Pesquisador da Unicamp ensina a abortar
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O Globo | Editoria: | Pág. | Dia / Mês/Ano: |
O País |
| 17/JUNHO/07 | |
Aníbal Faúndes recomenda a dose certa de abortivo
Adauri Antunes Barbosa
CAMPINAS (SP). Um dos principais pesquisadores latino-americanos na área de reprodução humana, anticoncepção e morbidade e mortalidade materna, o professor Aníbal Faúndes, do Centro de Pesquisas Materno-Infantis de Campinas (Cemicamp), defende a descriminação do aborto. Aos 76 anos, o chileno é consultor permanente da Organização Mundial de Saúde e coloca em prática as idéias que defende, em favor da mulher. Para combater a mortalidade materna, que apresenta no Brasil um dos mais altos índices mundiais, ele garante não ter dúvidas em informar às mulheres a forma correta do uso do misoprostol, o nome genérico do remédio abortivo Cytotec.
Faúndes quer evitar que mais mulheres sofram as conseqüências físicas de um aborto clandestino que, em muitos casos, podem levar à morte. Sônia, que prefere não se identificar com seu nome verdadeiro, é uma das mulheres atendidas no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estrutura de pronto atendimento emergencial para as áreas de ginecologia e obstetrícia, e que foi salva depois de fazer um aborto clandestino. O centro aplica as pesquisas feitas por Faúndes no Cemicamp.
— Eu estava desesperada.
Não sabia a quem pedir socorro.
Procurei uma aborteira e fiquei quase três dias sangrando. Minha irmã percebeu que a coisa era grave e me levou para o Caism — conta a jovem de 28 anos, cujo namorado não quis usar preservativo durante a relação sexual e desapareceu depois da gravidez indesejada.
Jandira, que também prefere não se identificar e nem se deixa fotografar, foi estuprada pelo ex-marido, depois de quase um ano separados.
— Quando descobri que estava grávida de novo, falei com uma amiga que conhecia o trabalho da Unicamp. Foi difícil, uma coisa muito amarga. Mas consegui a autorização para fazer o aborto. Eles me ajudaram muito — relata, contando ainda que tem três filhos e não recebe nada do ex-marido.
Faúndes acredita que a lei que proíbe o aborto no Brasil não é justa e nem eficiente. Por isso, indica a “dose certa” do Cytotec quando é procurado.
— Na dose certa, você tem pelo menos 95% de chance de que a gravidez vai ser interrompida.
Não tenho problema em informar isso. Toda pessoa tem direito à informação correta — defende, ressaltando que sempre vai tentar convencê-la a não fazer o aborto.
Para Faúndes, nenhuma mulher faz aborto porque gosta.
— Não conheci nenhuma mulher que gostasse. Ela acha que é o certo, sente um imenso alívio depois de ter feito.
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