Amigo Waldir Eu Ainda Vejo Que Ter A Oportunidade de Te servir é um privilégio

 

Quando a primeira borrasca passou, e o ponto demarcador disso na linha do tempo está na data em que resolvi procurar minha antiga gerente, Elisabete Castro, que quase me fez pagar a festa de aniversário dela na SKY/Perepepês, porque eu anunciei o aniversário dela e disse que, por sarro, haveria uma apresentação de “Francisco Petrônio e Grande Orquestra”, o que a deixou bem puta da vida comigo.
Francisco Petrônio, graças a Deus, não foi encontrado e eu escapei desta.

Eu tinha saído da SKY de uma maneira estrondosa, estava apaixonado por uma moça chamada Marina e, num sábado, esqueci de começar o baile e fiquei fazendo “música ambiente” para mim e para a Marina. E, é claro, vieram à cabine de som para retirá-la e eu, impetuoso como era, abandonei a casa no meio do Sábado, que vai de letra capital para agravar o “crime”…

Maldita Seja Aquela hora Em Que Traí Amigos Por Human Garbage Damn Blind

Pois bem, eu vos asseguro que houve outras borrascas, e que eu tenho uma miríade delas para contar para vocês!

Pois bem, a união com Marina durou três anos e não valeu, sob a minha ótica, o abandono do cargo num lugar onde eu era amado e respeitado e, falando francamente, acho que fui um idiota!

Eu pensava assim já no ano 2000 e, hoje, de posse de todo o material informativo que tenho, talvez eu comesse uma feijoada para seis pessoas só para ir até ela e vomitar tudo sobre ela, que não mereceu o gesto.

Felizmente…

Isso me deixou em dúvida sobre procurá-la ou não… mas eu não tinha mais escolha.
A escolha era permanecer na rua… inaceitável, eu morreria…

Eu, que sabia que poderia entrar na casa, a despeito de tudo, pedi para que a chamassem à porta.
Ela veio e me conduziu para dentro. Ela olhou para mim e era evidente, após um tempo em coma e de ter perdido 40 kg, é notório que algo ocorrera e que eu não estava bem, e ela me ofereceu um lanche e, enquanto o lanche era preparado, eu tentava contar para ela o que tinha acontecido comigo.

E mesmo sabendo que ela sempre fora mais que uma gerente e, sim, uma verdadeira amiga, eu sentia vergonha da minha condição de soropositivo e da triste condição em que eu estava.

El DJ! O que fazia centenas, ou mesmo mais de duas mil pessoas, tombara, derrotado, nas redes de seus próprios erros e eu sabia, lúcida, clara e dolorosamente disso, que a causa era minha intempestividade.

Era um bom tempo para perguntas:

Onde está o melhor de sampa?

Onde está o DJ do Vagão Plaza? Talvez perguntasse àquela bailarina…

Onde aquele que abandonou o Kanecão, de Mogi das Cruzes, no meio do baile porque era o tal?

Caberiam outras perguntas, muitas delas…
Onde as apaixonadas?

Onde as amantes?

Onde? Onde? Onde?…

E, em mim, eu temia que seria sempre assim como descrito na codificação, o momento sombrio de um outro desvalido que, outrora, também caíra…
Isso me gerou tal paranoia que eu acreditava que qualquer pessoa que olhava para mim na rua podia perceber que eu “tinha AIDS” e que a qualquer momento alguém gritaria, apontando para mim:

ELE TEM AIDS! AFASTEM-SE DELE, A IRA DE DEUS CAIU SOBRE ELE!...

O MALDITO AIDÉTICO

Enfim, após chorar um pouco, eu me abri com ela, contei o que tinha (…) acontecido e que, como acontecia com todos, eu também fora, não só abandonado por “todos os meus amigos” como também não tinha para onde ir e que não sabia o que fazer e que, novamente, como em tantas outras vezes na vida, começavam-me a faltar as forças morais (para que todos saibam, eu estava, mais uma vez, me aproximando gradativa, paulatina e inexoravelmente das raias da loucura e do suicídio…).

Ela me pediu licença e deu um telefonema.

