Mulheres se calam

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Correio Braziliense

Editoria: Pág.

Dia / Mês/Ano:

Revista do Correio

 

16/MARÇO/08

 

Estudo aponta que, por vergonha ou falta de tempo, 58,2% das brasileiras não procuram ajuda médica para tratar a TPM e que elas são as campeãs mundiais na apresentação dos sintomas

 

Maria Vitória
Da equipe do Correio
As brasileiras reclamam de dores de cabeça, inchaços, irritação, insônia, crises de ansiedade e de raiva, distensão abdominal e cólicas, mas não procuram ajuda médica para aliviar ou cessar esses sinais. A constatação faz parte do estudo epidemiológico Tensão Pré-Menstrual: Perspectivas e Atitudes de Mulheres, Homens e Médicos Ginecologistas no Brasil, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Campinas (Unicamp) e do Centro de Pesquisas em Saúde Reprodutiva (Cemicamp), e divulgado semana passada. Depois de entrevistar 860 pacientes entre 18 e 35 anos, os cientistas descobriram que 80% tiveram ou têm crises de TPM.

Os sintomas aparecem de sete a 10 dias antes da menstruação e desaparecem com o início do fluxo menstrual. A intensidade dos sintomas classifica a TPM em três estágios: leve, moderado e severo. A forma mais severa é conhecida como Síndrome Disfórica Pré-Menstrual (SDPM) e apresenta impacto negativo na qualidade de vida da mulher, afetando as relações, as atividades sociais e a produtividade profissional. Somente nos Estados Unidos, estima-se que 4,5 milhões de mulheres tenham o distúrbio, sendo que 90% sem tratamento ou diagnóstico.

No Brasil, a situação é semelhante. Apesar das queixas freqüentes, a pesquisa descobriu que 58,2% das mulheres com sintomas físicos e emocionais não consultam um médico. No caso daquelas que mencionaram ter somente sinais físicos ou só emocionais, esse número sobe para 70,9%. “Entre as mulheres com TPM mais severa, apenas 40% buscaram a ajuda de um médico e eram aquelas com maior grau de escolaridade e nível socioeconômico”, afirma o ginecologista Carlos Alberto Petta, coordenador da pesquisa. Segundo o médico, diversos motivos estão relacionados à falta da consulta médica, como vergonha de falar sobre os sintomas, falta de informação sobre a síndrome e dificuldade de perceber os sinais como algo relacionado à TPM.

As entrevistadas que sofrem tensão pré-menstrual disseram que sentem nervosismo e ansiedade (85,4%), alterações de humor e choro fácil (81,9%) e irritabilidade (77,3%). Quanto às manifestações físicas, 77,6% reclamaram de dores e inchaço, 70,7% de cólica e 65,8% de dores de cabeça. Na opinião de Petta, o predomínio tanto de sintomas físicos quanto emocionais revela que as queixas podem ser maiores no Brasil do que em outros países. “Provavelmente a mulher brasileira moderna desempenha diversos papéis ao mesmo tempo, seja na família, no trabalho ou em casa, e não quer ter que lidar também com os sintomas pré-menstruais.” Alguns estudos internacionais já apontavam que as brasileiras sofrem mais de TPM do que as européias ou as norte-americanas, mas o estudo brasileiro foi o primeiro a demonstrar como elas são afetadas. No estudo, 61,7% das mulheres que dizem ter TPM têm trabalho remunerado.

Sobre as opções de tratamento, Petta explica que elas podem ser classificadas de duas formas: intervenções não-medicamentosas e farmacológicas. A primeira inclui alterações do estilo de vida, exercícios aeróbicos, modificação da dieta e acompanhamento psicológico. Já as farmacológicas usam remédios para a depressão, como ansiolíticos e inibidores da serotonina. Também são utilizados os anticoncepcionais combinados orais.

 

OS SINAIS DA CRISE

Sintomas físicos

 

Fadiga

Dor de cabeça (cefaléia)

Inchaço dos pés e das mãos

Dor nas mamas

Distensão abdominal

Cólicas

Alteração do apetite

Alteração do sono (aumento do sono ou insônia)

Dor nas articulações e nos músculos

Sintomas emocionais

Irritabilidade

Depressão ou desespero

Ansiedade e tensão

Tristeza repentina

Choro

Raiva e fúria

Oscilações súbitas de humor

Dificuldade de concentração

Baixa auto-estima

Desinteresse nas atividades habituais

Falta de energia


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