, Ignorados e vulneráveis Hércules Barros Da equipe do Correio Lucas Pádua/CB Uma parcela dos brasileiros está à margem das estatísticas de saúde no Brasil. Usuários de drogas injetáveis, homossexuais masculinos e profissionais do sexo, geralmente, ficam ocultos dentro das pesquisas feitas com a população em geral. Para conhecer a vulnerabilidade do segmento a infecções como o HIV e a sífilis e definir ações específicas, o Ministério da Saúde vai investir R$ 2,4 milhões em um levantamento coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O estudo Taxas de infecção de HIV e sífilis e inventário de conhecimento, atitudes e práticas de risco relacionadas às infecções sexualmente transmissíveis vai fazer, a partir de janeiro do próximo ano, a radiografia do comportamento sexual dos três grupo específicos. A intenção da Fiocruz é atingir 8,4 mil pessoas em Manaus (AM), Recife (PE), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), Santos (SP), Curitiba (PR), Itajaí (PR) e Campo Grande (MS), além de Brasília (DF). As cidades foram escolhidas pelo Programa Nacional de DST e Aids devido aos índices de vulnerabilidade a infecções sexualmente transmissíveis. “Toda vez que se faz pesquisa tem uma população oculta, que não aparece em lugar nenhum. Seja por razões pessoais ou de marginalização”, diz o responsável pelo estudo, Francisco Bastos. Encarregado do contato com usuários de drogas injetáveis, Bastos vai montar base no Ambulatório da Providência, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, onde os usuários de drogas buscam ajuda médica sem precisar se identificar. “A intenção da pesquisa é chegar na periferia da periferia”, ressalta. A abordagem utiliza um método novo de aproximação de populações vulneráveis, o Respondent Driven Sampling ou sistema RDS. Sem tradução do nome para o português, a técnica tenta mapear pessoas de difícil acesso e extremamente significativas como as populações que exercem atividades ilegais, ilícitas ou que vivem nas periferias da sociedade. “Geralmente esse público só chega à rede pública de saúde quando está em estado grave”, explica Bastos. “O produto esperado desse estudo é um banco de dados de pesquisa contendo propostas que possam subsidiar as rotinas de atendimento, prevenção das DST/Aids para a população estudada, segundo as suas especificidades”, avalia a diretora do Programa Nacional de DST e Aids do ministério, Mariangela Simão. O projeto deve durar 12 meses e selecionará pessoas com mais de 18 anos. Participantes convidados Para atingir um público tão arredio, o sistema RDS envolve os próprios participantes na escolha dos entrevistados. Uma pessoa, abordada em um ambiente de vulnerabilidade como uma zona de prostituição, convida outras três para integrar a amostragem. “Vamos atrás dos moradores dos subúrbios e favelas porque conseguem penetrar em redes mais fechadas e trazem essas pessoas para o sistema de saúde”, explica Bastos. Como incentivo para atrair a população oculta que vive em regiões mais distantes, o trabalho vai distribuir vales transporte e alimentação. “Essas pessoas não viriam para atendimento por conta própria devido a questões financeiras”, afirma a médica Lígia Regina Kerr, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Especialista em epidemiologia, Kerr vai coordenar o levantamento de taxas de infecção de HIV e sífilis em homossexuais, independentemente da identidade assumida ou da forma velada que o gay lida com a própria sexualidade. “Acabam entrando (na pesquisa) bissexuais de diferentes níveis sócio-econômicos, que tentam esconder a condição sexual procurando relações em áreas distantes de onde moram. Vamos poder ter uma aproximação mais real do comportamento desse grupo”, explica. Kerr pretende confirmar a hipótese de que os homossexuais, principalmente nas camadas jovens de classes menos favorecidas, não cuidam da saúde com regularidade. “Quando tem uma campanha, o efeito preventivo é imediato, mas depois as pessoas se descuidam”, explica. De acordo com a pesquisadora, os jovens da periferia entram na vida sexual ativa sem formação crítica e viram alvo fácil. “Um hábito entre gays de São Francisco (Estados Unidos) pode ter um efeito avassalador em populações vulneráveis dentro de camadas sociais mais baixas”, afirma. A pesquisadora faz referência ao barecking. A prática sexual, que em português significa cavalgar sem sela, é adotado por uma parcela da comunidade gay que considera o uso da camisinha inadmissível e a escolha do parceiro sexual aleatória. “Esperamos descobrir com a pesquisa nacional quantas vezes os jovens estão mais em risco do que os adultos”, sugere Kerr. A pesquisadora acredita que a pesquisa pode, inclusive, traçar as diferenças regionais entre os jovens homossexuais. Só mulheres O recrutamento de profissionais do sexo começará em Santos (SP) e selecionará apenas mulheres. Segundo a pesquisadora da Fiocruz Célia Landmann, responsável por essa parte da pesquisa, os garotos de programa ficam de fora do grupo porque estarão representados nos homens que fazem sexo com homens. Para Landmann, a pesquisa pode esclarecer se as prostitutas são ou não ponte de transmissão de doenças infecciosas para a população em geral. “Acredito que não. Elas vivem do sexo e se organizam. Hoje não dá para dizer que essa população se cuida mais ou menos do que o público em geral.” O perfil de garotas de programa que moram com a família e não declaram a condição sexual é outro nicho a ser investigado. “Em pesquisas de base domiciliar elas não aparecem”, justifica. Por meio de organizações não-governamentais, a pesquisadora pretende se aproximar de pequenos grupos de profissionais do sexo. “São mulheres que moram em albergues, hotéis e em repúblicas. Vamos fazer um retrato da faixa etária, escolaridade e nível de prevenção delas”, afirma. POPULAÇÃO OCULTA A pesquisa Taxas de infecção de HIV e sífilis e inventário de conhecimento, atitudes e práticas de risco relacionadas às infecções sexualmente transmissíveis pretende fazer a caracterização epidemiológica e sócio-demográfica de usuários de drogas injetáveis, homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo para traçar: As taxas de prevalência de HIV e sífilis em cada grupo O conhecimento sobre as formas de transmissão A freqüência de práticas de risco relacionadas a infecções sexualmente transmissíveis A identificação dos fatores associados ao sexo desprotegido e à infecção pelo HIV e sífilis As diferenças nas características sócio-demográficas dos 10 municípios abrangidos O quanto o grau de conhecimento sobre formas de transmissão do HIV e outras infecções dos grupos se diferencia da população em geral
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