No estudo D:A:D o tratamento com abacavir (Ziagen®; também presente nos fármacos de combinação Kivexa® e Trizivir®) foi associado a um aumento de 90% do risco relativo de ataque cardíaco. Após a divulgação destes resultados, muitas pessoas interromperam o tratamento com abacavir.
Um grupo de investigadores de vários países foi, porém, reavaliar o significado clínico da relação entre o tratamento com abacavir e o risco de enfarte do miocárdio (ataque cardíaco), tendo concluído que os factores de risco já presentes em cada doente são importantes.
Os investigadores quiseram determinar a relação entre uma terapêutica com abacavir de 5 anos e o risco absoluto de ataque cardíaco. Além disso, procuraram determinar o número de doentes a quem seria necessário administrar abacavir para se dar um ataque cardíaco.
Para investigar estas hipóteses, começaram por avaliar os factores de risco individuais para doença cardiovascular, como os níveis de lípidos, a pressão arterial, idade, tabagismo e história anterior de doença cardiovascular.
Em primeiro lugar, avaliaram o risco para um homem de 40 anos com um perfil de risco baixo para doença cardiovascular. E concluíram que, para este indivíduo, o risco absoluto a 5 anos de ter um ataque cardíaco era de 0.1%. Deste modo, seria necessário que 1 111 pessoas tomassem abacavir para que uma delas tivesse um ataque cardíaco.
Contudo, à medida que o perfil de risco cardiovascular dos indivíduos se agravava, o seu risco absoluto de ataque cardíaco aumentava. O que se traduzia no facto de ser necessário um cada vez menor número de pessoas a tomar abacavir para que, de entre elas, uma tivesse enfarte agudo de miocárdio.
Por exemplo, se uma pessoa apresentava um perfil lipídico desfavorável (colesterol total acima de 6.2 mmol/l), então, o seu risco absoluto a 5 anos aumentava para 0.2%. Nestas circunstâncias, o número de doentes tratados com abacavir necessário para que ocorresse enfarte baixava para 555.
À medida que os investigadores juntavam factores de risco, o risco absoluto também registava aumentos. Assim, para um indivíduo com, por exemplo, colesterol total elevado, baixo colesterol HDL, que fumasse e, além disso, tivesse diabetes, hipertensão arterial e uma história anterior de doença cardiovascular, o risco absoluto a 5 anos de ter um ataque cardíaco era de 15%, sendo que se passaria a registar um ataque cardíaco por apenas 7 pessoas com esses factores de risco tratadas com abacavir.
“As implicações clínicas destes achados são simples: através do rastreio e tratamento adequados dos factores de risco cardiovascular modificáveis que determinam o risco subjacente de enfarte do miocárdio [ataque cardíaco] em pessoas com VIH, pode ser possível aumentar o número de doentes que podem ser tratados em segurança com um medicamento potencialmente associado ao desenvolvimento de um efeito adverso grave”, afirmam os investigadores.
Argumentam, pois, ser essencial “colocar no devido contexto” a associação entre o abacavir e um risco relativo elevado de ataque cardíaco.
Os investigadores, da Universidade de Copenhaga, desenvolveram uma ferramenta online que pode ser utilizada por médicos e pessoas com VIH, caso queiram determinar o potencial impacto do uso do abacavir sobre o risco cardiovascular (link para a ferramenta).
Referência
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