Os centros de tratamento para o VIH devem rastrear e tratar lesões anais pré-cancerígenas, argumentam investigadores do Reino Unido na edição on-line da revista AIDS. Esta sugestão decorre de investigações que mostraram que o tratamento com o creme imiquimod resolvia ou diminuía lesões anais pré-cancerígenas graves em 61% dos homens gays seropositivos.

Embora os investigadores não afirmem que o imiquimod prevenirá o cancro anal, “pelo menos sabemos que a neoplasia intra-epitelial grave [NIA grave, lesões pré-cancerígenas] se pode curar. Isto, de certeza, não vai prevenir todos os cancros anais, mas seria um grave erro esperar pelos resultados a longo prazo dos estudos da história natural… é o momento de que todos os centros de prevenção e tratamento para o VIH comecem a fazer rastreio e tratamento da NIA.”
As taxas de cancro anal estão a aumentar em doentes com VIH. Antes que o cancro se desenvolva, aparecem lesões pré-cancerígenas no canal anal.
O creme imiquimod é um possível tratamento para ditas lesões e tem duas claras vantagens: é o próprio doente quem o aplica e é adequado para o tratamento de lesões extensas. Investigações anteriores tinham demonstrado que se trata de uma terapêutica eficaz para lesões pré-cancerígenas no colo do útero.
No entanto, existe pouca informação acerca da eficácia do medicamento para o tratamento de lesões no canal anal e ainda não está aprovado para ser utilizado no ou em redor do ânus.
Por essa razão, investigadores em Londres desenharam um estudo que envolveu 64 homens gays seropositivos que apresentavam lesões pré-cancerígenas graves no canal anal.
Estes doentes foram divididos aleatoriamente para receber tratamento com o creme imiquimod três vezes por semana durante quatro meses ou um placebo. Após este período todos os doentes foram avaliados e a todos aqueles que ainda tinham doença foi-lhes proposto tratamento com imiquimod, num estudo aberto, por mais quatro meses. Os doentes foram instruídos para aplicarem metade da saqueta de creme sobre as lesões que estivessem não mais do que 2 cm dentro do canal anal.
Não existiam diferenças significativas entre os doentes de ambos os braços do estudo. Todos estavam a tomar terapêutica anti-retroviral e a média da duração do tratamento era de quatro anos. Aproximadamente 90% tinha carga viral indetectável e a contagem média de células CD4 era de aproximadamente 350/mm3.
Um total de 53 doentes (28 no braço de tratamento) completou o estudo. A razão mais usual para o abandono foi a insatisfação com os 50% de probabilidade de serem colocados no braço do placebo. Apenas um doente abandonou o estudo por efeitos secundários e um doente (no braço de placebo) interrompeu porque a doença progrediu, desenvolvendo cancro anal.
No grupo de imiquimod, as lesões graves foram completamente resolvidas em quatro doentes e estes permaneceram sem doença durante em média 33 meses de seguimento. No entanto, um doente desenvolveu um novo caso de lesões graves após 42 meses, provavelmente como resultado de uma reinfecção por estirpes de alto risco do vírus do papiloma humano (VPH).
Outros oito doentes tiveram as suas lesões diminuídas para baixo risco e um indivíduo eliminou completamente a doença 48 meses mais tarde.
Em contraste, no grupo do placebo apenas um doente eliminou as lesões graves. Estes resultados demonstram que a terapêutica com imiquimod tinha significativamente mais possibilidades de eliminar lesões graves ou reduzir a gravidade da doença (p = 0,003).
O tratamento em estudo aberto foi proporcionado a 21 doentes, doze dos quais tinham pertencido ao braço de placebo.
Cinco indivíduos experienciaram uma resolução total da doença e noutros quatro doentes diminuiu a gravidade das lesões anais. Mais tarde, um destes doentes conseguiu a total resolução.
“Em resumo”, escrevem os investigadores, “treze doentes eliminaram depois do tratamento… dezasseis diminuíram as lesões de forma prolongada para um estado de baixa gravidade… o número total de doentes que têm apresentado ausência prolongada de neoplasia intra-epitelial grave a seguir à terapêutica com imiquimod é de 29 entre 41 doentes (61%)”.
Os investigadores apontam que as lesões anais menos graves normalmente são causadas por estirpes de HPV que não provocam cancro, “razão pela qual, o sucesso na eliminação da neoplasia intra-epitelial grave, deixando apenas lesões menos graves, devia supor uma redução considerável do risco de cancro anal”.
Actualmente, poucos centros de tratamento do VIH no Reino Unido rastreiam os seus doentes para detectar alterações das células anais pré-cancerígenas. No entanto, os investigadores crêem oportuno adoptar medidas mais agressivas. Enfatizam os benefícios de detectar e tratar a doença, e reforçam que o “imiquimod pode ter um papel importante na gestão da neoplasia intra-epitelial”.
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