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Jornal de Brasília |
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16/JANEIRO/08 |
Todas as vítimas confirmadas estiveram em municípios de Goiás
Luciene Cruz
A febre amarela fez mais três vítimas no País. Ontem, duas mortes foram confirmadas em Goiânia e uma no Paraná, aumentando para cinco o número de óbitos neste ano. As confirmações levam o governo federal a concentrar sua preocupação em Goiás, já que nos cinco registros confirmados no Brasil, a suspeita é que as vítimas tenham sido contaminadas em municípios goianos, onde estiveram nos últimos dias. As mortes de janeiro já se igualaram ao total de vítimas fatais de 2007.
O reflexo do contágio pelo estado vizinho também repercute na suspeita de mais três novos casos no DF. Mais um paciente com sintomas de febre amarela morreu. Poucas informações foram divulgadas sobre a vítima. Sabe-se que é um agricultor, 44 anos, morador de Luziânia. Ele faleceu na última segunda-feira.
O óbito do agricultor trouxe à tona os riscos de contágio nos municípios de Goiás. Ele foi internado no último domingo no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Inicialmente, a internação ocorreu no Hospital Regional do Gama (HRG), onde deu entrada junto com o irmão que também é agricultor e apresentou os mesmos sintomas. Ambos apresentaram febre alta, dores muscular, náuseas e vômito. Como teve o quadro agravado, foi transferido para a unidade da Asa Norte. Já o irmão da vítima, que também é agricultor, teve o quadro revertido e passa bem.
O terceiro suspeito está internado no Hospital Anchieta, localizado em Taguatinga. O agente administrativo e pastor Antônio Rates dos Santos, 44 anos, está internado em estado grave há uma semana. Quando deu entrada na emergência, apresentava febre alta aguda e dores no corpo. Na última sexta-feira, foi levado para Unidade de Terapia Intensiva (UTI) onde respira por aparelhos, sofre de insuficiência renal, hepática e faz hemodiálise.
Ontem à noite, o hospital divulgou boletim informando que o quadro geral de Antônio se agravou no período vespertino, após apresentar parada cardiorespiratória, que foi revertida.
As próximas 48 horas são decisivas para a situação clínica do paciente. Antônio esteve entre os dias 30 de dezembro e 2 de janeiro no município goiano de Abadiânia, localizado a 120 quilômetros de Brasília.
Ele passou a festa de fim de ano em uma chácara da família, junto com os irmãos, os pais, a esposa e os três filhos. Segundo a irmã da vítima, Ana Maria Carvalho, 40 anos, ninguém havia sido vacinado. "O pessoal só acorda quando acontece uma tragédia. Queremos que isso sirva de lição para que a população se proteja", comentou.
Graco
Com a internação de Antônio, os familiares foram se vacinar. "Estamos com medo dessa situação. Agora só nos resta acreditar em Deus para que o quadro se reverta", disse o também irmão João Evangelista, 47 anos. O resultado do exame de sorologia deve sair até sexta-feira.
A situação do agente administrativo é semelhante à ocorrida com o administrador de empresas Graco Carvalho Abubakir, 38 anos, que morreu no último dia 8. O jovem passou o Réveillon no município goiano de Pirenópolis, localizado a 150 quilômetros do DF, área considerada endêmica. Ao retornar ao DF, apresentou os sintomas da doença. Morreu quatro dias após a internação.
No total, são quatro o número de suspeitos no DF. O outro caso é do paciente de 34 anos, morador de São Sebastião, que morreu no dia 5. O exame macroscópico descartou febre amarela. No entanto, foi realizada a necropsia do corpo para resultado definitivo. O laudo final deve sair nos próximos dias.
Tranqüilidade
Mesmo com as novas suspeitas no DF, e a confirmação de novas três mortes supostamente importadas do Estado de Goiás, a Secretaria de Saúde reforça a prevenção na cidade e descarta a existência de epidemia. Segundo o titular da Subsecretaria de Vigilância em Saúde, Joaquim Barros, todas as medidas preventivas foram tomadas. "A febre amarela sempre foi uma preocupação preventiva. Só intensificamos as ações", comentou.
