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Sessenta mil crianças vagam pelas ruas de Adis-Abeba, na Etiópia

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22/JUNHO/07

 

21/06 – 10:16 – EFE

 

Pedro González Lasuén Adis-Abeba, 21 jun (EFE).- Yodete é um adolescente etíope que, junto de milhares de outros jovens, tem de vagar pelas ruas de Adis-Abeba, na Etiópia, pedindo dinheiro sob a vigilância dos traficantes de crianças que os transformam em mendigos.

O jovem é manco. A lesão, com o tempo, é a única fonte de sustento do adolescente. “Em um bom dia posso ganhar até dez birrs (€ 1), e eu fico com trinta centavos”, afirma Yodete à agência Efe.

O caso deste adolescente atinge 60 mil menores que mendigam nas ruas de Adis-Abeba, segundo fontes oficiais, apesar de outros cálculos indicarem que este número pode chegar a 100 mil.

A quantidade de crianças de rua dobrou nos últimos dez anos na cidade. A maioria é órfã, procede de áreas rurais e veio a Adis-Abeba na busca de uma vida melhor, muitos deles pensando que esta cidade seria sinônimo de trabalho e prosperidade.

Outros, no entanto, foram vendidos por famílias incapazes de manter seus filhos, além de milhares terem sido seqüestrados por uma máfia organizada que obriga crianças a mendigarem e a repartir o dinheiro obtido.

Yodete, por exemplo, é um adolescente sem-teto que vive há nove anos em Adis-Abeba. Os mafiosos quebraram sua perna para atrair turistas e ganhar mais dinheiro.

“Me bateram várias vezes com um pau. Desde então manco porque não me deixam ir ao médico”, afirma.

O jovem não revela os nomes de torturadores por razões óbvias.

“Poderiam me matar”, acrescenta.

O problema dos sem-teto se agrava a cada dia. Trata-se de um mundo subterrâneo que possui regras próprias e onde apenas os mais fortes ou afortunados sobrevivem.

A violência da rua, os seqüestros, as surras, a prostituição e a droga são moedas de troca diárias e exibem a faceta mais obscura da capital da Etiópia, visível para os turistas, mas aparentemente invisível para as autoridades.

A ONG Fórum pelos Meninos de Rua (FSCE), criada em 1989, é a única que ajuda os jovens desamparados.

O elevado número de crianças de rua e a escassez de fundos obrigaram os membros do FSCE a refletir, até que encontraram uma fórmula para alimentar as crianças e afastá-los da droga.

“Decidimos vender aos turistas bônus que dão acesso a uma comida quente gratuita. Desta maneira e por apenas dez birrs, o turista sabe que seu dinheiro não será investido em droga”, disse Solomon Sima, funcionário da ONG.

A droga é a válvula de escape das crianças de sua miserável existência. Mastigar “khat” (um entorpecente muito popular na Etiópia) após doze horas de mendicância tornou-se um fato corriqueiro.

Com o vale-refeição o turista ajuda diretamente a luta contra o consumo de um entorpecente legal na Etiópia e contribui para oferecer comida com a garantia de que seu dinheiro será empregado corretamente.

No entanto, a ausência de soluções por parte do Governo obriga esta ONG a lutar contra uma epidemia de proporções gigantescas, sem solução a curto prazo.

Com o tempo, os adolescentes se transformam em adultos e precisam encontrar trabalho para se afastarem da marginalidade.

Quatro rapazes com idades entre 17 e 21 anos tentaram fugir da situação hostil, mas pagam um preço altíssimo: vivem em um esgoto da cidade.

O buraco que serve de moradia mede apenas dois metros quadrados.

Às cinco da manhã saem do esgoto, trabalham recolhendo lixo das ruas e só voltam no final da tarde. Uma rotina pela qual recebem € 5 por mês.

Ao final da jornada de trabalho, os quatro compram “khat” e mastigam durante toda a noite.

Temesgel tem 18 anos e é o único deles que conhece algumas palavras em inglês: “Sinto vergonha de viver assim. As pessoas cospem em mim, urinam no lugar onde durmo e me insultam. Não posso retornar para a meu povoado porque seria um desonra. Não sei o que fazer”.

O jovem é órfão. Seus pais morreram, vítimas da aids, e o restante de sua família está convencido de que viajou para o exterior e voltará algum dia com dinheiro suficiente para manter todo o povoado.

O discurso de seu colega Ibrahim não é muito diferente: “Também sou órfão. Ia à escola na cidade de Harar. Um professor me disse que devia abandonar meus estudos e me converter em pastor. Segui seu conselho e me vim para aqui com a esperança de trabalhar. Não estou satisfeito, mas pelo menos tenho trabalho”.

Os quatro sofrem diariamente o desprezo da elite etíope e a violência dos mendigos que dormem nas calçadas e não têm emprego.

A Polícia também se contagia pelo estigma. “Cada vez que um roubo acontece, a Polícia vem nos ver. Mais de uma vez dormimos na delegacia. Pelo menos não passamos frio”, ironiza Temesgel.

Na hora de escolher entre comida e droga, não há dúvida. “A comida é boa, um ou dois dias por semana. Mas a droga nos permite fugir de nossa realidade e sonhar com uma vida melhor, uma vida de branco”, conclui Ibrahim, antes de fechar o pára-brisa que usam como porta de entrada de seu esgoto.

 

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