, Enfermaria dos sertões era habitada por portadores de doenças geradas pela falta de saneamento básico “Por que não se faz um poço, revestido de pedra e coberto, colhendo-se a água por meio duma bomba?” Homens, mulheres e crianças a servir-se de cacimbas abertas no leito de riachos secos – assim como ainda acontece no semi-árido nordestino – estava longe de ser uma visão compreensível para dois cientistas obcecados pelo saneamento. “Não há esgotos, nem se usam fossas para as fezes. Cada qual se exonera ao ar livre, e a depuração é feita pelo sol”. Tudo muito natural naquelas bandas – o povo já estava acostumado e não havia porque mudar: esta era a resposta. Tais relatos seriam indispensáveis à argumentação da luta pró-saneamento rural durante a Primeira República, movimento que via o Brasil como um “imenso hospital”, nas palavras do médico Miguel Pereira, em discurso no ano de 1916.A grande enfermaria dos sertões era um enorme vazio habitado por almas esfarrapadas. Sem doutores, remédios, água, comida, energia elétrica. Sem esperança nem ilusões, um Brasil prostrado, faminto e isolado. “Nessas paragens não se lê; vive-se absolutamente fora do convívio do resto do mundo”, atestavam Neiva e Penna num trecho do diário de viagem. No minúsculo povoado de Peixe, município de Remanso (650 km de Salvador), os médicos tiveram que permanecer um dia inteiro realizando consultas, tal a quantidade de doentes que encontraram. À volta de seres humanos em frangalhos, incontáveis agentes disseminadores de doenças: plantas venenosas, protozoários, vermes, insetos hematófagos, aves, mamíferos e répteis hospedeiros. O espanto começava pela quantidade de moscas domésticas, especialmente nos locais onde se fabricava requeijão. Os dois nunca haviam presenciado nada igual. “Entram pela boca ao falar-se, pousam ou caem aos magotes, na tigela do leite ou da coalhada, de quem se descuida em cobri-las ou não as abana rapidamente. Vimos sacos cheios de coalhada, pendurados em um portal, que estavam negros, cobertos de várias camadas de milhares de moscas as quais, enxotadas, faziam um zumbido dum colossal enxame de abelhas”.Entalo, vexame e mal de ChagasDas cerca de 200 pessoas que procuraram a dupla de cientistas para se consultar no 1º de junho de 1912, dezenas eram vítimas de mal de entalo e vexame do coração, duas manifestações mórbidas largamente espalhadas por toda a região. O entalo, engasgo ou megaesôfago (uma das manifestações da forma digestiva do mal de Chagas, na qual o esôfago perde a capacidade de se contrair e empurrar para baixo o bolo alimentar) não era sequer referenciado na literatura médica brasileira. Além de encontrarem gente com o problema durante todo o percurso, Neiva e Penna presenciaram inúmeras crises de um dos tropeiros que os acompanhava. “Durante mais de três meses pudemos observar um entalado nosso camarada. As crises sobrevinham inesperadamente, em qualquer tempo da refeição, obrigando o camarada a procurar, o mais rapidamente possível, ingerir alguns goles d’água”, descrevem, completando que em alguns episódios mais complicados “o doente punha-se de pé, caminhando rapidamente dum lado para o outro com o busto voltado para traz, ao mesmo tempo em que batia fortemente com os pés no solo”.O igualmente obscuro vexame do coração era, para os desbravadores, uma manifestação nervosa curiosíssima. Foi vista apenas nas zonas flageladas, desaparecendo por completo nas áreas úmidas de Goiás. Tão corriqueiro quanto o engasgo, caracterizava-se por “palpitações, escurecimento da vista e perda dos sentidos, com ausência de contratura, convulsões, suores, gritos ou gemidos”. Típica manifestação da forma cardíaca da doença de Chagas. Em alguns casos, a baixa freqüência dos batimentos do coração talvez fosse por conta do hipotireoidismo. Pela quantidade de enfermidades e grande possibilidade entre os habitantes locais de obtê-las, quiçá as duas opções associadas. Mas Neiva e Penna acreditavam na hipótese de alguma infecção de etiologia ignorada, já que também não encontraram nada sobre a doença nos livros.