Transsexual: A luta pelo direito de ser diferente

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O corpo é como uma cela. Ci­ca­trizes nos pulsos são a dor que trans­bor­dou, dila­cer­ou, cor­roeu.

Mar­cas das quatro tent­ativas de aban­don­ar a vida, fu­gir de si mesmo.

Qualquer lugar, menos den­tro de si, era onde Mar­celo Caetano, 22 anos, quer­ia es­tar.

Ele não se re­con­hece.

Dos pés à cabeça, nada lhe per­tence.

Se­quer chor­ar alivia.

Ele de­spreza as lágri­m­as daquele corpo que não é dele.

Mar­celo é tran­sexu­al.

Nas­ceu mul­h­er, mas ja­mais sen­tiu-se como uma.

Desde cri­ança, dese­java usar roupas mas­culi­nas.

A princípio, não en­ten­dia.

Sen­tia atração por mul­heres.

Pen­sou ser lésbica. Ho­je, se en­tende homem. Dis­farça os seios, aper­ta­dos sobre uma faixa, e aguarda pela cirur­gia de re­atribuição sexu­al, mais con­hecida como mudança de sexo.

Deix­ou a casa do pai aos 17 anos para se afastar dos con­fli­tos fa­mil­i­ares.

A mãe de Mar­celo mor­reu quando ele tinha 2 anos. O pai, um veter­inário per­n­am­bu­cano, des­cend­ente de libaneses e católico, ja­mais com­preendeu a Sexu­al­id­ade do filho.

Há anos, os dois não con­ver­sam.

Per­deram-se um do outro.

Mar­celo vive soz­inho, desde então.

Aprovado no ves­ti­bu­lar de direito da Uni­ver­sid­ade Fed­er­al do Paraná (UFPR), re­ce­bia bolsa de auxílio.

Até o primeiro ano de curso, Mar­celo era cha­mado pelo nome fem­in­ino, que não rev­ela.

Usava ca­belos lon­gos até a cin­tura. Es­tava sempre de ber­muda e cam­is­eta mas­culi­nas.

Dur­ante a aula, a pro­fess­ora de direito civil falou sobre a tran­sexu­al­id­ade.

“Nin­guém te fala da pos­sib­il­id­ade de mudar, se você es­t­iver in­sat­is­feito”, lem­bra.

Somente nesse dia, eu tive a noção do que eu pre­cis­ava fazer para me sen­tir in­teiro.”

Mar­celo raspou os ca­belos, ad­otou nova iden­tidade. Comu­nicou a ami­gos e fa­mil­i­ares sobre a de­cisão.

O pai o re­jeit­ou, mas os ami­gos o acol­heram. Jun­tos, troux­eram à luz Mar­celo Caetano.

O se­gundo nome foi escol­hido em hom­enagem ao com­pos­it­or e can­tor bai­ano.

“Já pen­sou al­guém se lem­brar de mim quando ouve o nome Caetano?”

Cole­g­as de classe, acos­tuma­dos a ter uma men­ina como amiga, pas­saram a con­viver com um homem.

Mar­celo so­freu pre­con­ceito, ouvia pi­a­das sobre seu jeito de ser.

Para sat­is­fazer os out­ros, ter­ia de ir con­tra a própria natureza, aba­far o próprio desejo. Ainda que fosse o único pre­ju­dic­ado.

“Eu tinha duas escol­has: po­dia viver uma vida que não era minha ou en­frent­ar to­dos os prob­lemas e me as­sum­ir como homem.” Fez a se­gunda opção.

Em agosto de 2010, veio uma tent­ativa de suicídio – a quarta. Ferir-se pare­cia uma saída. Ami­gos in­tern­aram Mar­celo em um man­icômio, após o surto, em Cur­it­iba. Lá, a de­pressão se apro­fundou. Ele con­viveu com de­mentes, es­quizo­frênicos, pess­oas com os mais sever­os ti­pos de tran­stornos men­tais. Ficou in­ter­nado na ala fem­in­ina: “Nem na hora de ser lou­co eu pude ser homem. Mas era uma situação com­plicada, eu com­preendo. Ainda ouço os gri­tos”.

Cirur­gia:

De­pois de pas­sar meses dopado em um trata­mento pou­co eficaz, Mar­celo re­ce­beu alta.

Voltou para casa com desejo de mudar: de corpo, de vida, de casa.

De­cidiu aban­don­ar o direito.

Fez ves­ti­bu­lar nova­mente e pas­sou no de ciências polític­as da Uni­ver­sid­ade de Brasília (UnB).

É aluno desde agosto de 2011.

