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Desculpas, por Josi Paz

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Agência de Notícias da Aids

Editoria:

Pág.

Dia / Mês/Ano:

 

 

29/NOVEMBRO/07

 

 

Josi Paz

Embora eu tenha uma fala mais ou menos preparada (daquelas que a gente ensaia para dizer em palestra), a verdade é que não sei explicar muito bem o que me tocou, de fato, para que o tema da Aids virasse meu objeto de pesquisa. Primeiro, na monografia de graduação, estudei as campanhas do Governo Federal que tinham o objetivo de prevenir a Aids entre as mulheres. Depois, no Mestrado, abri mais o foco, estudei não só as campanhas, mas também entrevistei publicitários, funcionários públicos e voluntários de ONGs. Fui até voluntária no Gapa/ DF, por um tempo. Na convivência com soropositivos e trabalhando no Disque-Aids, vi e ouvi de perto muitas histórias de vida absolutamente transformadas pelo advento da Aids.

Em agosto de 2000, acabei a pesquisa e obtive o título de Mestre com a dissertação “Aids anunciada”, pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da UnB. Embora não pesquise mais o assunto, passei boa parte deste ano de 2007 envolvida com o tópico Aids, de novo. Tudo por que a versão em livro da dissertação está sendo lançada pela Editora Universidade de Brasília. A transformação da dissertação em livro exigiu um grande esforço de revisão e atualização do texto, que recebeu um apêndice sobre as campanhas veiculadas pelo Ministério da Saúde até 2005. O título é “Aids anunciada: a publicidade e o sexo seguro”.

Fazendo as contas, lá se vão 7 anos de conhecimento sobre Aids, fato que me deixou sempre muito à vontade para viajar por aí e expor idéias. Mas fiz uma descoberta radical na semana passada: eu não sei nada. E peço desculpas. Foi um amigo que me ajudou a perceber isso.

Ele perdeu a mãe na adolescência, vítima de Aids. Por conta do sangue contaminado que o segundo marido dela havia recebido em um tratamento. Naquela época, o sangue não era pré-testado. Quando o meu amigo narrou isso pra mim, levei um susto. Eu sabia do que ele estava falando – afinal, eu havia estudado o assunto -, mas eu não consegui suportar a sua dor como filho que perde a mãe por causa da Aids. E isso me desconcertou totalmente. Até então, ninguém realmente próximo de mim tinha me contado uma história pessoal de Aids. Ou eu não havia sentido como realmente próxima nenhuma das inúmeras histórias que eu tinha ouvido.

Mesmo empolgada com a publicação da minha dissertação em livro, parei de comentar o assunto do lançamento com o meu amigo. Sempre imaginando que falar disso o deixaria triste. Sempre imaginando como seria se eu estivesse no lugar dele: eu não conseguiria me desvencilhar da dor de perder, assim, alguém que eu amasse tanto, da mesma forma como ele ama a sua mãe. Na semana passada, porém, aconteceu o seguinte diálogo entre a gente:

– Fui na Editora hoje e eles estão diagramando! Acho que agora o livro sai.
– eu disse.

– E ele: – Que legal. Um é meu, hein?

– Claro. Mas…

– Mas…?

– Não sei como dizer. Eu não gostaria de ter este assunto em comum com você.

– Qual assunto?

– Este.

– Qual?

– Falei quase sussurrando: – Aids.

– Você quer dizer… por causa da minha mãe?

– É…

– Josi, não acredito.

– É verdade.

– Mas isso é preconceito, sabia?

– Não é. É que eu fico imaginando que isso te traz lembranças tristes. Acho constrangedor falar disso com você.

– Disso? Você está falando da Aids como se ela fosse “A” doença. Criando um mito. Assim é que acontece a morte social de quem tem Aids: a pessoa vira A AIDS. E todo mundo foge dela.

– Não sou preconceituosa. Imagina! Eu!

– E se minha mãe tivesse morrido em um acidente de carro? Seria menos dolorido pra mim? Seria uma morte melhor que morrer de Aids?

– Eu estava me colocando no seu lugar e…

– Não, você não estava. Você não saiu do seu lugar. Eu reagi. Como muita gente reagiu. Eu fui voluntário da causa da Aids. Justamente para evitar que outras pessoas sejam vítimas. Foi por reações assim que a história da Aids mudou. Já pensou se todo mundo que tivesse perdido alguém que amasse por causa da Aids reagisse como você?

– É que sou sua amiga, é diferente. Com os outros, mais distantes, sou mais objetiva.

– Então, por favor, me trate como os outros. Sem preconceito. Você quase não pronunciou a palavra Aids ! Como se fosse uma palavra proibida. Ninguém deve agir assim. Ainda mais quem vai lançar um livro sobre Aids, como você.

Por causa desta conversa, resolvi escrever este texto, antes que o livro saia. É um franco e emocionado pedido de desculpas ao meu amigo e a todas as pessoas vivendo com Aids ou àquelas que perderam pais, amigos, amantes, familiares. Embora eu tenha me dedicado a entender e conhecer a trajetória da epidemia, especialmente no que se refere à publicidade, ainda tenho coisas demais para aprender sobre as questões humanas que a Aids evoca. Desculpa. Teoricamente, claro, eu sabia que é nas atitudes mais cotidianas e “bem-intencionadas”, como não tocar no assunto para evitar a tristeza de um amigo ou projetar-se no outro sem sair do lugar de si mesmo, que o preconceito está. Mas acho que agora, tanto tempo depois, tanta leitura depois, entendi o “objeto de pesquisa” Aids. E fui realmente tocada por ele. Obrigada, amigo.

Josi Paz é publicitária, Mestre em Comunicação e Doutoranda em Sociologia pela


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