O GLOBO-RJ |
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SAÚDE |
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06/SETEMBRO/09 |
Com verbas estrangeiras e especialistas moçambicanos, o tratamento avança no país
Roberta Jansen* Enviada especial
MAPUTO, Moçambique. Kátia Buene, de 20 anos, tem um enorme sorriso estampado no rosto.
Ela brinca com o filho, Wikison, de 1 ano, enquanto espera o atendimento de rotina pediatria do Hospital Central de Maputo.
Kátia é SOROPOSITIVA, mas a maternidade foi planejada. Graças ao tratamento feito, seu filho nasceu sem o vírus.
- Pensar positivamente, é o remédio para todos os problemas – ensina ela. – Se eu não pensasse assim, não estaria viva, nem teria tido o meu filho. Eu tomei todos os cuidados possíveis e sei que ele está bem. Venho aqui a cada três meses apenas para fazer o acompanhamento dele.
Referência no tratamento de AIDS no país, o Hospital Central é apoiado pelas agências da ONU Unicef e Unitaid.
Praticamente todo o atendimento para a doença oferecido em Moçambique é feito por agências internacionais e ONGs ou a partir de financiamento externo. Do teste diagnóstico aos mais novos medicamentos, passando pelo tradicional coquetel e eventuais internações, tudo é bancado por verba estrangeira.
- As ONGs são as grandes implementadoras do programa de AIDS hoje em Moçambique – explica Luiz Gibier de Souza, coordenador de HIV e Saúde da Care, uma ONG americana.
- O governo definiu as políticas, mas quem faz a implementação são as ONGs. São pelo menos umas 40 trabalhando aqui, uma grande indústria geradora de fundos, empregos e serviços.
País é um dos mais pobres
Não chega a ser uma surpresa já que se trata de um dos países mais pobres do mundo.
Das 177 nações listadas pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Moçambique se encontra na posição de número 172. A fome, a pobreza e a falta de saneamento estão entre os cinco maiores problemas do país segundo o próprio governo. Os demais são AIDS e corrupção. De acordo com as agências internacionais, de 50% a 60% de todo o orçamento da saúde do país é proveniente de doações.
Ainda assim, das 500 mil pessoas que precisariam hoje receber o coquetel, aproximadamente 150 mil estão em tratamento – entre elas Katia. O número é baixo, mas vem aumentando consideravelmente desde 2004, quando apenas 6 mil pessoas recebiam os remédios.
- Se não fosse o medicamento, eu já teria passado por este mundo há muito tempo – atesta Amina Abacar Mussawe, de 39 anos. – Desde que comecei a tomar o remédio, nunca mais tive nada, estou de pé e dando força a todos.
Atualmente Amina presta serviços para o Hospital Geral de Chamanculo, rastreando pessoas que abandonaram o tratamento. O hospital, num bairro pobre da capital, é apoiado por Médicos sem Fronteiras (MSF) e Unitaid. A agência da ONU banca o financiamento de tratamentos de segunda linha (aqueles mais caros, indicados em caso de resistência) e formulações pediátricas para AIDS e também para malária e tuberculose.
- São áreas não cobertas por outras agências – explica o secretário-executivo do Unitaid, Jorge Bermudez. – Buscamos também estabilizar o mercado para esses produtos, criando demandas, fazendo os preços baixarem ou incentivando os genéricos.
São mais de dez mil crianças recebendo antiretrovirais em Moçambique, todas pela Unitaid.
Entre elas, Michel, de 3 anos. Com um vestido de cetim branco cheio de laços de tule e tranças afro nos cabelos, ela é a grande sensação na fila de atendimento de Chamanculo.
- É a minha pequenininha – conta Hermínia, a mãe, toda orgulhosa dos olhares de admiração dispensados à filha.
- Agora ela está bem, come muito, vai à escola, então eu estou feliz. Mas quando soube, meu mundo acabou. Porque eu me testei duas vezes durante a gravidez e deu negativo.
Então, eu não fiz o tratamento e ela nasceu com o vírus.
Me sinto culpada
Formação de mão de obra
O trabalho de todas as fundações e ONGs é coordenado pelo governo. E a maior parte dos profissionais envolvidos no atendimento e no tratamento é moçambicana. E há ONGs que atuam justamente na formação dos profissionais locais, caso da Care. Além de apoiar o tratamento em si e a prevenção da infecção de mãe para filho, a ONG reabilita unidades de saúde, fornece material e equipamento hospitalar e financia o treinamento de médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório e farmácia.
- Nós (as ONGs) suprimos as lacunas do sistema – resume Gibier. – O Estado é muito deficitário, a formação de mão-deobra é muito fraca. De maneira geral, acho que as ONGs cumprem razoavelmente as suas metas. Mas não adianta estarmos à frente do Estado. Não adianta, por exemplo, comprarmos um equipamento médico de última geração para um hospital onde falta luz.
(*) Roberta Jansen e Marizilda Cruppe viajaram a Moçambique a convite da Unitaid
Um passo adiante na prevenção da doença
A descoberta de partículas do sistema de defesa do organismo capazes de atacar o vírus HIV abre caminho para o avanço no desenvolvimento de vacinas contra a AIDS. O estudo foi publicado na última edição da “Science” por especialistas do Instituto de Pesquisa Scripps, na Califórnia.
Os cientistas usaram uma nova tecnologia para rastrear amostras de sangue de 1.800 pessoas infectadas e identificar dois anticorpos capazes de neutralizar o vírus – algo até então inédito. Eles identificaram também a parte do vírus que é atacada por estes anticorpos, oferecendo um novo alvo para o desenvolvimento de uma potencial vacina.
- Podemos ter uma chance melhor de produzir uma vacina capaz de estimular a resposta desses anticorpos neutralizantes, o que consideramos fundamental para o desenvolvimento de um imunizante eficaz – afirmou Dennis Burton, coordenador do estudo.
Wayne Koff, da Iniciativa Internacional de Vacina contra a AIDS, também se mostrou esperançoso com as novas descobertas: – Agora temos um novo, e potencialmente melhor, alvo no qual concentrar nossos esforços de desenvolvimento de uma nova vacina.
Desde que a epidemia de AIDS teve início, nos anos 80, mais de 25 milhões de pessoas já morreram em todo o mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, atualmente, 33 milhões de pessoas sejam portadoras do HIV, 70% delas na África.
Não há cura para a doença, embora o coquetel de drogas tenha se mostrado eficaz em manter o vírus sob controle. Todos os esforços feitos até hoje para o desenvolvimento de uma vacina fracassaram. Além de o vírus ser extremamente mutante (o que dificulta o seu reconhecimento pelo sistema imunológico), ele ataca as próprias células de defesa que deveriam proteger o organismo.
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