“Fizemos inúmeros exames de sangue, inoculações deste em preás, sempre com resultados negativos. Também fizemos exames de fezes, onde encontramos os parasitos comuns. Não tivemos, porém, oportunidade de praticar autópsias e colher material para estudos em laboratório. Os nossos exames ressentiam-se de deficiências próprias duma excursão com prazos limitados”, argumentam no relatório.Em terras baianas (além de Juazeiro, ponto de partida), a caravana visitou os municípios de Santa Rita do Rio Preto, Remanso e Riacho de Casa Nova e as então localidades de Formosa, Vaú, São Marcelo, Pedra do Fogo, Veados, Peri-Peri, Pouso Alegre, Caraíbas, Jatobá, Peixe e São José da Canastra, todas no norte e noroeste do estado. Ao longo da rota, que incluiu, alternadamente, a passagem por municípios de Pernambuco, Piauí e Bahia, para depois cortar Goiás de norte a sul, os cientistas se depararam com triatomas (conhecidas como barbeiros, bichos de parede ou chupões) dos tipos brasiliensis, maculata, sordida e megista. “Quase todos os municípios, em todo o trajeto, ofereciam todas as condições para permitir a reprodução das triatomas”, alegaram os comentaristas científicos no relatório.Um avanço para as pesquisas sobre a doença de Chagas (transmitida ao homem pelo protozoário Trypanosoma Cruzi através do ferimento da “picada” por triatomas infectadas) foi a retomada, a partir da excursão, das investigações sobre a potencialidade da Triatoma sordida. Entomologista experimentado, o baiano Arthur Neiva mapeou a área de abrangência da espécie e concluiu, com ineditismo, que ela exercia um papel muito mais importante como transmissor da doença de Chagas do que o suposto até então, sendo o principal agente vetor da tripanossomíase em Goiás, estado brasileiro mais castigado pela doença. Império do bócioA partir do noroeste da Bahia (Remanso, Santa Rita do Rio Preto, Barra do Rio Grande), já na zona de vegetação cerrada, pra lá do Rio São Francisco, os cientistas de Manguinhos mergulharam no verdadeiro império do bócio endêmico. Eram legiões de crianças, jovens, adultos e velhos com considerável alteração de volume do pescoço por doença da glândula tireóide (hipotireoidismo), fruto da deficiência de iodo nos alimentos e na água de regiões afastadas do litoral e portanto, pobres em iodo natural. Essa disfunção da tireóide também originava nas crianças outra manifestação bastante comum no Brasil Central daqueles tempos: o cretinismo, caracterizado pelo retardo mental, físico e a surdo-mudez.Como essa história do iodo ainda estava por ser descoberta, os missionários de Oswaldo Cruz se concentravam na hipótese de uma relação de causa e efeito entre a endemia e a presença dos barbeiros (triatomas). Ou seja, bócio era outra manifestação do mal de Chagas, entendida por Arthur Neiva como algo próprio das populações intermediárias entre a “civilização” e o “primitivismo”. Por isso, todos os papudos, cretinos, paralíticos e anões, encontrados às centenas, eram considerados portadores da doença de Chagas (superestimando, portanto, o diagnóstico da tripanossomíase no relatório), equívoco que só seria desfeito na década de 30.A sífilis e a tuberculose, o “mal de secar”, também bastante disseminadas, para surpresa de Neiva e Penna, apareciam mais proliferadas que a leishmaniose, a bouba e a lepra. E entre as crianças, num interior tão longe de noções básicas de higiene, saneamento e assistência médica (raros foram os clínicos encontrados na rota), a mortandade abria trincheiras cada vez mais profundas através do impaludismo e das infecções intestinais.
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