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Uma Mulher Deveria Poder Voltar Para Casa E Sentir-se em Casa

by Cláudio Souza — Soropositivo.Org
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Mulher descendo do carro ao voltar para casa, imagem destacada do artigo “Uma mulher deveria poder voltar para casa” sobre feminicídio e violência contra a mulher.

Uma mulher deveria poder voltar para casa

Foi ontem, eram por volta de sete e meia da manhã. Minha rotina diária, quando a agenda não está lotada de médicos, o que tem sido muito comum, é de me levantar, tomar meu desjejum que consiste em um pão com manteiga, um copo de café com leite e dois comprimidos de Creon e venho para o computador trabalhar. Ligo a TV e fico meio que dividido entre as duas coisas. Mas ontem foi demais!

Eu estava trabalhando. Na sala ao lado, a televisão estava ligada no Bom Dia Região. Eu não estava prestando atenção propriamente ao jornal. Ele fazia aquele ruído de fundo que a televisão faz enquanto a gente trabalha, até que algumas palavras atravessaram a parede e me fizeram parar.

As obrigações do dia me empurraram adiante, mas não me esqueci do fato e havia jurado a mim mesmo que publicaria sobre isso de uma maneira ou de outra. Sou um homem da velha guarda. Tive muitas mulheres, muitas amantes, mas cuidava de todas com desvelado carinho e, sim, era eu quem abria a porta do taxi para ela descer no La Farina e era eu quem a deixava com cara de quero mais amanhã.

Amanhã, meu bem, é outro dia.

Hoje, vejo na TV, nas rádios, nos jornais, em toda a parte um volume de barbaridades e atrocidades cometidas por homens que não aprenderam a perder, que muitas vezes o  que resta é tocar a vida adiante.

Esta história de matei porque amo é lero-lero de quem, na verdade, muitas vezes só conseguiu aquela mulher porque ela estava muito animada com possibilidades que além de não se materializarem, acabaram virando um tormento.

Muitas Vezes É Uma Questão Sócio-Econômica Um Vínculo Patrimonial que se perde e isso é inaceitável

Uma mulher.

Um ex-marido.

Violência.

Ferimentos.

Ela não teria resistido.

Ele não havia sido localizado e era considerado foragido.

E eu fiquei pensando em que momento nós aceitamos que notícias como esta se transformassem em parte da paisagem da manhã.

Café.

Previsão do tempo.

Trânsito.

Uma mulher morta.

Esporte.

Intervalo comercial.

Outra mulher espancada.

Mais tarde haverá outra notícia.

Amanhã talvez outra.

E depois outra.

Há alguma coisa profundamente errada quando conseguimos ouvir isso sem que o mundo pare por alguns segundos.

Não porque a televisão devesse parar.

Nós é que deveríamos.

Ao Chegar Em Casa Uma mulher deveria encontrar um lar

Uma mulher deveria sair para trabalhar e voltar para casa.

Só isso.

Abrir a porta.

Entrar.

Tirar o sapato se tiver vontade.

Tomar banho.

Comer alguma coisa.

Conversar com os filhos.

Ligar a televisão.

Reclamar do dia.

Dormir.

Uma mulher deveria chegar em casa e encontrar seu lar.

Ela não deveria fechar a porta atrás de si e dar graças a Deus porque conseguiu sobreviver a mais um dia.

Casa não deveria ser trincheira.

Marido não deveria ser ameaça.

Namorado não deveria ser carcereiro.

Ex-marido não deveria ser alguém de quem é preciso esconder o endereço.

Amor não deveria exigir medida protetiva.

E ninguém deveria precisar calcular, antes de girar uma chave na fechadura, se haverá alguém do outro lado disposto a matá-la.

Parece tão pouco pedir isso.

Chegar em casa.

No entanto, para muitas mulheres, chegar viva ao fim do dia tornou-se uma vitória.

E isso é monstruoso.

Depois perguntam por que ela não foi embora

Sempre aparece essa pergunta.

Por que ela não foi embora?

Como se fosse simples.

Como se toda mulher tivesse dinheiro guardado.

Como se toda mulher tivesse para onde ir.

Como se filhos, dependência econômica, medo, vergonha, ameaças e anos de violência psicológica pudessem ser colocados numa mala junto com duas mudas de roupa.