Cinco, talvez dez minutos depois, eu quero frisar que, após o diagnóstico, o tempo é compreendido por mim de uma forma diferente e o que, para vocês, parece-se com onze horas se apresenta para mim como uma coisa arrastada, grudenta e dilatada de, talvez, décadas…

Mas, voltando, após o telefonema, ela veio até a mim e perguntou se eu conseguiria chegar em até 5 minutos até a rua Major Diogo. Era quase um quilômetro e eu disse que poderia tentar!

Ela me disse que tinha conseguido um lugar para eu morar, este lugar é a Casa de Apoio Brenda Lee que, segundo me disseram, acabou fechando, eu creio, há pouco mais de um ano.

Era um lugar onde a “compaixão” imperava, por conta da administração da casa que tinha, dentre todos, um olhar mais profundo das coisas, o que a fazia muito especial e sensível, e foi ela que, usando de seus recursos intelectuais e sua ginga como assistente social, conseguiu que o dono de uma ótica aviasse um par de óculos, pois minha visão deteriorara-se.

A casa de apoio oferecia seis refeições por dia, roupa lavada, televisão a cabo!…

Era um lugar excelente para quem estivesse determinado a ficar, como muito bem definiu Raul Seixas ali, sentado, com a boca aberta, escancarara, cheia de dentes, esperando a morte chegar!

Mas não para mim, embora não houvesse tratamento e sequer esperança, eu não queria ficar entre pessoas ensandecidas, tendo que dormir como um cão, com um ouvido sempre atento, pois havia sempre um risco de “algo acontecer”.

E eu aprendi isso no segundo ou terceiro dia em que estava lá e se esqueceram de levar o almoço de uma pessoa que já não podia andar. E eu fui, nem sei por que eu fui, pois, até o diagnóstico, eu não era capaz de nenhuma gentileza, exceto quando se tratava de “conquistar uma moça”, para esquecê-la um dia depois da “Minha Vitória!” ” .
Isso já era efeito do HIV, que me mostrava el todas as pessoas o tal do “Efeito Orloff”:

“Eu sou você amanhã”

Neste dia eu vi algo. Quando a travesti que era a cozinheira da casa, uma transexual negra, com as marcas do tempo e da AIDS me entregou o prato e outra travesti me perguntou para quem seria o prato.

Eu devia ter dito que era para mim, mas malditamente eu disse o nome da pessoa que ia ingerir aquela comida e eu vi a travesti, portadora de Tuberculose Ativa, escarrar catarro na comida da pessoa, e me disse:

Se caguetar, te mato dormindo! Eu levei o prato e o servi… (que Deus me perdoe).

Ela era um clássico exemplo do que ocorria naquela Casa de Apoio e, não sei se vive, e, se não vive, desejo muito que esteja no Inferno. Segundo o primeiro infectologista que me atendeu, a Casa de Apoio Brenda Lee era um “foco” de Tuberculose” e, por isso, ele entrou com o tratamento da Tuberculose e isso me angustiou ainda mais. E foi por este mesmo motivo que me foi prescrito, a título de quimioprofilaxia, por ele que me prescreveu o tratamento da TB e, também, como era, já não sei mais, que ele me prescreveu um antibiótico, na minha época era Bactrim 500mg por dia, numa rotina medicamentosa chamada quimioprofilaxia, que consiste em tomar, para criar, digamos, no organismo, um ambiente “quimicamente hostil” e impedir que determinadas infecções ou afecções (um distúrbio das funções de um órgão, da psique ou do organismo na totalidade que está associado a sinais e sintomas específicos).

O AZT eu me recusei a tomar, pois, em tese, ele daria mais dois anos de sobrevivência, numa dose desesperadora de seis comprimidos a cada quatro horas, isso implicava em duas interrupções do sono toda noite e seis sessões de vômitos diárias…

Aí apareceu a oportunidade de ouro (relendo isso agora, em 2025, eu me assusto com esta expressão! Eu ainda estava ensandecido quando escrevi isso e nem percebia. E por isso tanta coisa, agora eu vejo, deu no que deu…).

