
O acusado conheceu a família das vítimas em uma igreja evangélica da cidade. “Ele parecia um bom amigo. Nos ajudava muito, toda semana ia para o culto com a gente”, conta o pai das duas crianças, que sustenta a casa com bicos na construção civil. A renda da família é, em média, de R$ 300 por mês. De acordo com o patriarca, o comerciante prestava diversos favores à família. “Houve mês em que ele pagou a conta de luz e o botijão de gás”, conta. O caso corrobora as pesquisas nacionais do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, divulgada em 1º de maio, e do Ministério da Saúde com dados do Sistema Viva (Vigilância de Violências e Acidentes), de 22 de maio. De acordo com os levantamentos, em 85% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescente, os agressores conhecem as vítimas (veja quadro).
Agressão
O acusado chegou a dar presentes caros às duas meninas, como um computador e celulares. A adolescente de 14 anos revelou ao delegado Pablo Aguiar o que aconteceu antes de o comerciante presenteá-la com o computador: “Ele me agarrou, arrancou minha roupa, me bateu. No outro dia, me deu o notebook.” A mãe das crianças afirma que considerava estranha a dedicação do homem à família. “Eu achava esquisito, mas preferia acreditar que ele era um anjo nos ajudando, ele parecia tão religioso”, diz a mãe.
Os pais das duas meninas afirmam que não sabiam que as garotas frequentavam a casa do suspeito. “Ele aparecia aqui e oferecia carona para as meninas. Como a escola é longe, elas sempre aceitavam e nós achávamos que ele estava fazendo um favor. Eu não sabia que elas faltavam aula e iam para lá”, relata a mãe das vítimas.
A menina de 10 anos seria vítima de abusos há cerca de dois meses. “Segundo ela, no começo, eram carícias. Hoje (ontem), foi a primeira relação sexual”, explica o delegado-chefe. Já a menina de 14 anos era abusada há mais tempo. A primeira vez teria sido no início do ano passado, segundo o delegado Pablo Aguiar. O comerciante nega os crimes.
No início de 2011, o suspeito foi denunciado por outra garota de 14 anos pelo mesmo crime. Segundo registro da ocorrência, o pai da menina começou a desconfiar quando o comerciante ofereceu dinheiro para o seu filho mais velho, irmão da vítima, levar garotas até sua casa. “Ná época, o suspeito alegou que o pai da menina devia muito dinheiro a ele e que a denúncia era apenas para prejudicá-lo”, revela Pablo Aguiar. O caso ainda não foi julgado. Pelo flagrante de ontem, o comerciante será indiciado por estupro de vulnerável. A pena prevista é de 5 a 15 para cada um dos casos.
Em perigo
Levantamentos divulgados em maio detalham a violência sofrida por crianças e adolescentes e traçam o perfil dos agressores:
» 35% dos crimes sexuais são cometidos contra crianças
» Abuso sexual é o segundo tipo de agressão mais comum contra crianças brasileiras
» A maior parte das agressões ocorre na residência da criança (64,5%)
» Em relação ao meio utilizado para agressão, a força corporal/espancamento foi o meio mais apontado (22,2%), atingindo mais meninos (23%) do que meninas (21,6%).
» 73% dos casos de violências têm vítimas do sexo feminino
» Em 85% dos casos, os agressores conhecem as vítimas
» Em 68% dos casos, os agressores são parentes
» Em 80% dos casos, os agressores não têm antecendentes penais.
» Em 58% dos casos, os agressores se negam a receber tratamento
» Na maioria dos casos, os agressores não possuem transtornos psiquiátricos, mas têm transtornos de personalidade e, algumas vezes, transtornos psicopáticos
» 90% dos agressores têm capacidade de controlar o próprio comportamento
» 90% dos abusos não são detectados
Fontes: Pesquisa do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais,
divulgada em 1º de maio, e Pesquisa do Ministério da Saúde com dados do Sistema Viva (Vigilância de Violências e Acidentes), divulgada em 22 de maio.
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