Doentes com dor têm pior adesão aos cuidados de VIH

Dor

Deus sabe o quanto dói…

In­vest­i­gadores norte-amer­icanos re­portam na edição on­line do Journ­al of Ac­quired Im­mune De­fi­ciency Syn­dromes que a dor está as­so­ciada a um risco aumentado de faltas às con­sul­tas nas pess­oas in­feta­das pelo VIH.

A in­tenção ori­gin­al do estudo era veri­fi­car se a presença de flu­tuações de hu­mor e/ou abuso de substâncias em con­junto com a dor es­tava as­so­ciada a uma série de in­dic­ad­ores-chave de adesão aos cuid­a­dos de VIH, adesão à terapêutica e taxas de supressão vir­ológica. Após o ajuste para fatores de con­fusão, a única as­so­ciação sig­ni­fic­ativa era entre a dor e as faltas às con­sul­tas e isto apen­as para as pess­oas que sem prob­lemas de abuso de substâncias.

No en­t­anto, os autores acred­it­am que as suas con­clusões têm im­plicações para os cuid­a­dos de saúde para as pess­oas com VIH e sug­er­em que in­ter­venções vo­ca­cion­adas para tratar a dor po­deri­am mel­hor­ar os res­ulta­dos.

Não ex­istem in­vest­igações an­teri­ores que mostr­em que uma larga per­cent­agem de pess­oas in­feta­das pelo VIH vive com dor, prob­lemas de saúde men­tal, di­ficuldades emo­cion­ais e prob­lemas rela­cion­ados com a util­ização ab­u­siva de substâncias. Con­tudo, pou­co se sabe sobre a presença sim­ultânea destes prob­lemas nos doentes.

É bem sa­bido que as flu­tuações de hu­mor e os prob­lemas com dro­gas e álcool po­dem levar a uma fraca adesão à terapêutica an­tir­ret­ro­vir­al. Mas atu­al­mente não há in­formação sobre a co­ex­istência de dor com flu­tuações de hu­mor e abuso de substâncias.

As­sim, in­vest­i­gadores do Alabama desen­haram um estudo en­volvendo 1 521 pess­oas que fo­ram aten­di­d­as numa clínica uni­versitária de cuid­a­dos primári­os entre 2008 e 2011.

Foi per­gun­tado aos par­ti­cipantes se eles tin­ham dores quando en­traram no estudo. Foi-lhes igual­mente per­gun­tado se tin­ham prob­lemas de saúde men­tal tais como an­siedade e de­pressão ou se con­sum­iam dro­gas e/ou álcool em ex­cesso.

O seguimento dur­ou 12 meses. Os in­vest­i­gadores ex­am­in­aram a as­so­ciação entre dor, per­turbações de hu­mor e abuso de dro­gas em sep­arado e em con­junto e vári­os in­dic­ad­ores chave de en­vol­vi­mento nos cuid­a­dos de saúde e adesão ao trata­mento para a in­feção pelo VIH. Estes in­cluíam faltas às con­sul­tas de rot­ina, a ne­cessid­ade de cuid­a­dos de emergência; taxas de adesão ao trata­mento e as hipóteses de al­cançar carga vir­al in­de­tetável.

Os par­ti­cipantes tin­ham uma média de id­ade de 44 anos e 41% eram ho­mens. Quase dois terços tin­ham con­t­agem de célu­las CD4 abaixo das 350/mm3 e a maior­ia tinha carga vir­al in­de­tetável.

Havia uma pre­v­alência el­evada de dor, que ocor­reu em 34% das pess­oas. Os prob­lemas de hu­mor fo­ram re­porta­dos por 25% dos par­ti­cipantes e 10% de­clararam que tin­ham prob­lemas com o abuso de substâncias.

A co­ex­istência de dor e as flu­tuações de hu­mor veri­ficava-se em 16% dos par­ti­cipantes e 2% das pess­oas tinha dor, per­turbações de hu­mor e prob­lemas rela­cion­ados com a util­ização ab­u­siva de substâncias.

A análise ini­cial dos in­vest­i­gadores de­mon­strou que as três variáveis es­tavam as­so­cia­das a idas menos fre­quentes à con­sul­ta. No en­t­anto, após con­trolo para po­ten­ci­ais fatores de con­fusão eles con­cluíram que a dor re­duzia em 50% a hipótese de ir à con­sul­ta, mas só naquelas pess­oas que não tin­ham prob­lemas de util­ização ab­u­siva de substâncias.

“A dor, ao afectar a não com­parências às con­sul­tas, um passo im­port­ante na ca­deia de trata­mento do VIH, tem im­port­antes im­plicações para os res­ulta­dos de saúde”, es­cre­vem os in­vest­i­gadores.

É possível que os doentes com uso de substâncias tivessem mais di­ficuldade em con­tro­lar a dor, pois a prévia util­ização ab­u­siva pode es­tar as­so­ciada a um aumento da severid­ade da dor” sug­er­em os autores. “Como res­ultado, os doentes com um his­tori­al de abuso de substâncias po­dem ser mais propensos a ir às con­sul­tas porque planeiam pedir ajuda para tratar a dor ao médico”.

A dor foi as­so­ciada a um risco aumentado de pro­cura de cuid­a­dos de emergência (OR = 1,6; 95% CI, 1,2-2,0). Con­tudo, no mod­e­lo ajustado es­ta as­so­ciação en­fraque­ceu e foi de sig­nif­icância lim­ite (OR = 1,3; 95% CI, 1,0-1,7).

Hu­mor dep­rim­ido, abuso de substâncias e – em men­or grau – a dor fo­ram to­dos as­so­cia­dos a adesão sub-óptima à terapêutica an­tir­ret­ro­vir­al na análise ini­cial. No en­t­anto, es­sas as­so­ciações de­sa­pare­ceram quando os in­vest­i­gadores levaram em con­ta po­ten­ci­ais fatores de con­fusão.

Não houve evidência de que qualquer uma das variáveis ex­am­in­adas neste estudo tivesse aumentado o risco de piores res­ulta­dos vir­ológi­cos.

“Porque a dor, as flu­tuações de hu­mor e o abuso de substâncias são alta­mente pre­val­entes em doentes in­feta­dos pelo VIH, as nossas con­clusões têm im­plicações para o su­cesso do trata­mento da in­feção pelo VIH”, con­cluem os in­vest­i­gadores. “As nossas con­clusões sug­er­em que as in­ter­venções que in­cor­poram a gestão da dor de­vem ser in­vest­i­ga­das, pois pode ser im­port­ante para mel­hor­ar os res­ulta­dos em doentes que vivem com a in­feção pelo VIH.”

Referência

Mer­lin JS et al. Pain, mood, and sub­stance ab­use in HIV: im­plic­a­tions for clin­ic util­iz­a­tion, ART ad­her­en­ce, and vir­o­lo­gic fail­ure. J Ac­quir Im­mune Defic Syn­dr, on­line edi­tion. DOI: 10.1097/QAI.0b013e3182662215, 2012.

Mi­chael Carter
Pub­lished: 12 Septem­ber 2012

Nota do editor de Soropositivo.org:

Embora o vídeo esclareça, e e é por isso que ele está aqui, há um pouco de excesso de moralismo quando se conclama uma pessoa a ser “fiel a um único parceiro”  ou optar por “abstinência sexual”…

Para algumas pessoas isso simplesmente não é possível, quer seja por este ou por aquele motivo.

Meu conselho é, para todos os casos onde se exprima sexualidade, sempre usar preservativo!

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