Brenda é o nome que uma moça de uma boate chamada Scorpions se utilizava. Eu digo se utilizava porque esse não era o nome dela, e ela me disse que tinha um nome muito feio, por tamanha vergonha, ela usava Brenda como nome.
Falei, — Ninguém sabe seu nome?
Ela falou, — Ninguém sabe meu nome, porque ele é muito feio.
Pois bem, isso diz muito sobre Brenda. Um dia, eu estava trabalhando na Scorpions, isso foi um dia lindo, mesmo com diagnóstico positivo para o HIV, porque eu ainda conseguira um emprego como DJ lá em Guarulhos, numa casa que era um verdadeiro prostíbulo, mas eu precisava muito trabalhar para comer e não estava em posição de escolher. Há momentos em que pegamos a ética e a mandamos para o caralho porque ela não enche barriga nem paga o aluguel…
Pois bem, durante meses eu me mantive distante das mulheres, porque eu sabia que eu tinha que contar que era portador de HIV, que eu não era capaz de prever a reação da pessoa para quem eu contasse que eu sou portador de HIV.
A pessoa podia guardar o segredo, ou poderia sair gritando à rosa dos ventos que eu tenho HIV, e isso significaria que eu perderia o emprego. Então, eu me mantive abstêmio de sexo.
Até que um dia, uma tarde, na verdade, eu estava na cabine de som, que era no balcão do bar no canto, quando Brenda entrou no salão, eu fui até perto dela e falei, — Vem aqui, por favor?
Ela veio e falei, — Me dá um beijo, e ela respondeu, — Claro, e me lascou um beijo na boca.
Um beijo, eu diria, delicioso, molhado, quente, e fazia tanto tempo que eu não tocava uma mulher, aquilo foi de enlouquecer.
Mas foi rápido, porque nós sabíamos que podíamos ser pegos e eu perderia o emprego se isso acontecesse.
As horas se passaram e à noite ela perguntou para mim se eu gostaria de ir até a casa dela. Eu falei, — Tudo bem, nós vamos, onde é?
Ela disse, — Campinas.
— Puxa vida! Você vem trabalhar aqui em Guarulhos?
Ela falou, — É, quanto mais longe de casa, melhor.
Respondi, — Você tem razão.
Pegamos o ônibus, o Cometão, e ela veio atracada a mim como se fosse minha namorada apaixonada, apaixonada e apaixonada.
Cheguei e, vejam, sonoplastia, discotecagem, é um trabalho bastante cansativo quando você leva a sério.
Trabalhar com discos, não parar cinco minutos, não ter uma pausa nem para tomar um café, nem nada, é bastante complicado e quando cheguei na casa dela eu caí exausto e dormi.
Ela me acordou mais ou menos uma hora, uma hora e meia depois, com a mesa posta com tudo, com todo tipo de frios, pão, frutas, café, leite, suco, eu pensei, — Puxa vida, essa moça realmente quer me impressionar.
Tomei tudo e nós começamos ali um solilóquio amoroso. Ela fez sexo oral em mim e isso foi tudo no calor do momento. Depois eu comecei a falar, — Brenda, eu preciso falar com você.
Ela falou, — Você é casado.
Falei, — Não, não, não é isso, é mais sério do que isso. Se eu fosse casado e ela estivesse aqui, eu não precisaria falar nem para ela, nem para você.
— Esse é um de menos, é que tem um problema.
— Que problema?
E eu não conseguia dizer qual era o problema. Então eu fui colocando ideias na cabeça dela até que ela olhou para mim, e falou,
— Você está querendo dizer para mim que você tem AIDS?
— É, essa é a verdade. E expliquei para ela que eu tinha um computador em casa e que eu pretendia comprar uma impressora para implementar várias escolas, currículos, essas coisas, para fazer algum dinheiro e não ter que trabalhar mais na noite naquela casa, naquele esquema e que eu não tinha contado para ninguém que eu era portador de HIV.