Em janeiro deste ano, en­trou com uma ação in­terna reivin­dic­ando o direito de ser cha­mado pelo nome que escol­heu e não pelo de mul­h­er, que está na Cer­t­idão de Nas­ci­mento.

Nin­guém ja­mais lutou tanto pelo re­con­he­ci­mento do próprio nome den­tro da UnB.

É a primeira vez que um tran­sexu­al ini­cia uma ação como essa.

Na uni­ver­sid­ade, ele ainda con­vive com pess­oas que se re­cus­am a chamá-lo de Mar­celo.

“É uma batalha diária. Peço, mas os pro­fess­ores não acatam o meu pe­dido. Tenho prob­lema para me in­scre­ver em seminári­os. Tudo é quatro vezes mais difícil para um tran­sexu­al na vida acadêmica. Gasto muito tempo me ex­plic­ando.”

A Pro­curador­ia-Ger­al da União da Fundação UnB avali­ou o pe­dido de Mar­celo.

Definiu que, leg­al­mente, po­dem con­star os dois nomes no re­gis­tro escol­ar.

Foi levada em con­sid­eração a Por­tar­ia nº 233/2010 do Min­istério do Plane­ja­mento.

A le­gislação prevê o uso do nome so­cial (aquele escol­hido pela pess­oa) para evitar bul­ly­ing e con­strangi­mento ao estudante.

A situação se com­plica porque Mar­celo ainda não fez a cirur­gia de troca de sexo. Sem isso, não mudou o nome no re­gis­tro civil. Re­cente­mente, ele pôs fogo na própria iden­tidade, em um mo­mento de tristeza.

Nos próxi­mos 30 di­as, o pare­cer será avaliado pelas câmaras de As­sun­tos de Graduação e de En­sino, Pesquisa e Ex­tensão da UnB. Somente de­pois disso, Mar­celo saberá se vai usar o nome so­cial na carteira estudantil, na cha­mada e nas in­scrições de seminári­os.

No cinema

A história de Mar­celo Caetano, con­hecido como Caê entre os ami­gos , foi tema de um cur­ta-metra­gem produz­ido pelas estudantes de jor­nal­ismo do IESB, Maíra Valério e Mar­ina Bártholo.

O filme, de 6 minutos, es­teve entre os 28 se­le­cion­ados (entre 97 in­scri­tos) para o fest­iv­al Cur­ta o Gênero, real­iz­ado em março, no Ceará.

Nele, Mar­celo mostra a frase tatu­ada no braço es­querdo:

“Eu te de­safio a me am­ar”.

A tatuagem di­vide espaço com as ci­ca­trizes do pulso.

“Eu sei que não sou fácil de con­viver, tenho mui­tos con­fli­tos. Até eu quero fu­gir de mim, às vezes. Por isso, pen­sei nessa frase.” Mui­tos aceit­aram o de­safio. Mar­celo vive cer­cado de ami­gos.

O rapaz tem um quê de poesia na fala e no jeito de ser. Es­creve quando quer ex­tra­vas­ar sen­ti­men­tos. “E eu me pego pensando como ser­ia se eu fosse as­sim, in­teiro, e não pela met­ade. Será que ainda me fal­tar­ia al­guma parte? Porque agora pra com­pensar, pra equi­lib­rar, me so­bra coração. Não posso mentir. É só por causa do coração que eu ainda con­sigo seguir”, diz um de seus poemas. Mar­celo já quis ser ad­vogado, se en­tender com o pai, mor­rer. Ho­je, Mar­celo quer, acima de tudo, ser Mar­celo.

Para saber mais

Em 2010, a Sec­ret­ar­ia de Educação do Dis­trito Fed­er­al pub­licou uma por­tar­ia autor­iz­ando o uso do nome so­cial nas escolas do DF. Desde então, Trav­estis (ho­mens que se vestem com roupas do sexo oposto) e Tran­sexuais (pess­oas que dese­jam mudar de sexo, por meio de cirur­gia) po­dem escol­h­er como serão cha­ma­dos no am­bi­ente estudantil. A UnB é uma uni­ver­sid­ade fed­er­al, port­anto não se en­caixa na por­tar­ia. Out­ras uni­ver­sid­ades do Brasil, en­tretanto, saíram na frente e já autor­iz­aram os estudantes a usar­em seus nomes so­ci­ais. Já é re­gra em Santa Catar­ina, Mato Grosso, Amapá, Espírito Santo e em Santo An­dré (SP), por ex­em­plo.

 COR­REIO BRAZI­LI­ENSE – DF | CID­ADES


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