Um novo paciente chegara à casa de apoio. Extremamente debilitado, ele precisava ser levado ao hospital todos os dias e precisava ser acompanhado. Vieram a mim e disseram (foi a assistente social, Rosa Maria):

Você, que eu vejo claramente não estar feliz aqui, pode aproveitar esta oportunidade… e me explicou o que tinha de ser feito.
E eu disse que sim.
Afinal, era uma oportunidade de ser útil e uma possibilidade a mais de sair, ver o mundo, pessoas, clarear meus pensamentos.

Era uma rotina relativamente simples: de manhã, eu lhe dava um banho, limpava suas escaras (tive de aprender muito sobre a fragilidade humana e reconhecer que poderia ser eu no lugar dele, algum dia…), fazia os curativos conforme me ensinara a enfermeira e o encaminhava, passo após passo, para a ambulância, conhecida como “papa tudo”, uma ironia sem limites…

Chegando ao hospital, colocava-o numa cadeira de rodas e levava-o ao terceiro andar, onde era colocado num leito e recebia medicação endovenosa. Ficava lá, assim, o dia inteiro.

Eu não sabia o que ele tinha, mas era algo terrível, pois ele mal se sustentava sobre suas pernas.

Precisa de apoio para ir ao banheiro, para comer, para tudo… Até um copo com água ele não era capaz de segurar. Mesmo assim, encontrei tempo para conhecer os outros pacientes daquele andar e fui, dentro do possível, fazendo amizades, conhecendo aquelas pessoas, suas histórias, fazendo delas, minha família.

Ganhei até mesmo a confiança dos médicos e dos enfermeiros que passaram a ver em mim um ajudante, alguém a mais para colaborar. Eu não sei, aqui em 2018, como eles puderam se arriscar tanto com um leigo, tão louco…

Buscava cadeira de rodas, empurrava macas, fazia tudo aquilo que poderia para ajudar.

Trazia água para um paciente, alertava enfermeiras sobre o soro que acabara, a veia que se perdera, aprendi muito sobre a rotina de um hospital e devo isso a cada uma das pessoas que tive o privilégio de servir.

Neste meio tempo, o Waldir foi piorando a cada dia. Mas não me lembro de ter visto ou ouvido uma única reclamação, uma única lágrima de dor, nada. Uma dignidade inominável, uma coragem, para mim, completamente desconhecida.

Após tanto trabalho com o Waldir, ganhei um fim de semana como presente.

Pude rever algumas pessoas a quem eu ainda amo (hoje, em 2081, eu não sei mais), assumindo o compromisso de voltar na segunda-feira.

Confesso que foi um alívio.

Estava cansado de ver dor, sofrimento, angústia e me sentir impotente. Foi um fim de semana em que eu deveria ter relaxado.
Mas não consegui. Pensava no Waldir a todo momento.

Será que o estão alimentando?
Será que deram banho nele?
Será que ele está bem cuidado?
Será que ele julga que eu o abandonei?
Será?
Será?
Será?…

Era um mar de perguntas e, na segunda-feira, desabei na casa de apoio, procurando por ele.

Um sorriso cínico proveniente de outro paciente e a notificação:

“Waldir está nas últimas. Nós até já repartimos as coisas deles. Aqui é assim…”.

Disparei para o hospital, quarto andar, entrei praticamente à força. Queria vê-lo, dizer algumas palavras, dar-lhe um abraço, pedir perdão por algum erro que tivesse cometido… um aperto de mão, qualquer coisa que pudesse selar nossa amizade no momento de sua partida
.
O quadro que vi era aterrador e compreendi imediatamente o porquê de tentarem me impedir de vê-lo.

Waldir já não reconhecia nada, não me via.

Olhava em volta de si, vendo outras pessoas, outras coisas…

Dentro do novo contexto que se aproximava dele, eu nada significava… Eu ficara paratrás, eu senti e me condenei em rito sumaríssimo pelo abandono:

Culpado!

Saí do quarto em silêncio, olhos úmidos, coração endurecido, magoado comigo mesmo e com a vida.

Eu ambicionava elevá-lo a um patamar melhor, no qual pudesse desfrutar mais e melhor o dom da vida. Considerava que a minha “folga” o matara. Tinha certeza disso ali, naquele tétrico momento…

Sentei-me na sala de espera e aguardei a notificação. Passaram-se mais de 19 horas antes que aquilo acabasse e ele pudesse, finalmente, repousar.

