Início Ação Anti AIDS SOROPOSITIVO, 34, procura rapaz para namoro sério Procura-se um amor para João

SOROPOSITIVO, 34, procura rapaz para namoro sério Procura-se um amor para João

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A demanda de uma vida inteira num anúncio de jornal: “SOROPOSITIVO, 34, procura rapaz para namoro sério, alguém que queira construir uma vida a dois”

 

Amar é humano. E o amor é urgente, nesta vida perecível. Por isso o anúncio, em um canto de página de jornal, setembro passado: “SOROPOSITIVO, 34, procura rapaz para namoro sério, alguém que queira construir uma vida a dois”. João (o nome é fictício, a pedido do entrevistado) é portador do vírus HIV há 13 anos. Mas sofre mais por amor, como qualquer mortal, do que pelas angústias da AIDS.

É a segunda vez que ele expõe o coração no jornal, a primeira foi em 2005. “Tive essa ideia porque percebi que algumas pessoas só querem o momento da curtição… Venho de outras relações… Pessoas que se aproveitaram de mim, que brincaram com meus sentimentos. Que me roubaram. Pessoas que não sabiam do amor que eu tinha para dar a elas”, revela.

João teve um único relacionamento que ensaiou ser o grande amor. Entre idas e vindas, durou seis anos, até o último Dia dos Namorados. É pouco, para a disposição de João. “Quero conhecer uma pessoa legal para compartilhar os bons momentos da vida. Uma pessoa que queira, realmente, construir uma vida a dois”, sublinha. Nada além do que qualquer outro ser humano deseja e necessita, neste presente tão grande: ir de mãos dadas (como indicou o poeta). Apesar do HIV.

“Vivo normalmente. Sou considerado, por minha médica, como o melhor paciente dela”, assegura João, que trabalha em um escritório, gosta de ouvir música popular brasileira e pratica esportes. “Estou com 13 anos de estrada (AIDS). Tive recaídas, sim, devido a falhas na medicação. Estou, há cinco anos, com carga viral indetectável (em uma linguagem leiga, quer dizer que o vírus está sob controle, no sangue). Significa que a medicação está funcionando”, completa.

O tratamento evoluiu, mas o preconceito parou no tempo – atesta João. Apenas “dois ou três amigos, amigos mesmo” sabem que o antigo e competente companheiro de trabalho é portador do HIV. A AIDS se mostra, para o mundo, desde os anos 1980. Mas é ainda um cotidiano de sombras, o dia a dia ainda é secreto. “Não posso contar com minha família, até porque minha mãe é idosa. Ela tem só o primeiro grau completo, não vai entender. E sofre de pressão alta”, diz o arrimo.

“Às vezes, quero dizer para todo mundo que sou (SOROPOSITIVO). Até para o meu patrão, porque sei que ele é preconceituoso. Pode me demitir, não tem problema. Sou uma pessoa saudável e posso trabalhar”, contrapõe. João queria mostrar que a vida é maior do que a AIDS: “Quero que a sociedade quebre esse tabu de que a AIDS é uma coisa que vai lhe matar daqui a seis meses”.

Para ele, contaminado por volta dos 20 anos, o medo é refém do desconhecimento. E João se negou a morrer – a morte começa pela ignorância. “Pesquisei muito a respeito, a Internet estava iniciando. Livros de medicina eram como em japonês, para mim. Não conhecia muita coisa. Sabia, em termos. Participei de palestras sobre o problema. Não pode ser solucionado, mas pode ser administrado com medicação. Tem particularidades, mas você pode ter uma vida normal”, conclui o esportista.

E QUE VENHA O AMOR

João garante que a AIDS, ainda que lhe tenha camuflado o nome, não lhe tirou a identidade. “Jamais deixei de ser o que eu era. HIV, para mim, é consequência de uma irresponsabilidade no passado”, enfatiza. “Creio que fui contaminado em 1997 e que meu parceiro não sabia. Eu estava cegamente apaixonado, confiava. Descobri (a contaminação) porque começaram a aparecer coisas estranhas no meu corpo, comecei a ficar debilitado. Chegou a determinada situação que eu não poderia negar”, relata.

Mas ele reafirma: sempre fez questão de estudar, trabalhar, praticar esportes, ir ao cinema. E amar, “principalmente”. Do seu jeito, encurtando distâncias. “(Amor) É estar com aquela pessoa. Se não realizando os sonhos dela, fazendo parte deles”, dialoga com Mario Quintana e Clarice Lispector. O poeta compreendia que “amor é quando a gente mora um no outro”. E a escritora iluminava: “Quando se ama, não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós”.

Hoje, por viver a AIDS, a noção que João tem de amor foi ampliada. “Não posso sair por aí, contaminando as pessoas. Sei a responsabilidade que tenho”. A partir dos relacionamentos passados, aprendeu que a vida continua. Apesar do HIV. “A AIDS pode ser controlada, desde que a pessoa tenha amor próprio – e por outras pessoas”, acredita.

João se sente pronto para recomeçar. Por isso o anúncio no jornal. Até o fechamento desta edição, João havia tido dois encontros, “para conhecer melhor as pessoas. Teclo mais por MSN”. Um dos contatos lhe afirmou que “o HIV não é um problema que influencie em me conhecer”.

Quando se revela SOROPOSITIVO, João quer que o outro o abrace. “Gostaria de ouvir que me aceita como eu sou”, espera, entre os e-mails. Quer o amor do dia a dia, que borda uma vida inteira. “Tem um aperfeiçoamento, ao longo do tempo. Não é uma coisa de uma hora para outra. A gente vai descobrindo com o tempo e aprende dessa forma”.

E sabe que o amor exige coragem. “Mesmo que não dê certo de novo. A gente tem que cair e se levantar. Estou sempre disposto… Quem não quer ser feliz? E fazer outra pessoa feliz? Na mesma situação que estou, muitos estão. Podem ser, ou não, soropositivas”. Amar é humano. Que venha o amor, maior, também para João.

Por que

Entenda a notícia

Os relacionamentos, de uma maneira geral, e o amor, de modo particular, ainda são tabus no dia a dia da AIDS. São silenciados, ou são secretos. Ainda há muitas dúvidas sobre o que é a doença, hoje, passados mais de 30 anos de sua descoberta. Ainda não se sabe bem como viver e – principalmente – conviver com a AIDS.

Ana Mary C. Cavalcante

anamary@opovo.com.br

 

O POVO – CE | FORTALEZA


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