
Me entreguei após olhares cruzados, toques trocados, e beijos doados. Me entreguei ao ponto de sentir a explosão e o êxtase. Me entreguei até o gozo do prazer me desvanecer ao relaxamento dos músculos, e o descanso do espírito. Experiência excitante e deliciosa não é mesmo? Pois é!
Mas nunca pensei que esse prazer pudesse ser a sentença, o castigo por um simples descuido pessoal. Na realidade, descoberta feita por um simples exame médico. Exame esse indolor e feito não por dores físicas ou doença manifestada, mas feito por curiosidades em saber meu estado clínico de saúde. O Juiz em minha frente sentado todo de branco (médico) leu e olhou em meus olhos dando o veredito:
– ”Você é a partir deste resultado do exame…soropositivo!!”
O mundo parou, o som sumiu, o chão se abriu e o impacto em mim foi tão forte que ao mesmo tempo me entorpecida como anestésico sentimento sem explicação.
Cela?
Sim, teve a cela chamada solitária.
Solitária a dor.
Solitária a caminhada de um tempo sem relatar, sem desabafar, sem confidenciar essa tão horrível notícia recebida. Os filmes passando em pensamentos dos momentos gerais da minha vida em poucos segundos, pois o Juiz voltava a sentenciar a minha prisão perpétua.
A solitária que eu mesmo me sentenciei em afastar-me de pessoas, de amigos, de família, de espelhos.
Sim espelhos, pois eu havia tomado um nojo próprio, onde eu sentia que a minha alma estava eternamente contaminada. Dias e meses se passavam, até que eu enfrentei o pior inimigo. Eu mesmo! O inimigo íntimo que faz ter o mais dolorido e preconceituoso dos sentimentos por si próprio. Coloquei na mente e no coração que eu iria ser um prisioneiro feliz, onde eu permitiria o amor próprio retornar para meu EU, de onde eu havia o expulsado.
Saber que o culpado de tudo que aconteceu, era somente eu, o próprio vilão me enfurecia.
Saber que eu me permiti denegrir, contaminar um templo chamado corpo que Deus me deu perfeito…e eu o profanei de uma certa forma.
Por que eu me culpava por tudo?
Por que não culpar o parceiro?
Uma resposta óbvia e simples, mas difícil de enxergar nos primeiros momentos. Nunca fui estuprado, nunca fui obrigado a manter relações sexuais, nunca me impuseram ou ordenaram que o meu sexo deveria ser sem preservativo, nunca apontaram um revólver para minha cabeça dizendo que seria sem e ponto.
Eu me permiti, eu autorizei, eu deixei…EU QUIS!
Saber aceitar sua falha e não querer imputa-la ao parceiro, é a chave que destrava a sua prisão, a cela em que eu mesmo havia me trancado.
A solitária!
A vida é simples de se viver, é saudável continuar e é caridosa com quem se respeita e se cuida pós-soltura, pós-livramento e autoaceitação. Dar se o valor, dar valor a vida própria, a vida lá fora e a vida de todos ao redor, torna se o livramento perpétuo onde você consegue se perdoar. Viver simples e intenso, é o que precisava para eu ser feliz comigo mesmo e pronto para encarar a realidade.
A realidade é: Posso ser feliz, saudável e ter uma relação totalmente normal com um parceiro. Sendo ele soropositivo ou não. Somos normais, somos capazes e somos seres humanos como qualquer outro. Nem mais, nem menos que outro!
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