Liguei para a administração da casa de apoio que me pediu que cuidasse (sic) do funeral.
Nunca tinha eu lidado com a morte tão de perto. Papéis, documentos, atestados, autópsias.
Tuberculose miliar (disseminada por todo o corpo), segundo me explicaram. Isso matou o Waldir.
Após três dias, o corpo dele foi liberado, num caixão de papelão, pintado de preto, frágil como a própria vida, daqueles bem baratos, e fomos nós, o motorista, o Waldir e eu, em direção à Vila Formosa, onde ele seria deixado.

Lembro-me de que a expressão do rosto dele era de serenidade, pois o vi bem, antes de fechar o caixão…

Não havia quem me ajudasse a carregar o caixão até o túmulo.

O motorista se recusou. Idem, idem os coveiros…

Depois de muito implorar, consegui que três pessoas, que participavam de outro funeral, me auxiliassem neste, que era meu último serviço prestado ao Waldir.

Não pude, porque não tinha um tostão, plantar uma flor naquele túmulo, que nem sei onde fica… O Cemitério da Vila Formosa é o maior da cidade, da América do Sul. Não sabia como anotar, como registrar, como nada. Até ali eu era virgem para a morte…

Eu me recordo de ainda ter ficado uns dias na casa de apoio.

Fui a um hospital no Glicério e a assistente social de lá me disse que não podia arrumar um lugar para eu ficar, porque eu já tinha onde ficar.

Eu agradeci. E era uma sexta-feira. Estava decidido e sabia o que ia fazer. Naquela sexta feira eu saí da casa de apoio.

Eu ainda tentei uma coisa, um movimento tátito de pedido de socorro, pedindo a pessoas amadas que guardassem minhas coisas com eles.

Ipso facto, eles as guardaram…

Na segunda-feira ela, a assistente social do hospital no Glicério, me encontrou dormindo sobre papélões e me perguntou o que tinha acontecido.

Eu disse: “Do que importa? Agora eu não tenho onde ficar e você não só pode, como tem o dever de me conseguir uma vaga em outra casa de apoio”.

Na outra casa de apoio, assunto para outro capítulo, eu me lembro de ter sonhado com algo.

Eu, acredito, estava num campo, mata rasteira a se perder de vista e um Grande Silêncio.

No sonho, eu não tinha medo, estava pacificado, de forma rigorosamente inexplicável para meu temperamento daqueles dias….

Era dia claro, o sol me aquecia e eu vi um homem negro (Waldir era negro), e eu olhava para ele, sabia que aquela feição me era conhecida e eu fiquei muito tempo olhando para ele sem reconhecê-lo, me perguntando quem seria aquela pessoa tão estranha e tão familiar (relendo isso antes de republicá-lo, aqui, na antiga Chácara do Encosto, num dia de fevereiro, no final da década de 20 do século XXI, eu ainda consigo, não sei se na tela da memória ou se na tela da retina, vê-lo!!!!

Até que ele sorriu e disse:
-Cláudio, sou eu, o Waldir! Nós o trouxemos até aqui para você saber que não foi sua culpa a minha passagem. Eu estou bem, e pensar que você, um branco, completamente desconhecido (eu não sei se sou branco), que me ajudou nas horas e dias mais difíceis.

Saiba que eu estou bem e, creia, você nunca mais estará ao desamparo, porque sempre haverá um de nós perto de você. Dito isso, ele sorriu, fez um sinal de até mais, virou-se e saiu, correndo, numa velocidade imensa, e eu senti aquilo que eu acho que muita gente sentiu pelo menos uma vez na vida:

Estar sendo trazido de volta à uma velocidade até mesmo assustadora e acordei, chorando… como choro agora, ao escrever isso… E CHORO NOVAMENTE AQUI, no Século XXI…

Sempre que adoeço, penso nele e me pergunto se já teria chegado a minha vez e, embora durante um bom tempo eu sempre concluíra que sim, vinha Deus… e dizia que não.
Até quando?… Perguntava eu.

Deixei de pensar nisso há um bom tempo.


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Claudio Souza DJ, Bloqueiro e Escritor
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