Como se um homem violento deixasse necessariamente de ser violento porque uma mulher terminou o relacionamento.

Aliás, muitas vezes é justamente aí que o perigo aumenta.

Ela foi embora.

Ele não aceitou.

Ela terminou.

Ele não aceitou.

Ela conheceu outra pessoa.

Ele não aceitou.

Ela decidiu viver.

Ele não aceitou.

Observe como a frase termina sempre no mesmo lugar:

ele não aceitou.

E então alguém pergunta o que ela poderia ter feito diferente.

Talvez devêssemos começar a perguntar por que ainda existem tantos homens que acreditam possuir uma mulher.

Eu conheci muitas mulheres

Eu vivi grande parte da minha vida na noite.

Conheci mulheres de todos os tipos.

Mulheres que a sociedade respeitava e mulheres que a mesma sociedade fazia questão de desprezar.

Conheci putas.

Travestis.

Garotas de programa.

Mulheres casadas.

Solteiras.

Mulheres que amavam homens.

Mulheres que amavam mulheres.

Mulheres que amavam quem lhes desse vontade de amar.

Vi mulheres fortes serem destruídas.

E vi mulheres consideradas frágeis sustentarem mundos inteiros nas costas.

Por isso talvez me irrite tanto essa facilidade com que algumas pessoas transformam a vítima numa investigação.

O que ela estava fazendo lá?

Por que voltou para ele?

Por que não denunciou?

Por que retirou a denúncia?

Por que não percebeu antes?

Por que ficou?

Por que saiu?

Por que provocou?

Por que bebeu?

Por que estava com aquela roupa?

Por quê?

Por quê?

Por quê?

Enquanto fazemos um interrogatório sobre a vida da mulher, existe um homem que decidiu que podia bater nela.

Existe um homem que decidiu que podia esfaqueá-la.

Existe um homem que decidiu que a liberdade dela dependia da autorização dele.

Esse é o fato.

A casa precisa voltar a ser casa

Não existe política pública capaz de ressuscitar uma mulher.

A polícia pode prender.

O Ministério Público pode denunciar.

A Justiça pode condenar.

Tudo isso é necessário.

Mas, quando chegamos aí, alguma coisa já falhou antes.

Falhamos quando o primeiro tapa foi tratado como briga de casal.

Falhamos quando a ameaça virou coisa de homem nervoso.

Falhamos quando alguém ouviu gritos através de uma parede e decidiu não se meter.

Falhamos quando uma mulher pediu ajuda e ouviu que talvez estivesse exagerando.

Falhamos quando o controle foi confundido com ciúme.

Falhamos quando ciúme foi confundido com amor.

Não.

Ciúme não é prova de amor.

Controle não é cuidado.

Medo não é respeito.

E violência não é um problema privado simplesmente porque acontece dentro de uma casa.

Às sete e meia daquela manhã eu estava diante do computador enquanto, na sala ao lado, a televisão contava mais uma história dessas.

Eu continuei trabalhando.

Mas aquela notícia atravessou a parede.

E ficou comigo.

Porque talvez nós tenhamos complicado demais uma coisa que deveria ser elementar.

Eu não estou pedindo um mundo extraordinário.

Estou pedindo uma coisa banal.

Que uma mulher possa terminar seu expediente.

Que possa atravessar uma rua.

Que possa escolher quem ama.

Que possa deixar de amar.

Que possa dizer não.

Que possa terminar um relacionamento.

Que possa recomeçar.

E que, quando o dia acabar, ela abra a porta de casa e encontre justamente isso:

sua casa.

Não um campo minado.

Não seu agressor.

Não o medo.

Não a possibilidade da morte.

Uma mulher deveria poder chegar em casa, fechar a porta, encostar a cabeça no travesseiro e pensar no que fará amanhã.

Ela jamais deveria precisar agradecer a Deus simplesmente porque sobreviveu a mais um dia.

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Conteúdo produzido com auxílio de ferramentas de inteligência artificial, sob pesquisa, revisão, decisão e responsabilidade editorial de Cláudio Souza. A inteligência artificial auxilia o trabalho; não substitui a leitura crítica, a verificação das fontes nem a experiência humana que orienta o Soropositivo.Org.


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