Tatiana Sabadini
Publicação: 03/01/2010 07:50 Atualização: 03/01/2010 10:40
O ano começa e, com ele, é hora de colocar a agenda da saúde em dia. Para as mulheres com vida sexual ativa, será preciso fazer o papanicolau. Aquelas que têm mais de 40 anos não podem fugir dos 10 minutos do exame de mamografia. Na lista dos homens com mais de 45 anos, é necessário incluir o exame de toque e o teste de dosagem do antígeno prostático específico (PSA, sigla em inglês). Mas, depois de tanta polêmica em 2009 com relação a esses três procedimentos, fica a dúvida: será mesmo indispensável passar por eles? Para especialistas que conversaram com o Correio, a avaliação dos médicos deve levar em conta, cada vez mais, as especificidades de cada paciente.
Em novembro passado, o United States Preventive Services Task Force (órgão que regula as políticas preventivas do governo) anunciou que o melhor para as mulheres era fazer a mamografia depois dos 50 anos. A afirmação causou polêmica. A justificativa para a mudança é que os testes poderiam levar as pacientes a fazerem biópsias, passarem por um forte estresse no caso de um resultado falso positivo e serem submetidas a tratamentos desnecessários. A alegação dos pesquisadores é a de que o exame radiológico reduziria em apenas 15% as mortes por câncer de mama.
No Brasil, porém, a Sociedade Brasileira de Mastologia continua recomendando o teste anual para todas as mulheres com mais de 40 anos. “Nossa realidade é muito diferente daquela encontrada nos Estados Unidos e na Europa. Nos EUA, há uma cultura antiga de se fazer a mamografia. Os tumores encontrados por lá são de estágios iniciais, em média, de 1cm. Diferentemente do que acontece no Brasil, que tem uma alta incidência de tumores em estágio avançado por causa do diagnóstico tardio”, explicou em nota o presidente do órgão, Ricardo Chagas.
Para a ginecologista e obstetra Maria Inês Miranda Lima, diretora da Associação dos Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), a mudança é justificável para quem não tem um alto risco de câncer de mama. “Foi levantado que, a cada 680 mil exames realizados em mulheres entre 40 e 50 anos, ocorre um caso de morte. Nessa faixa etária, a mama é muito densa e, às vezes, pode acontecer um falso positivo, e isso estressa a mulher. Por isso, você começa a questionar o benefício do exame. Mas, quando olhamos o impacto na mortalidade e vemos que esse único caso de óbito poderia deixar de ser diagnosticado, isso também pesa”, afirma a especialista.
Diagnóstico precoce
Quando o assunto é câncer, o diagnóstico precoce é fundamental. “Quando você escuta essa palavra, imediatamente pensa em uma doença grave e letal, mas a possibilidade de cura está diretamente relacionada à prevenção primária; ou seja, evitar a doença, e a uma outra secundária, que é fazer um diagnóstico precoce”, comenta Amândio Soares, oncologista e diretor geral do Centro de Prevenção e Tratamento de Doenças Neoplásicas. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer, pelo menos 40% das mortes causadas pela doença poderiam ser evitadas com a detecção precoce.
Para diagnosticar o câncer de mama, o exame clínico é importante. O autoexame é essencial, mas ter uma boa orientação do ginecologista também pode ajudar. “Às vezes, na prática clínica, podemos examinar uma mama que é muito densa, por exemplo. O melhor procedimento é fazer o ultrassom e, se necessário, completar com a mamografia. Assim, conseguimos pegar as fases iniciais de um tumor. Apesar de a eficácia do exame ser considerada baixa, não podemos negligenciar nada. Principalmente, porque o avanço da doença é muito rápido na faixa etária dos 40 aos 50 anos”, explica Maria Inês.
Uma nova recomendação para as mulheres também surgiu em 2009. Para a American College of Obstetricians and Gynecologists (Instituto Americano de Ginecologistas e Obstetras), o primeiro exame preventivo contra o câncer do colo do útero, conhecido como papanicolau, deve ser evitado por jovens de até 21 anos. A indicação anterior do grupo, que ainda é vigente por aqui, era de que adolescentes fizessem o exame até três anos depois da primeira relação sexual.
Segundo Maria Inês, muitas mulheres ainda têm dúvidas sobre quando é necessário fazer o exame e deixam a decisão nas mãos do médico. “O fato é que, três anos depois da primeira atividade sexual, é normal que a mulher tenha contato com o vírus do HPV e, se ele não for tratado, pode levar ao câncer de colo. Mas o corpo também tem o poder de levar esse vírus embora, naturalmente. A paciente pode ter uma mancha e, depois de um tempo, o organismo já acabou com tudo aquilo”, explica a ginecologista, que também recomenda o exame depois dos 21 anos.
Consequências
O papanicolau, diz a médica, é capaz de levar a um falso diagnóstico. Se essa alteração for tratada de forma errônea, ela pode trazer consequências ruins. “Para uma menina de 18 anos, fazer cauterização intensa é um tratamento exagerado. O médico deve acompanhar o caso e agir quando o HPV persistir”, afirma Maria Inês. Se algum procedimento desnecessário for feito no colo do útero, a mulher tem mais chances de desenvolver algum problema quando engravidar, como, por exemplo, parto prematuro.
Outro assunto polêmico de 2009 foi a necessidade de se fazer precocemente o exame de toque retal. Um estudo realizado pela Clínica New Mayo e apresentado na Associação Americana de Urologia conseguiu comprovar que o tamanho da próstata e o nível de PSA não indicam, necessariamente, o desenvolvimento de um câncer. A biópsia, de acordo com a pesquisa, só deveria ser indicada quando a alteração do antígeno prostático específico for muito rápida. Todos esses fatores podem variar, de acordo com peso, estilo de vida e idade do indivíduo, assim como o tamanho da próstata. “Inflamações e outros fatores podem elevar o PSA. Quando isso acontece, o homem geralmente é aconselhado a fazer uma biópsia. O problema é que, com a idade, ele desenvolve tumores microscópicos, que nunca se desenvolveriam em um câncer fatal, mas que são tratados como tal”, relatou um dos investigadores do estudo, Gary G. Schwartz.
“Os exames de próstata, realmente, não têm uma boa eficácia, mas vale a pena fazer. Infelizmente, é o único meio que temos disponível para detectar o câncer mais comum no homem. Por isso, não devemos abrir mão desse método”, afirma o oncologista Amândio Soares. O médico acredita que, a médio prazo, a medicina pode descobrir uma forma mais precisa de diagnóstico. Porém, ele afirma que, por enquanto, a melhor forma de prevenção é a avaliação médica. “A indicação, nos três casos de câncer – próstata, colo de útero e mama -, deve ser individualizada. Converse com o médico e se informe, porque, quando a definição não é clara, é sempre melhor ter precaução”, conclui o oncologista.
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04/JANEIRO/10 |
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