Nos últimos 17 dias, mais de um milhão de vacinas foram aplicadas no Distrito Federal e outras seis mil nas zonas rurais. Número quatro vezes superior à expectativa inicial de 240 mil doses. "Estamos tranqüilos, pois são casos importados de outros estados", finalizou Barros.
"Estamos tranqüilos, pois os casos de febre amarela são importados de outros estados"
Joaquim Barros, titular da Subsecretaria de Vigilância em Saúde
Mais 27 casos suspeitos
O Ministério da Saúde investiga 27 casos suspeitos em todo o Brasil. Destes, seis foram confirmados, com cinco mortes e um caso em recuperação. Todas as ocorrências registradas são por febre amarela silvestre, já que as vítimas estiveram em áreas endêmicas antes de apresentarem os sintomas da doença.
O primeiro foi o caso ocorrido em Brasília com o admistrador de empresas Graco Carvalho Abubakir, 38 anos. A segunda morte pela doença foi confirmada na última segunda-feira, em Goiás. Um lavrador de 24 anos morreu no último dia 2. A vítima, que não teve o nome divulgado, residia e trabalhava na zona rural de Goianésia, distante 170 quilômetros da capital do estado.
Os demais casos foram confirmados ontem. O empresário Almir Rodrigues da Cunha, 46 anos, faleceu na última quarta-feira, em Maringá, no Paraná. A vítima esteve em Caldas Novas (GO) entre os dias 22 de dezembro do ano passado e 1º de janeiro.
Em Goiás, dois outros casos foram confirmados. Ainda existem outros sete sob suspeita. A aposentada Maria Geraldina, 63 anos, de Mogi das Cruzes (SP), passou férias na cidade de Rubiataba (GO). Ela foi internada em um hospital particular de Ceres (GO) no dia 8 e morreu no dia seguinte.
Já o espanhol Salvador Perez de La Cal, 41 anos, que também passou pelo estado de Goiás, foi internado no dia 10 de janeiro e morreu no dia 12. Os resultados positivos são dos exames sorológicos.
Desmatamento
Para o epidemiologista José Cássio de Moraes, da Santa Casa de São Paulo, o aumento de ocorrências por febre amarela pode estar relacionado ao desmatamento e a ocupação desordenada de terras. "Toda essa mudança do ecossistema, o aquecimento global, chuvas intensas, calor, tudo isso é um facilitador de doenças por vetores", comentou.
A invasão de terras para a criação de trilhas ecológicas com fins comerciais, como é o caso de regiões em Goiás e também em Minas Gerais, provocam grandes alterações no ecossistema. Mudanças que podem levar o mosquito Haemagogus a substituir o macaco, que é hospedeiro da doença, pelo homem. "Os macacos vivem nas copas das árvores. O ciclo se forma e se mantém restrito ali. Na hora em que as árvores são destruídas e surge a presença de um outro primata, o ser humano, esse Haemagogus vai substituir o macaco pelo homem", comentou.
Na passagem do milênio, houve várias excursões a locais considerados esotéricos, como a Chapada dos Veadeiros (Goiás) e a Chapada dos Guimarães (Mato Grosso). Tivemos um aumento razoável de casos de febre amarela em viajantes que
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oram para essas regiões e não estavam vacinados", afirmou.
O especialista alerta que, se a expansão urbana em áreas rurais não for ordenada e equilibrada, a mudança pode acarretar não só no aumento de casos de febre amarela em escala mundial, como também de outras doenças transmitidas por vetores, como a leishmaniose e a malária. "Existe toda essa questão de desequilíbrio e ocupação desordenada, que traz este aumento de casos", afirmou. No entanto, associa-se o quadro de febre amarela no Brasil apenas a uma epidemia localizada em população não-vacinada, que mora em regiões rurais ou que entra em contato com a mata onde podem ser encontrados macacos portadores do vírus da doença.
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