whats e conversaremos por um mês

SEM COMENTÁRIOS

Deixe uma respostaCancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Descubra mais sobre Blog Soropositivio Arquivo HIV

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Sair da versão mobile