Boletim Internacional sobre prevenção e assistência à AIDS
Ação anti AIDS
Encarte Brasil
N 42 out – dez 1998
Publicado por Healthlink Worldwide e ABIA
Sexualidade de crianças e adolescentes vivendo com HIV/AIDS
Felizmente a descoberta de novos medicamentos propiciou o aumento da sobrevida de crianças infectadas pelo HIV/AIDS. Na medida em que as crianças com AIDS começaram a crescer, observamos o início da tematização da sexualidade: “As crianças estão crescendo, e agora?”. Questões como namorar, ficar, dar beijos, trocar carícias, usar camisinha, fazer sexo, ter filhos, passaram a compor as falas e fantasias dos agora pré-adolescentes ou adolescentes vivendo com HIV/AIDS.
De fato, o que acontece com todos os adolescentes também ocorre com adolescentes com AIDS. No entanto, paira uma preocupação com o exercício da sexualidade pois a condição sorológica, na prática, acrescenta alguns elementos. Certamente um adolescente conhecedor da sua sorologia não é indiferente ao que vive. Uma menina sabe que o sangue da sua menstruação e a secreção vaginal tem HIV. Um garoto não ignora que no seu esperma existe o vírus. Além disso, ambos percebem que vivem num mundo preconceituoso no qual a AIDS ainda é um fantasma.
Todos sabemos que aceitação, rejeição, auto-estima são importantes em qualquer faixa etária, inclusive na adolescência, um período do desenvolvimento que marca a construção da identidade. Consciente ou inconscientemente, a AIDS perpassa as relações que os jovens infectados pelo HIV começam a construir: “Conto pra ela que tenho AIDS?”, “Vou poder ter filhos?”, “Se eu beijar meu namorado na boca, ele vai pegar AIDS de mim?”.
Conversa delicada
Muitos pais, voluntários e educadores surpreendem-se com o manejo desse assunto junto ao adolescente (ou pré-adolescente) que tem HIV/AIDS. Não raramente os adultos esquivam-se deste tipo de conversa, pois conversar abertamente com os jovens significa o confronto com a falta de respostas ou a abordagem de temas delicados, que se enlaçam com a ética, o direito, a moral.
A soropositividade e/ou a falta de apoio para a elaboração da sua identidade e condição de vida não podem subtrair aos adolescentes o direito de serem felizes.
Por isso, precisamos ampliar este diálogo e contribuir para o enfrentamento destas questões de forma serena e transparente com os adolescentes, garantindo-lhes o lugar de sujeito e contribuindo para que exerçam sua sexualidade de forma prazerosa, autônoma e segura.
Somente quando as crianças alcançam uma idade que potencializa a sexualidade genital e traz a possibilidade de reprodução surge o debate sobre sua sexualidade. Mas criança pequena não tem sexualidade? Por que somente quando as crianças tornam-se adolescentes surge a tematização da sexualidade? Podemos levantar várias hipóteses (e até mesmo desculpas) para este fato, mas parece-me que na trajetória da epidemia ocorreu um equívoco histórico, oriundo da perspectiva dos adultos, que vigora em nossa cultura. Olhamos para as crianças a partir de nós mesmos, das nossas perspectivas. Centrados na ideia do coito, desconsideramos descoberta corporais, jogos, masturbação, perguntas. A sexualidade não foi concebida no seu sentido amplo, nem vista como um processo, mas sim como algo que de repente aparece na adolescência.
Se aprofundarmos nossa reflexão, veremos que esse equívoco explicita algo que extrapola a discussão da pandemia, revelando que em nossa sociedade a sexualidade infantil e a própria infância subordinam-se aos parâmetros dos adultos (que nem sempre são os que atendem as efetivas necessidades das crianças). Observa-se, portanto, que a AIDS ampliou o debate sobre sexualidade, destampando muitos tabus que estavam encapsulados nas garrafas do preconceito. Mas, tudo indica, que nem a AIDS foi capaz de romper com a negação e os véus que a cultura utiliza para encobrir a sexualidade infantil.
Elizabete Franco Cruz – Doutorando da FE/UNICAMP e psicóloga do Grupo de Incentivo à Vida (GIV)
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