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O País |
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10/FEVEREIRO/08 |
Em Recife, mulher contraiu leptospirose em enchente e foi mal atendida em hospitais
Letícia Lins
RECIFE. Líder comunitária numa favela erguida à beira de mangues e canais no bairro de Afogados – onde as moradias se alternam entre palafitas e outras de alvenaria, também precárias – Maria Luzinete da Costa, 50 anos, foi triplamente vitimada pela miséria e pela omissão das autoridades: não dispunha de saneamento, pegou uma doença por causa disso e ainda foi tratada com descaso na rede pública de saúde.
Terminou morrendo à míngua por uma das muitas doenças da pobreza: a leptospirose, que é transmitida pela urina do rato.
Ela contraiu a infecção na frente de casa, onde vivia literalmente com o pé na lama e nos dejetos que vinham com a chuva. E morreu após ser medicada em posto de saúde da prefeitura e hospitais do SUS, como se tivesse gripada, apesar dos sintomas de que seu mal era bem mais grave.
- Aqui as valas transbordam quando chove e a água se mistura com os dejetos dos esgotos domésticos, feitos pela própria população. Quando as ruas ficam cheias, a porcaria entra nas casas boiando.
Foi o que aconteceu naquela época. As valetas não têm tampas, estavam entupidas.
Chamamos a prefeitura, os funcionários vieram, mas não enfrentaram a enxurrada porque as botas tinham cano curto – lembra Daniel Domingos da Costa, de 27 anos, gari, um dos dois filhos de Luzinete.
- Minha mãe era muito afoita, corajosa.
Como os servidores da prefeitura não desentupiram a vala, ela entrou na água suja e foi fazer o serviço. Isso foi de manhã. De noite, já estava com febre, passando mal.
Fomos a um posto de saúde, disseram que era gripe e mandaram voltar para casa e tomar dipirona – conta Daniel.
O calvário da líder comunitária estava só começando. Sem melhorar, Netinha – como era conhecida – foi levada para o Hospital da Restauração, uma das maiores emergências da capital. Mas o HR informou que seu caso era para o Hospital Oscar Coutinho, do SUS. Voltou a ser medicada com dipirona e foi de novo para casa. Mas só piorava.
- Ela começou a inchar, ficou irreconhecível.
Foi aí que os médicos mandaram fazer os exames e foi constatado que estava com a doença do rato – afirma Daniel.
A família exige reparação e move um processo contra a prefeitura, ainda em tramitação na Justiça. Netinha, que tinha seis netos, virou símbolo das consequências dos males provocados pela pobreza e também de luta para enfrentá-los.
Na última sexta-feira, O GLOBO esteve na localidade, onde moram cerca de quatro mil pessoas. Segundo os moradores, quando a chuva vem a coisa se complica. Mas a prefeitura garantiu que até julho deste ano a localidade será beneficiada com as obras do projeto Capibaribe Melhor, que prevê urbanização integral da favela com ações de drenagem, pavimentação, remoção de palafitas e construção de conjunto habitacional para 400 famílias.
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