Ela disse, e eu destaco, o seguinte:
— Agora eu gosto ainda mais de você, porque você poderia fazer qualquer coisa comigo e eu jamais te pediria o uso da camisinha!
Eu tinha, mas eu compartimentalizava essas coisas, porque se eu digo que fulana também sabe, eu dou para a pessoa a liberdade de contar para todo mundo, porque ela vai dizer, — Foi fulana.
E a fulana vai dizer, — Não, foi cicrana.
Então eu compartimentalizava para evitar esse tipo de fofoca e esse naipe de argumento.
E numa segunda-feira, depois da gente voltar, uma moça trouxe uma impressora para mim.
Brenda havia dado uma impressora para mim.
Ela falou que ia me ajudar e realmente deu uma impressora para mim. E essa moça trouxe uma impressora para mim também. Brenda perguntou o que era aquilo e a moça falou, — É para o Cláudio, porque ele está precisando, não sei o quê. Inventou uma história lá.
Brenda veio marchando até a cabine do som e falou:
— Você mentiu para mim, você me paga.
Já pensei, — Meu Deus.
E durante a semana tudo transcorreu normalmente, como se nada tivesse acontecido, até que no sábado ela me levou para a casa dela novamente e disse que estava tudo acabado entre nós.
— Mas por quê?
Ela falou, — Porque você mentiu para mim sobre ninguém sabendo que você tinha HIV.
— Não menti para você, eu só contei uma história. Entendeu? Porque eu temia justamente isso que está acontecendo agora.
Esse tipo de trelelê, trelalá. Esse bate-boca sem sentido.
— É, mas eu não suporto mentira.
— Brenda, você usa um nome falso, uma carteira de identidade falsa. Quem é você para detestar mentira? Você não tem esse direito, você vive uma mentira. Você vive uma vida dupla. Aqui você é dona de casa respeitada, em Guarulhos você é puta. Como é isso de você não suportar mentira?
Bom, não teve jeito. Brenda terminou comigo e eu ia saindo da casa dela, caminhando, às onze e meia da noite, em Campinas, sem nem saber onde estava quando ela disse, — Cuidado, você não sabe onde você está. Deixa que amanhã eu te ponho no táxi e você vai para casa.
— Eu não quero que aconteça nada de mal para você e que depois venham falar de mim.
A boa e velha opinião pública, a solda que Machado de Assis definiu tão bem em Quincas Borba…
O risco de eu me perder era grande, é verdade. E assim eu preferi esperar e Brenda ainda abusou de mim.
Deitou-se sobre mim, me deu um beijo na boca, prolongado e profundo. E eu pensei, — Bom, talvez as coisas tenham voltado ao normal.
Aí ela retirou seu corpo de cima de mim e não permitiu mais que eu tocasse nela.
— Que idiota eu sou!
Assim terminou o meu breve romance com Brenda.
Entretanto, acho que, na verdade, ela terminou comigo por não suportar a ideia, a pressão de viver, conviver, se relacionar com uma pessoa vivendo com HIV.
Me lembro que às vezes ela tremia e era medo na hora da penetração e eu tomava todos os cuidados possíveis para aquela época, mas ela tinha medo.
E assim, esse deve ter sido também um dos fatores que a levou a terminar comigo. Fiquei muito triste, muito triste e foi então que Suzana entrou em minha vida. Mas essa é uma história que eu prefiro não contar.
E eu penso nos atrasos em minha vida. A lei da palmada chegou tão tarde para mim que passei cinco anos, quase seis, vivendo nas ruas. Eu morei andando por quase seis anos e foi necessária uma tomada de decisão, o suicídio, para Deus mudar as coisas para mim.
E, se ao menos soubéssemos então, o que sabemos agora, sobre I=I, “indetectável é igual a intransmissível”, muita dor seria poupada não só a mim, mas a milhões de pessoas. Mas é assim que caminha a humanidade — a passos de formiga e de má vontade.
C’est la vie!
C’est ma vie!
Allons-y
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