Acordar não é simples.
Não é só abrir os olhos — é lembrar que o corpo precisa funcionar.
E pra isso, eu tomo três antirretrovirais logo cedo. Não é café da manhã. É manutenção.
Às 11 horas, oito comprimidos de antidepressivos. Não é exagero. É o que me impede de afundar.
Depois do almoço, Combodart e atorvastatina. Um pra próstata, outro pro colesterol.
O corpo virou planilha. Cada órgão tem sua célula.
Às 16h30, 20 mg de metadona.
Pra dor, pra dependência, pra tentar manter o eixo.
A cada oito horas, quinze gotas de canabidiol. Não é cura, mas é trégua.
Antes de dormir, três comprimidos de Rivotril, um de citalopram, 25 mg, um comprimido e meio de Neozine — 150 mg.
Tudo isso pra tentar dormir. Mas o sono não vem fácil.
Às quatro da manhã, acordo e tomo mais três Rivotril.
Pra tentar dormir mais três horas.
E É isso.
Minha rotina é essa.
Mais de 30 comprimidos por dia.
Cada um com uma função, cada um com um efeito colateral, cada um com uma história.
Viver com HIV há 31 anos me ensinou que o corpo vira campo de batalha.
Mas também me ensinou que cada comprimido é uma trincheira.
Cada dose é uma chance de continuar.
Não escrevo isso pra causar pena, mas para causar conciência. Use a porra da camisinha!
Escrevo porque ninguém deveria passar por isso sozinho. Porque há uma falta absurda de empatia, de cuidado, de escuta.
E porque, mesmo com a saúde arruinada, eu ainda tenho voz. E enquanto eu tiver voz, vou usá-la.
Sobreviver dá trabalho.
Mas eu sigo.
Porque desistir não é uma opção.
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